Inadimplência atinge 74 milhões no Brasil e maioria é reincidente
A Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) revelou um “raio-x” do devedor brasileiro neste começo de 2026, e o número impressiona: quase 74 milhões de pessoas estão com débitos em atraso no país. Em fevereiro de 2026, o Indicador de Reincidência de Pessoas Físicas, apurado pela CNDL e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), revelou que, do total de negativações, 86,41% foram de devedores reincidentes — ou seja, consumidores que já haviam aparecido no cadastro de inadimplentes nos últimos 12 meses.
As regiões mais devedoras do país, em números absolutos, são: Sudeste, com 31 milhões de pessoas em débito; Nordeste (19 milhões); Sul (9,5 milhões); Norte (6,65 milhões); e Centro-Oeste (6,25 milhões).
Todavia, quando se observa o percentual da população endividada, Centro-Oeste (47,62%) e Norte (47,25%) lideram o ranking. Sudeste (44,36%) e Nordeste (44,85%) vêm em seguida. A região Sul tem a menor taxa nacional de endividados em relação à sua população, com 39,75% de pessoas com contas vencidas há mais de 30 dias.
Motivos diversos
Para a especialista em finanças da CNDL, Merula Borges, existe uma combinação de fatores para que haja um volume tão grande de inadimplentes no país. “A inflação, por exemplo, está um pouco mais controlada, mas os preços ficaram em um patamar elevado e comprometem uma boa parte do orçamento das famílias. Então, também fica difícil fechar as contas e pagar as dívidas. Outro ponto é a taxa de juros, que também está muito alta. Aí, as contas que antes tinham parcelas mais baratas ficam mais caras”, explica Merula, que alertou para o prolongamento das dívidas pelos brasileiros.
“O endividamento das famílias vem se arrastando há bastante tempo. E normalmente havia um respiro no final do ano, com o 13º salário e o trabalho temporário. Mas não houve esse ‘respiro’ do fim de 2025 para o início de 2026. Assim, percebemos uma dificuldade do consumidor de sair da inadimplência”, completa.
Renda maior x renda menor
A liderança na proporção de endividados em relação à população nas regiões Norte e Centro-Oeste, acima da média nacional, pode indicar uma circulação menor de renda, reduzindo a capacidade das pessoas de quitar seus compromissos financeiros em dia.
Leia mais: Inadimplência cresce 6% em BH e atinge mais consumidores acima de 50 anos
Merula Borges afirma que a renda per capita mais baixa nessas regiões afeta muito o poder de manter as contas sem débitos. “Qualquer imprevisto ou qualquer aumento de preço nos alimentos — que tiveram uma alta expressiva nos últimos anos — acaba comprometendo os itens básicos da família, e fica mais difícil fechar as contas”, comenta.
No Sul e no Sudeste, que têm uma renda per capita maior, a possibilidade de geração de novas receitas é maior, criando um cenário mais sustentável para o pagamento de dívidas no prazo ou com renegociações.
Soluções
“As menores rendas não são as que estão mais inadimplentes”, disse a especialista em finanças da CNDL, Merula Borges. E isso não se deve à dificuldade do dia a dia, mas sim à dificuldade de acesso ao crédito. As pessoas com rendas menores têm menos acesso ao crédito e, por isso, não são as mais endividadas.
Entretanto, para que o índice de inadimplentes seja reduzido, uma série de medidas deve ser tomada — desde um “choque de gestão” doméstico, buscando gastar apenas o que o orçamento prevê, até mudanças mais estruturais no cenário econômico brasileiro.
Leia mais: Endividamento e inadimplência caem em dezembro, mas fecham 2025 acima de 2024, diz CNC
“A queda do endividamento passa por uma solução conjunta: tanto de organização fiscal do governo, para que a taxa de juros possa cair, como do consumidor, em buscar boas opções de crédito quando necessário, fazer um planejamento financeiro e organizar suas finanças — mesmo que as contas básicas representem a maior parte do orçamento familiar”, finaliza Merula.
Ouça a rádio de Minas