Principal exportador de produtos agropecuários para a UE, Minas comemora acordo com o Mercosul
Cerca de 30% das exportações agropecuárias de Minas Gerais têm como destino a União Europeia, o que coloca o Estado como um dos maiores impactados pelo acordo de livre comércio entre o Mercosul e o bloco europeu, aprovado nesta sexta-feira (9). Maior exportador do agro brasileiro para a UE, Minas vê no avanço do tratado a possibilidade de ampliar o acesso a um mercado de mais de 700 milhões de consumidores, ao mesmo tempo em que setores do campo avaliam com cautela os efeitos práticos da abertura comercial.
Em 2025, Minas Gerais consolidou-se como o principal estado exportador do agronegócio brasileiro para a União Europeia, com vendas de aproximadamente US$ 6 bilhões e embarque de 14 milhões de toneladas entre janeiro e dezembro, segundo dados da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (Seapa).
Na comparação com 2024, houve crescimento de 35% no valor exportado, mesmo com queda de 14% no volume físico, movimento explicado pela valorização dos preços médios. Com a previsão de eliminação de tarifas de importação sobre 91% das mercadorias comercializadas pelos dois blocos, o mercado mineiro vislumbra um horizonte promissor.
Fortalecimento de cadeias produtivas
Segundo o secretário-adjunto de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais, João Ricardo Albanez, a sinalização política da União Europeia é considerada positiva para o Estado. Para ele, apesar de o texto ainda precisar passar pelo parlamento europeu, o avanço do acordo fortalece cadeias produtivas que já demonstram competitividade, diversificação e alinhamento às exigências da UE, especialmente em demandas ambientais e de rastreabilidade.
“A UE é o segundo maior bloco importador dos produtos agropecuários mineiros, atrás somente da Ásia. Esse acordo abrange um mercado de mais de 700 milhões de pessoas e isso fortalece as nossas cadeias produtivas”, pondera.
Expectativa de mais cotas e menos tarifas
Em Minas Gerais, a pauta agroexportadora para a União Europeia é liderada pelo café, seguido por produtos florestais, como celulose e madeira industrializada, carnes bovina e de frango, soja e derivados, além de insumos e produtos para nutrição animal.
No segmento de carnes, a avaliação é mais cautelosa. Para o presidente do Sindicato das Indústrias de Carnes e Derivados no Estado de Minas Gerais (Sinduscarne-MG), Pedro Braga, é preciso aguardar as próximas etapas do processo. “A princípio, o que temos é uma autorização para o acordo ser assinado. O impacto dependerá do comportamento das cotas e das tarifas previstas no texto final. “Nós temos algumas cotas e ainda estamos aguardando para ver como elas vão ficar. Algumas tarifas vão ser retiradas, mas só vamos saber se haverá aumento de cotas quando o acordo for realmente assinado”, aponta.
Hoje o Brasil tem uma cota de exportação já definida em que a quantidade de carne que pode ser exportada é definida anualmente. “Temos uma cota para cortes de primeira e uma cota para carnes no geral. Aparentemente, podemos ter redução da tributação dessa cota e aumento da cota também”, comenta Braga.
Setor cafeeiro vê abertura para ampliação da pauta exportadora
No setor cafeeiro, o sentimento é de otimismo, sobretudo no mercado de cafés especiais. Para o diretor-executivo da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), Vinicius Estrela, o avanço do acordo representa um marco para o segmento. “O setor de cafés especiais celebra a sinalização positiva para a assinatura do acordo União Europeia–Mercosul, criando o maior bloco de comércio existente, com mais de 720 milhões de consumidores”, afirma.
Estrela ressalta que a União Europeia recebe mais de 40% do café exportado pelo Brasil e concentra a maior parte da demanda por cafés especiais brasileiros. “Esse crescimento já é constante no café verde (antes da torra), com volumes em torno de 18 milhões de sacas anuais, e, em alguns anos, como no passado recente, superando 22 milhões de sacas”, diz.
Segundo o diretor da BSCA, o acordo também abre espaço para a ampliação da pauta exportadora. “Cria-se uma janela importante para o café industrializado, como o torrado e moído, permitindo ampliar no futuro o leque de exportação de cafés especiais para o mercado europeu”, afirma.
Maior acesso à tecnologia e inovação
Outro ponto destacado é o acesso à tecnologia e à inovação. “O acordo garante acesso dos produtores e das indústrias brasileiras a novas tecnologias e maquinários que aumentam a eficiência do processo produtivo, do grão até a xícara, tornando o Brasil ainda mais competitivo”, avalia.
Ele também chamou atenção para futuros avanços que vão além da redução tarifária. “Não é só tarifa. Há questões como compras públicas, já que a União Europeia é um grande comprador de café, e o reconhecimento das indicações geográficas brasileiras, que valorizam o terroir e a diversidade do café especial”, comenta.
Minas Gerais aparece como principal origem do café brasileiro enviado ao mercado europeu. “Tradicionalmente, estamos falando de cerca de 13 milhões de sacas provenientes de Minas Gerais, de um total superior a 18 milhões de sacas exportadas pelo Brasil”, finaliza.
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