Agronegócio

Tarifa de 40% mantida pelos EUA sobre o café e carne inviabiliza embarques e pode causar perdas de mercado irreversíveis

Cenário deixou os representantes da atividade apreensivos diante do risco de perda irreversível de mercado; exportação da commodity registra recuo de 11% no valor e 36% no volume em Minas Gerais
Tarifa de 40% mantida pelos EUA sobre o café e carne inviabiliza embarques e pode causar perdas de mercado irreversíveis
Minas Gerais é responsável por 77% do café que é exportado do Brasil para os Estados Unidos | Foto: Divulgação Emater

A tarifa de 40% mantida pelos Estados Unidos (EUA) sobre o café e a carne bovina coloca o Brasil e Minas Gerais em desvantagem frente aos principais concorrentes, que, em sua maioria, tiveram as tarifas isentadas para exportar para o mercado norte-americano. O cenário deixou os representantes dos setores preocupados diante do risco de perda irreversível de mercado. No caso das carnes, os embarques mineiros estão praticamente inviabilizados e já registram queda de 93% em volume e faturamento. No café, o recuo chega a 11% no valor e 36% no volume.

O secretário de Estado da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), Thales Fernandes, explica que a retirada da taxa recíproca de 10% sobre a importação dos cafés, carnes, suco e frutas para os diversos países, mantendo os 40% adicionais para o Brasil, que estão em vigência desde agosto deste ano, piorou ainda mais a situação do agronegócio mineiro.

Minas Gerais é o maior exportador de café do Brasil, tem participação expressiva nos embarques de carne bovina e também participa com suco e frutas no comércio com os Estados Unidos.

“A situação já era muito complexa e ficou ainda pior. A gente já vinha tendo uma imposição de uma tarifa de 50% sobre os produtos agropecuários brasileiros, principalmente café, carne bovina, sucos e frutas. Isso afetou muito a pauta de exportação do Brasil e, principalmente, de Minas Gerais, já que 77% do café que é exportado do Brasil para os EUA saem de Minas Gerais”, observa.

Conforme Fernandes, as exportações do agronegócio do Brasil para os Estados Unidos estão em queda, quando comparado com igual período do ano anterior. “Em agosto tivemos uma retração de 17%, em setembro uma queda de 39% e em outubro um recuo de 35%. Assim, as exportações totais do agro caíram de R$ 3 bilhões, entre agosto e outubro de 2024, para atuais US$ 2,1 bilhões, queda de 31% em valor e de 24% em volume. Neste cenário, Minas Gerais foi muito prejudicado porque nós somos o maior exportador de café. A competição já era desleal, agora, piorou”, ressalta.

Levantamento feito pela Seapa mostra que os embarques mineiros de café para os Estados Unidos tiveram uma redução de 11% em valor, caindo de US$ 342 milhões entre agosto e outubro de 2024, para atuais US$ 304 milhões. Em volume, a retração foi de 36%, com o embarque de 784 mil sacas, ante as 1 milhão embarcadas anteriormente.

Perda de mercado pode ser irrecuperável, destaca Cecafé

O diretor geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), Marcos Matos, explica que a isenção das tarifas a todos os países concorrentes do Brasil no café torna a situação do comércio com os Estados Unidos ainda mais dramática.

“No café, praticamente todos os concorrentes do Brasil foram isentados. Com a tarifa de 40%, o distanciamento e a distorção aumentaram dos nossos concorrentes em relação ao Brasil. Por isso, que, para nós, cada dia que passa, é uma situação mais dramática”, reclama.

Matos explica que, nos últimos três anos, das exportações de café do Brasil para os EUA, 80% do valor são de cafés verdes arábicas, 10% cafés verdes conilon e 10% cafés solúveis. Assim, majoritariamente, os maiores concorrentes do Brasil são a Colômbia, Honduras, Costa Rica, Etiópia, Quênia e uma parte de Uganda. Com a diferença de taxas, os países têm ocupado o espaço antes abastecidos pelos grãos brasileiros, compondo os blends e agradando os norte-americanos, já que mesmo com a mudança, não houve queda no consumo da bebida

“Em agosto, as vendas de café do Brasil para os Estados Unidos retraíram 46%, em setembro caíram 52,8% e, em outubro, 54,4%. Os nossos importadores estão estabelecendo novas relações comerciais e as relações comerciais nunca são de curto prazo, envolvem relações de curto, médio e longo prazos com os nossos concorrentes. O consumidor norte-americano está se adaptando aos novos blends, aos novos parâmetros sensoriais. Então, esse que é o grande prejuízo de hoje e que pode ser maior amanhã, por conta de uma safra melhor que a gente venha a colher em 2026. Inclusive, essa perda de mercado pode ser irrecuperável”, diz.

Embarques de carne bovina despencam e exportações estão praticamente inviáveis

A situação das exportações de carnes bovinas, feitas por Minas Gerais, também é preocupante. Os dados da Seapa mostram queda de 93% em volume embarcado, 623 toneladas, e de receita US$ 3,6 milhões entre agosto e outubro. O secretário de Estado da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Thales Fernandes, explica que houve comprometimento da competitividade e que, em breve, o produtor sentirá os efeitos.

“Perdemos a competitividade nas exportações de carne bovina e, isso, é muito prejudicial. Hoje, o pecuarista está comprando o bezerro a preço elevado, mas, caso a tarifa permaneça, ele pode vender o boi a preços em baixa”, explica.

Para a indústria, o movimento também foi negativo e o setor defende a negociação entre os governos. O presidente do Sindicato das Indústrias de Carnes, Derivados e de Frios de Minas Gerais (Sinduscarne – MG), Pedro Braga, explica que a manutenção da sobretaxa de 40% sobre os produtos brasileiros praticamente inviabiliza as exportações de carnes.

“No setor de carne, a taxa de 40%, praticamente, inviabiliza a exportação para os Estados Unidos, tendo em vista que, agora, os nossos concorrentes têm uma taxa zerada. Com essa manobra, o governo Trump consegue importar e colocar os produtos mais baratos no mercado norte-americano. Infelizmente, aqui no Brasil, isso não vai melhorar a nossa exportação para os Estados Unidos”, diz.

Braga explica ainda que o setor, em Minas Gerais, já trabalhava com margens exprimidas, muito por conta da concorrência internacional. Por isso, o Sinduscarne – MG defende que os governos têm que sentar e negociar, a fim de não impactar os cidadãos brasileiros nem os americanos com essas tarifas.

“Agora, mais do que nunca, apesar da gente ter conseguido reverter essa carne que era toda exportada para os Estados Unidos para outros países, esses outros países não têm o poder de compra que o americano tem. Então, a gente perde um pouquinho na negociação. Continuamos defendendo, assim como antes, que os governos têm que negociar”, destaca Braga.

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