Lúpulo mineiro: pesquisa da Ufla quer criar muda adaptada ao clima tropical
O Brasil produz mais de 15 bilhões de litros de cerveja por ano, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), e é um dos maiores mercados consumidores da bebida no mundo. No entanto, apesar da dimensão da indústria, praticamente todo o lúpulo utilizado pelas cervejarias nacionais ainda é importado, um cenário que tem mobilizado pesquisadores, produtores rurais e empresas do setor na busca por soluções para um plantio mais robusto da planta.
É o caso dos estudos realizados em laboratórios e áreas experimentais da Universidade Federal de Lavras (Ufla), no Sul de Minas, onde um grupo de pesquisadores investiga meios de tornar essa produção viável no País. A análise é coordenada pelo professor e pesquisador Antonio Chalfun Junior, do Laboratório de Fisiologia Molecular de Plantas (LFMP) da instituição, e busca compreender desde os mecanismos genéticos que regulam o florescimento da planta até o comportamento agronômico da cultura em campo.
A pesquisa surge em um momento em que o mercado cervejeiro brasileiro se diversifica e amplia a demanda por insumos de maior valor agregado, especialmente entre empreendimentos artesanais. Nesse contexto, a possibilidade de produzir lúpulo em escala comercial no País começa a ser discutida como uma oportunidade econômica para a agricultura.

Cultura temperada em ambiente tropical
Originário de regiões de clima temperado do hemisfério Norte, o lúpulo sempre foi considerado uma cultura de difícil adaptação ao ambiente tropical. Segundo Chalfun, esse cenário começou a mudar nos últimos anos, quando experimentos realizados no Brasil demonstraram que a planta consegue se desenvolver em condições equatoriais.
“O primeiro desafio era saber se o lúpulo conseguiria crescer no Brasil. Hoje sabemos que ele cresce. O problema não é mais fazer a planta crescer, mas fazer com que ela cresça com vigor suficiente para atingir seu potencial produtivo”, afirma o pesquisador.
Hoje, a principal empreitada é o fotoperíodo, ou seja, a quantidade de horas de luz que a planta recebe ao longo do dia. Em regiões tradicionais de cultivo, como os Estados Unidos e países da Europa, os dias de verão podem ultrapassar 16 horas de luminosidade. No Brasil, mesmo no período mais longo do ano, o dia raramente supera 13 ou 14 horas e essa diferença interfere diretamente no ciclo fisiológico do vegetal.
“O lúpulo responde a dias longos. Como aqui o período de luz é menor, ele entra em floração muito cedo. A planta floresce antes de atingir o tamanho ideal e isso reduz bastante a produtividade”, explica Chalfun.
Produtividade ainda distante do potencial
Essa limitação se reflete nos números da produção nacional. Enquanto uma planta em condições ideais pode gerar até três quilos de cones (a flor feminina utilizada na fabricação da cerveja), os cultivos brasileiros costumam registrar rendimentos muito inferiores.
“Nas condições ideais, após a secagem e o processamento, essa produção poderia resultar em cerca de 1,2 quilo a 1,5 quilo, até 3 quilos, de lúpulo pronto para uso. No Brasil, muitas vezes conseguimos algo em torno de 300 gramas por planta”, pontua o pesquisador.
Para tentar contornar a limitação do fotoperíodo, alguns produtores utilizam suplementação luminosa, instalando lâmpadas nas áreas de cultivo para prolongar artificialmente o período de luz. A técnica permite atrasar a floração e estimular o crescimento vegetativo da planta, mas envolve custos adicionais de energia e infraestrutura.
“Essa tecnologia ajuda a aumentar um pouco a produção, mas não resolve totalmente o problema. Qualquer oscilação de luz pode desencadear o florescimento antes da hora”, diz Chalfun.
Pesquisa busca adaptação genética e manejo
O estudo conduzido na Ufla tenta avançar além dessas soluções de manejo. A equipe investiga genes relacionados ao florescimento da planta e à resposta ao fotoperíodo, buscando entender como o lúpulo reage às condições tropicais.
