Girolando sob novo comando: Alexandre Lacerda detalha planos para enfrentar a crise do leite e avançar em genética
A Associação Brasileira dos Criadores de Girolando (Girolando), com sede em Uberaba, no Triângulo, está sob nova gestão, que será liderada pelo criador da raça, Alexandre Lacerda. A raça girolando, resultado do cruzamento entre as raças gir e holandesa, é reconhecida por sua rusticidade, saúde e alta produtividade de leite.
A nova diretoria, que tomará posse em 26 de fevereiro, assume em um cenário de crise severa na produção leiteira, enfrentando cerca de nove meses consecutivos de queda nos preços pagos aos produtores devido à concorrência desleal com leite importado, principalmente, da Argentina e Uruguai. Por outro lado, a raça segue avançando no uso da genética melhoradora, na seleção genômica, na eficiência e em ações que estimulam a promoção da raça e também na permanência dos jovens na produção leiteira.
Em entrevista ao Diário do Comércio, o novo presidente da Girolando, Alexandre Lacerda, comenta a importância da raça na economia mineira e nacional, os desafios e linhas de trabalho da nova diretoria. Lacerda é criador de girolando há 26 anos, na Fazenda Miraí, em Jaboticatubas, região Central de Minas Gerais.
Qual a importância da raça Girolando e do setor leiteiro no Brasil?
O gado girolando representa mais de 80% do leite produzido no Brasil. A associação conta com mais de 4,5 mil associados, sendo Minas Gerais responsável por 47% deles. O leite é um produto de grande importância em Minas Gerais e no Brasil, pois a produção acontece em 98% dos municípios brasileiros e emprega mais de 4 milhões de pessoas em 1 milhão de propriedades. Destas, 60% são pequenas propriedades que produzem menos de 200 litros de leite por dia, destacando a relevância do pequeno produtor e da agricultura familiar. O Brasil é o quarto maior produtor mundial de leite, com 35 bilhões de litros por ano.

O setor leiteiro enfrenta um momento de crise, com a queda consecutiva dos preços pagos aos pecuaristas. Um dos maiores problemas é a importação desenfreada de leite, especialmente, da Argentina e do Uruguai, e a preços que não condizem com o mercado interno. Como isso tem impactado na produção local?
Essa prática é considerada desleal, pois o leite importado é comercializado a quase metade do preço praticado internamente nos países de origem, e há preocupações com a qualidade, já que esses países podem utilizar farinhas de origem animal proibidas no Brasil. Apesar da eficiência dos produtores brasileiros, que aumentaram a média per capita animal de 4 mil quilos por ano para quase 8 mil quilos anuais em 20 anos, a competição com preços desleais é insustentável. A crise tem levado muitos produtores a liquidar seus rebanhos e encerrar atividades.
Quais medidas a Girolando defende para resolver o problema das importações de leite e fomentar o mercado interno do leite?
Nós, da Girolando, defendemos medidas que venham evitar a importação de leite. A associação, junto a outras entidades, tem como prioridade imediata barrar ou reduzir drasticamente as importações. Estamos envolvidos em processos antidumping. Barrar as importações dará um “refresco” ao setor. As autoridades precisam ter sensibilidade, a importação afeta muito as economias dos produtores e das cidades. Além disso, queremos fomentar o consumo de leite e derivados, destacando a importância nutricional e presença em diversos produtos.
No que se refere à eficiência, como a Girolando atua para levar mais tecnologia e melhoramento genético aos produtores, incluindo os de pequeno porte?
A Girolando atua junto aos produtores defendendo a eficiência, o melhoramento genético e a produtividade, que são essenciais para a rentabilidade e enfrentar crises. A associação possui um programa de melhoramento genético expressivo, com mapeamento de 34 características genômicas dos animais, permitindo a seleção de animais mais eficientes, saudáveis e longevos.
Vamos fomentar o associado com acesso a conteúdo, melhores práticas e informações de qualidade para promover a evolução. A associação busca aproximar-se do produtor, levando novas tecnologias e informações, com representantes estaduais que atuaram captando as necessidades locais.
Junto aos pequenos produtores, são várias as iniciativas. O programa de melhoramento genético inclui a distribuição de doses de sêmen para rebanhos colaboradores e parcerias com municípios, como Uberaba, para compartilhar genética com pequenos produtores. Há também um fundo de investimento e convênio com a Embrapa para pesquisas em melhoramento genético.
Um dos grandes desafios do agronegócio e da pecuária de leite é a formação de sucessores. Como irão atuar nesta frente?
Este ano, durante a MegaLeite, haverá o lançamento do projeto Girolando Jovem, que tem o objetivo de envolver a juventude nos negócios do leite, na gestão das fazendas e no avanço tecnológico. A tecnologia tem nos privilegiado e nos ajudado muito na atração dos jovens, porque com as ferramentas fica tudo mais fácil, tornando o campo mais atrativo. O jovem tem muito a contribuir no avanço tecnológico das propriedades, no avanço dos rebanhos, da produtividade, do melhoramento genético e a gente vai incentivar muito isso, especialmente, com essa plataforma do Girolando Jovem.
A Girolando é responsável pela realização da maior feira da pecuária leiteira da América Latina, a Megaleite. Qual a expectativa para o evento em 2026?
A Megaleite é um evento chave para a associação e nossas expectativas são de superar os 100 mil visitantes de 2025 e gerar entre R$ 350 milhões e R$ 400 milhões em negócios. O evento, além de reunir criadores de todo o Brasil, também recebe delegações de diversos países, o que é importante para a internacionalização da raça. Esta é uma frente que a Girolando vai trabalhar, queremos levar a genética para países tropicais como as Filipinas, a África, a Turquia, Malásia, países estes que vêm demonstrando grande interesse na genética e nos animais da raça, que se adaptam muito bem a esses climas. O Brasil tem potencial para ser um grande exportador de genética.
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