Cafeicultores do Cerrado Mineiro adotam laranja para reduzir perdas com geadas
Cafeicultores da região do Cerrado Mineiro estão adotando medidas para reduzir as perdas causadas pelas geadas. Como resposta aos prejuízos recorrentes, o plantio de laranja tem avançado sobre as áreas antes cultivadas com o café e que foram afetadas pela intempérie climática. A cultura cítrica é considerada uma alternativa viável devido à maior resistência e também pelo potencial de rentabilidade. A adoção da cultura na região do Alto Paranaíba e Triângulo ainda é incentivada pelo clima propenso e o aumento da incidência de greening em São Paulo, o que tem inviabilizado o cultivo.
Conforme o gerente regional Sebrae Noroeste Alto Paranaíba, Marcos Geraldo Alves da Silva, a região do Cerrado Mineiro observa um movimento de diversificação agrícola com o plantio de laranja. Ele explica que a migração da produção de laranja para a região se assemelha à história da cafeicultura no Cerrado Mineiro, que começou há 50 anos com a chegada de produtores de São Paulo e Paraná devido a questões climáticas e doenças.
“Atualmente, o principal motivo para o movimento da laranja é o greening, uma doença que afeta a produção em São Paulo. O produtor de café ao perceber que existe essa possibilidade, que existe esse movimento, tem investido no cultivo consorciado e tem ampliado a cesta de produção. Na região, a laranja tem sido adotada em áreas de café que são mais acometidas por geadas e também em áreas não utilizadas para produção de café”.
A gestora de qualidade de cafés especiais da Fazenda Santa Cruz do Grupo AgroBeloni, em Patrocínio, Elesandra Beloni, é uma das cafeicultoras que adotou a laranja em áreas de café atingidas pelas geadas.
“Adotamos a laranja como uma alternativa para as áreas antes plantadas com café e que foram atingidas pelas geadas, por suportar muito mais o frio. A fruta também veio como mais uma alternativa para diversificar a atividade e já entra no mercado que a gente conhece, que é de hortifruti. Hoje, temos 90 hectares ocupados com a laranja e vamos expandir”.
A primeira colheita da laranja na Fazenda Santa Cruz acontecerá este ano. O laranjal tem dois anos e dois meses de plantio e as expectativas são positivas. “Diferente do café, a laranja tem uma janela mais longa para a colheita. A região é totalmente propícia para a produção, gerando uma laranja muito doce, com polpa bem amarela e avermelhada”, explicou.
Elesandra ressalta que o principal desafio da cultura é o controle do greening. “É Preciso ter o controle do greening, promover barreiras para que a doença não se dissemine rápido em Minas Gerais. Para isso, é preciso um trabalho conjunto com as entidades e produtores”.
O CEO da Quatro Irmãos Agronegócio, em Patrocínio, Mário Alves Rebehy, também enxerga no cultivo da laranja uma alternativa para áreas onde ocorrem geadas e inviabilizam a produção do café. O primeiro plantio, 35 hectares, aconteceu no ano passado e esse ano a previsão é plantar mais 35 hectares. A expectativa é chegar a 100 hectares em 2027.
“O produtor que teve áreas de café afetadas pelas geadas não pode arriscar mais e a laranja é uma alternativa interessante, por ser uma lavoura perene com características próximas ao café. Quem vem do café, planta bem a laranja”.
Sucesso da laranja dependerá do controle do greening
O gerente regional do Sebrae Noroeste/Alto Paranaíba, Marcos Geraldo Alves da Silva, explica que é necessário ações para o controle do greening em Minas Gerais, o que será essencial para a expansão segura da produção de laranja. Ele ressalta que a expectativa é que a produção de laranja em São Paulo seja dizimada e que a tendência é migrar o cultivo para outros estados, em especial, para o Alto Paranaíba, Triângulo e para o Noroeste de Minas Gerais.
Com a estimativa de investimentos crescentes no cultivo da laranja, entidades do agronegócio e produtores estão criando um movimento para tentar conter o avanço do greening no Estado.
“O movimento denominado Cinturão Anti-Greening vai ao encontro de estabelecer políticas públicas com os municípios para que sejam estruturadas barreiras sanitárias e a doença não se movimente e não se espalhe na região. Porque se isso acontecer, assim como em São Paulo, isso acabaria impactando e inviabilizando a produção de citricultura no território mineiro”.
A analista técnica do Sistema Faemg Senar, Mariana Moreira Marotta, explica que a criação do Cinturão Anti-Greening é importante pela doença ser uma das mais severas e uma das principais que acomete a cultura no mundo.
“O citrus sofre muito com o greening. Produtores de café e de grãos estão adotando a cultura da laranja e para não serem pegos de surpresa estão trabalhando com o cinturão”.
A ideia do cinturão é proteger a região produtora com ações de prevenção ao greening, como acompanhamento de quantidade de insetos, proibição do plantio de árvores da espécie murta, eliminação de pomares abandonados e orientação para propriedades que têm lavouras para consumo próprio.
Erradicação da espécie murta
O presidente do Sindicato Rural de Araxá, Osmar Gonçalves dos Santos, explica que o Cinturão Anti-Greening é a sobrevivência da citricultura na região e em Minas Gerais. O município foi o primeiro a aprovar uma lei que proíbe árvores da espécie murta, que serve como hospedeira do psilídeo, inseto transmissor da bactéria causadora do greening.
“O Cinturão Anti-Greening vem como uma forma de controlar a doença, que é bacteriana e a parte vegetal, uma vez contaminada, não consegue se recuperar. Então, a maneira mais eficaz é evitar que a doença chegue. Nós temos parcerias com universidades de agronomia, IMA, Emater-MG, sindicatos, secretarias de agricultura e o Instituto de Planejamento e Desenvolvimento Sustentável de Araxá (IPDSA) para fiscalizar a propagação da murta, que é o maior problema que temos”.
Santos ressalta que o trabalho é importante e que a intenção é levar as ações para todo o Estado. “Nós tivemos uma adesão muito grande da população em geral, que entendeu a necessidade da erradicação da murta. O trabalho começou em Araxá, em seguida foi em Sacramento, Ibiá e eu faço o papel de levar para todos os demais municípios. Fizemos um trabalho forte no Alto Paranaíba, agora vamos para o Triângulo e queremos envolver Minas Gerais como um todo”.
Conforme informações da Prefeitura de Araxá, o município e a região contam com cerca de 9,5 mil hectares plantados com laranja, em propriedades de aproximadamente 30 produtores rurais. O crescimento é expressivo quando comparado a 2022, ano em que a região contava com apenas 60 hectares cultivados.
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