A partir desse conhecimento, os pesquisadores avaliam diferentes estratégias. Entre elas estão o desenvolvimento de cultivares mais adaptadas ao ambiente brasileiro e a possibilidade de manejar a expressão de genes envolvidos no crescimento vegetativo e na floração. “A ideia é entender quais genes estimulam o crescimento e quais ativam o florescimento. Com esse conhecimento, podemos induzir a planta a crescer primeiro e só depois florescer, no momento mais adequado”, completa o pesquisador.
Além do estudo molecular, a pesquisa envolve análises fisiológicas e experimentos de campo que acompanham o crescimento de diferentes cultivares de lúpulo em condições brasileiras.
Potencial econômico da cultura
Caso o cultivo consiga superar as limitações atuais e atingir níveis mais elevados de produtividade, o impacto econômico pode ser significativo. Segundo os pesquisadores, o faturamento da cultura pode alcançar valores próximos de R$ 1 milhão por hectare, dependendo da produtividade e das condições de mercado.
“O lúpulo tem potencial para se tornar uma cultura altamente rentável no Brasil, principalmente quando associado a cadeias produtivas organizadas”, declara Chalfun.
O custo inicial de implantação, no entanto, é elevado. A instalação de um hectare pode chegar a cerca de R$ 200 mil, já que o cultivo exige estruturas de condução com postes, fios e sistemas de manejo específicos. Mesmo assim, o retorno financeiro estimado coloca o lúpulo entre as culturas agrícolas de maior valor agregado.

Oportunidade para pequenas propriedades
Uma das possibilidades discutidas pelos pesquisadores é a inserção do lúpulo em programas de desenvolvimento regional voltados à agricultura familiar. Segundo Chalfun, pequenas áreas de cultivo poderiam gerar renda significativa para produtores rurais, desde que haja assistência técnica e garantia de comercialização.
“A ideia não é apenas entregar mudas. É preciso oferecer acompanhamento científico, suporte técnico e organizar a cadeia de comercialização”, defende.
Em regiões com menor dinamismo econômico, como partes dos vales do Jequitinhonha e do Mucuri, em Minas Gerais, uma cultura de alto valor agregado poderia representar uma alternativa de diversificação produtiva. “Mesmo propriedades com menos de meio hectare poderiam produzir lúpulo e gerar renda complementar”, diz o pesquisador.
Cadeia produtiva ainda em formação
A consolidação da cultura no País, no entanto, depende de uma estrutura produtiva que ainda está em formação. Além do avanço científico, será necessário ampliar a produção de mudas certificadas, estruturar a assistência técnica no campo e organizar cooperativas ou associações capazes de conectar produtores às cervejarias.
O mercado potencial existe. O Brasil conta atualmente com mais de 1.949 cervejarias registradas, segundo o Anuário da Cerveja, do Mapa. Minas Gerais aparece como um dos principais polos do setor, com 242 cervejarias distribuídas em mais de 100 municípios.
Terroir brasileiro e valor agregado
Além da substituição de importações, o desenvolvimento da cultura pode abrir espaço para um novo segmento de produtos com identidade regional. Assim como ocorre com vinho, café e queijo, pesquisadores e produtores avaliam a possibilidade de desenvolver o conceito de terroir para o lúpulo brasileiro, explorando características aromáticas específicas de cada região produtora.
“Diferentes regiões podem produzir lúpulos com perfis sensoriais distintos. Isso permite criar cervejas com identidade regional”, propõe o pesquisador. Essa diversificação, segundo ele, pode impulsionar a indústria cervejeira e atividades associadas, como o turismo gastronômico e cervejeiro.
Apesar do potencial econômico, os pesquisadores ressaltam que a cultura ainda está em fase de construção no Brasil. Chalfun reforça que o desenvolvimento de variedades adaptadas e de sistemas produtivos eficientes exige tempo e continuidade das pesquisas.
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