Acordo Mercosul-UE: ex-presidente da Fiemg alerta para fortalecimento da indústria
O empresário e ex-presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Stefan Salej, alerta para a importância de o Brasil adotar uma política de industrialização e desenvolvimento que passe por investimento em centros de pesquisa e tecnologia.
“O Brasil tem que ter um projeto, através de eficiência, eficácia e desenvolvimento econômico, resultados sociais para a maioria da população. Primeiro tem que reforçar a qualidade da educação, acesso e adaptar ao desenvolvimento tecnológico e ao mercado de trabalho. Decidir se vamos ser um País exportador de matérias-primas e commodities ou se vamos começar a produzir produtos industrializados e de valor agregado, seja com mais ou menos tecnologia”, aconselha.
Caso contrário, Salej aponta que, com o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia (UE), e com outros competidores estrangeiros, pode haver um impacto negativo em indústrias brasileiras, inclusive com risco de algumas desaparecerem.
Após negociações que se arrastaram por mais de 26 anos, o acordo entre os blocos econômicos foi assinado oficialmente em janeiro de 2026, em Assunção, no Paraguai. Um dos principais temores é que, com o acordo, o Mercosul passe a ser apenas um fornecedor de matéria-prima e acabe contribuindo para um rápido processo desindustrialização do País. Isso porque a indústria europeia, além de mais desenvolvida que a brasileira, conta com apoios dos governos locais e possui custos logísticos menores.
“Para a nossa indústria (o acordo) é ruim, porque não temos um projeto de como fazer essa indústria competitiva. Estamos enfrentando concorrência chinesa, vamos enfrentar abertura para os Estados Unidos e para a União Europeia, ou seja, tem que mudar o paradigma da indústria brasileira. Temos uma indústria que, em termos gerais, não é competitiva. O governo tem que liderar esse processo de tecnologia, mercado, mão-de-obra, energia e mais equipamentos”, afirma.
Uma solução apontada pelo empresário é o investimento em centros de pesquisa, como universidades, e a valorização dos pesquisadores. O desenvolvimento de tecnologias nacionais frente a aquisição de tecnologias estrangeiras também é apontado como caminho, apesar de atualmente o governo facilitar esse tipo de compras.
O empresário também lamenta que em Minas Gerais apenas um parlamentar destine recursos para instituições de pesquisa: o deputado federal Patrus Ananias (PT), que em 2025 destinou mais de R$ 1 milhão em emendas para a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
A adoção de medidas protetivas para a indústria nacional é apontada como uma alternativa temporária, já que, para o empresário, é necessário que os setores, sejam comerciais, de serviços ou de indústrias devem ser preparados para participar do sistema de competitividade.
Empresários precisam se preparar para construção de mercado
O tratado entre União Europeia e Mercosul prevê a eliminação ou redução gradual de impostos de importação de uma série de produtos, tanto os vindos do agronegócio, que devem ir daqui para a Europa; quanto maquinário industrial, produtos químicos e setor automotivo, que devem fazer o caminho inverso, em direção a América do Sul.
Salej afirma que as empresas devem trabalhar para a abertura de mercados, inclusive em parceria com o Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty, e com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil).
“As empresas têm que se preparar e agir no mercado desde já. Você não constrói um mercado da noite para o dia. É preciso usar toda a infraestrutura que o Estado oferece (ApexBrasil e Itamaraty) e começar a trabalhar. Não tem outra solução”, alerta.

O empresário participou, na sexta-feira (6), de uma palestra para lideranças empresariais mineiras na sede da Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas), em Belo Horizonte. Um representante do Itamaraty, presente no encontro, reforçou o compromisso do órgão em auxiliar os empresários mineiros com contatos e possíveis caminhos nas quase 140 embaixadas que o Brasil possui pelo mundo, além de representações.
Eleições 2026
Com a eleição presidencial se avizinhando, Salej também lamentou que nenhum dos possíveis candidatos à presidência apresentou um plano de desenvolvimento para a indústria. Apesar disso, ele menciona o programa Nova Indústria Brasil (NIB), lançado em janeiro de 2024, como uma das tentativas no sentido de impulsionar a produtividade, de forma moderna e sustentável, do setor produtivo brasileiro.
O programa prevê investimentos de R$ 300 bilhões até 2026, distribuídos em financiamentos, recursos não reembolsáveis e participações acionárias, administrados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii).
O plano tem como objetivo deixar a agroindústria sustentável; incentivar a produção de insumos e vacinas para a saúde; promover a descarbonização e transição energética; fomentar a digitalização das indústrias; promover o investimento em infraestrutura e logística e o desenvolvimento de tecnologias para a defesa nacional.
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