Dia Mundial do Queijo: Agroindústria familiar mineira produziu 43 mil toneladas da iguaria em 2025
Com a produção concentrada na agroindústria familiar e o forte peso dos queijos artesanais, Minas Gerais celebra o Dia Mundial do Queijo, comemorado nesta terça-feira (20), com 43 mil toneladas produzidas em 2025. No entanto, neste ano, o mercado da produção da iguaria mineira chega à data em meio a um novo cenário: a assinatura do Acordo de Livre Comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE).
Um levantamento inédito da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG) aponta que a produção familiar envolve 12,5 mil agroindústrias dedicadas à fabricação de queijos em mais de 800 municípios. Desse total, 32,1 mil toneladas correspondem a queijos artesanais feitos com leite cru, o equivalente a 74,6% de toda a produção familiar no Estado, o que reforça o peso do modelo artesanal na estrutura produtiva mineira.
Os dados da Emater-MG indicam que essa base produtiva é formada majoritariamente por pequenos empreendimentos. Minas Gerais reúne 8,8 mil agroindústrias familiares dedicadas à produção de queijos artesanais, distribuídas por regiões com identidade própria e tradição produtiva transmitida entre gerações.
Para a coordenadora técnica da Emater-MG na área de queijos artesanais, Rayanne Soalheiro de Souza, o modelo amplia o valor agregado do leite e fortalece o desenvolvimento local. “A produção de queijos artesanais representa um salto estratégico para a diversificação econômica e agregação de valor ao leite produzido nas propriedades. Esse modelo fortalece o desenvolvimento sustentável das famílias e das comunidades rurais”, afirma.
Sobre o acordo com a UE, o presidente da Associação Mineira do Queijo Artesanal (Amiqueijo), José Ricardo Ozólio, avalia que a assinatura não representa ameaça imediata ao setor, mas um estímulo à reorganização produtiva. “Eu, particularmente, penso que, para nós, talvez não exista medo. Existe, sim, uma provocação para que a gente possa melhorar as nossas relações comerciais. Vejo que é algo que não tem como retroceder, vai acontecer mesmo. E, por isso, a gente precisa se preparar”, afirma.
A preparação, segundo Ozólio, passa pela profissionalização da atividade, pela revisão de processos e pela adequação normativa. “Estar preparado significa fazer com que o nosso queijo, que é artesanal, consiga passar à frente desse queijo que vem de fora. Isso nos provoca a melhorar a nossa forma de trabalhar, a melhorar a legislação, para que a gente consiga fazer o queijo com mais tranquilidade e com menos custo”, diz.
O Queijo Minas Artesanal
Dentro desse universo, o Queijo Minas Artesanal (QMA) concentra a maior parcela da produção. Em 2025, foram estimadas 18,4 mil toneladas, elaboradas por 3,5 mil agroindústrias familiares. No fim de 2024, os Modos de Fazer o Queijo Minas Artesanal foram incluídos na lista do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), reconhecimento que ampliou a visibilidade internacional do produto.
Atualmente, dez regiões mineiras são caracterizadas como produtoras de QMA, entre elas Canastra, Serro, Araxá e Campo das Vertentes. Além dessas, outras seis regiões são reconhecidas pela produção de diferentes tipos de queijos artesanais, como Alagoa, Mantiqueira de Minas e Vale do Jequitinhonha, onde é produzido o queijo cabacinha.
Para Ozólio, a abertura do mercado europeu tende a criar um parâmetro direto de comparação para o consumidor. “Imagine você ter na sua mesa um queijo francês, um italiano, um português, uma gama de queijos europeus, e também os nossos. Você vai ter condição de perceber que o nosso é muito melhor. Não é soberba, é valorização do que é nosso. Esse parâmetro tende a ser bom para a gente”, afirma.
Barreira sanitária
Ainda assim, o dirigente aponta que a competitividade depende de avanços estruturais. Entre eles, o enfrentamento das barreiras sanitárias aparece como central. “Hoje, nós temos algumas barreiras sanitárias. Para vencer essas barreiras, o principal ponto é a tuberculose e a brucelose. Precisamos ficar livre dessas doenças, e isso precisa ser uma política de Estado, não uma política de governo”, diz.
Segundo ele, a superação dessas limitações permitiria ao queijo mineiro disputar mercados externos em condições semelhantes às dos produtos europeus. “Se eles venderem o queijo deles aqui com tarifa zero, a gente também pode vender o nosso lá com tarifa zero”, afirma.
Apesar do interesse no mercado internacional, especialmente o europeu, a questão da escala segue como desafio estrutural. A produção artesanal, por definição, impõe limites naturais de volume. “Quando falamos do queijo artesanal de Minas, estamos falando de um produto artesanal. A maioria dos produtores é pequena. Existe um limite natural de escala”, afirma Ozólio.
Ele observa que a exportação já é viável para alguns países da América do Sul, mas ampliar destinos depende de soluções coletivas e articulação institucional. “Hoje, há possibilidade de exportação para alguns países cuja legislação sanitária é atendida pela nossa, principalmente na América do Sul. O grande problema que nós temos é a escala”, diz.
Ouça a rádio de Minas