Agronegócio

Pedidos de recuperação judicial no agronegócio de Minas Gerais crescem 41%

Juros altos, queda de preços de grãos e custos elevados impactam produtores rurais, resultando em aumento de solicitações em Minas Gerais
Pedidos de recuperação judicial no agronegócio de Minas Gerais crescem 41%
Foto: Reprodução Adobe Stock / StockMediaProduction

Os juros elevados atrelados à queda dos preços internacionais de grãos e aos custos de produção elevados impactaram de forma negativa a margem financeira dos produtores rurais e acarretaram no aumento das solicitações de recuperação judicial no setor. Conforme o levantamento feito pela Serasa Experian, datatech do Brasil, o pedido de recuperação judicial no agronegócio em Minas Gerais cresceu 41%, somando 196 solicitações em 2025. No Brasil, o cenário também foi de alta, com índice de crescimento superior ao registrado no Estado.

Ao longo de 2025, o agronegócio brasileiro registrou 1.990 solicitações de recuperação judicial. O volume é o maior desde o início da série histórica da Serasa Experian, em 2021, e representou uma alta de 56,4% em relação a 2024, quando foram contabilizados 1.272 pedidos. Em 2023, as solicitações totalizavam 534, o que evidencia a escalada dos requerimentos nos últimos anos.

O levantamento considerou a soma de três frentes da cadeia produtiva: produtores rurais que atuam como pessoa física, produtores rurais pessoa jurídica e empresas relacionadas ao setor.

O gerente executivo de Ciências de Dados do Agronegócio da Serasa, Frederico Poleto, explica que Minas Gerais foi o quinto estado com o maior número de pedidos de recuperação judicial em 2025, ficando atrás do Mato Grosso, Goiás, Paraná e Mato Grosso do Sul. Segundo ele, a alta nos pedidos de recuperação judicial é um fenômeno que já vem ocorrendo há algum tempo, acompanhando o crescimento da inadimplência no setor.

“Podemos interpretar a recuperação judicial como um fenômeno mais severo da própria inadimplência. Mesmo fora do agro, ela tem subido por conta da taxa Selic alta. O aumento expressivo dos juros nos últimos anos, atrelados a fatores econômicos agravaram a situação, levando a um maior volume de pedidos de recuperação judicial”, confirma o especialista.

Poleto destaca que a queda dos preços internacionais das commodities, ao mesmo tempo em que os custos de produção e operacional aumentaram, também acabaram comprometendo a capacidade financeira das empresas do setor em quitar financiamentos, que foram estimulados pelo bom momento do mercado.

“Se a gente pegar, por exemplo, a soja, que é a principal commodity cultivada no Brasil, inclusive em Minas Gerais, entre de 2020 e 2022, o preço da soja estava lá no alto e os custos – defensivos, fertilizantes e operacionais – estavam mais baixos. Isso estimulou o plantio e a busca por financiamentos. Depois de 2022, com alta oferta, os preços caíram e os custos aumentaram, principalmente, devido a fatores mundiais, como a guerra na Ucrânia. Esse cenário aumentou a inadimplência e, em casos mais graves, levou ao aumento da recuperação judicial”, analisa.

Número é maior entre produtores que atuam como pessoa jurídica

Os dados da Serasa mostram que, no Brasil, os produtores rurais que atuam como pessoa física registraram 853 pedidos de recuperação judicial durante o ano, o maior volume entre os perfis monitorados. O volume representou uma alta de 50,7% frente a 2024. O maior aumento nos pedidos de recuperação judicial foi registrado junto aos produtores rurais que atuam como pessoa jurídica registraram, com alta de 84,1% e 753 pedidos de recuperação judicial em 2025. Já as empresas com atuação relacionada ao agronegócio registraram 384 pedidos de recuperação judicial ao longo de 2025, volume 29,3% maior.

“Na maioria dos casos de inadimplência e de recuperação judicial, os produtores e empresas, em momentos de finanças favoráveis, investiram muito, queimando caixa e não reservando um colchão financeiro. Aqueles que mantiveram uma retaguarda financeira conseguiram se adaptar melhor aos períodos de dificuldade”, reforça Poleto.

Ainda conforme ele, nos últimos anos, o aumento geral no financiamento, tanto subsidiado quanto não subsidiado, resultou em mais dinheiro no mercado e mais pessoas buscando pelos recursos, o que elevou o risco: “Bancos e financiadores estão agora adotando políticas mais cautelosas, o que pode levar a uma queda na inadimplência e nas recuperações judiciais”.

Em Minas Gerais, ao longo de 2025, foram registrados 196 pedidos de recuperação judicial frente a 139 em 2024. Em 2023, foram 72 pedidos. O crescimento de 2023 para 2024 foi de 93% e, agora, de 41%. Apesar do número expressivo, o índice de crescimento ficou menor.

Para produtores endividados, a renegociação com os financiadores é o caminho mais indicado. “A recuperação judicial deve ser considerada como última medida, devido à sua complexidade e às perdas que pode acarretar para a continuidade do negócio. Mecanismos como contratos de barter e Cédulas de Produto Rural ( CPRs) são alternativas que os produtores têm buscado”, finaliza Poleto.

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