Brasil Soberano: crédito de R$ 15 bi pode ser insuficiente para a cadeia produtiva mineira
O governo federal ampliou na quarta-feira, (25) o Plano Brasil Soberano, com mais R$ 15 bilhões de crédito sob gestão do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O orçamento será voltado a empresas exportadoras relevantes afetadas por instabilidades geopolíticas, como a guerra no Oriente Médio e o “tarifaço” imposto pelos Estados Unidos.
Embora essencial para auxílio no curto prazo, o aporte é avaliado como desproporcional considerando o porte das empresas. Em Minas Gerais, a tendência é que os principais beneficiados estejam nos setores de mineração, agronegócio e automotivo, com destaque para as cadeias de ferro, aço, café e autopeças.
Em comunicado, o BNDES destaca que terão direito à linhas de crédito empresas exportadoras de bens industriais, fornecedores e aquelas que atuam em setores industriais com relevância no comércio exterior brasileiro. As linhas de crédito deverão financiar: capital de giro, aquisição de bens de capital ou investimentos na atividade produtiva, ampliação da capacidade produtiva ou adensamento da cadeia, além de aportes em inovação, tecnologia ou adaptação de produtos, serviços e processos.
A coordenadora de negócios internacionais da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Verônica Winter, comenta que esse tipo de crédito é importante para a economia mineira, especialmente na aquisição de máquinas, expansão de capacidade e capital diante dos custos elevados em decorrência da alta do pretróleo com a guerra. “Esperamos um efeito imediato, pois alivia a cadeia produtiva, sobretudo diante das oscilações cambiais, funcionando como um suporte no curto prazo”, acrescenta.
Entretanto, o valor divulgado é considerado relativamente baixo em termos de Brasil e por se tratar de empresas relevantes, cujo custo de exportação é elevado. “É importante compreender os critérios e avaliar quais empresas, de fato, poderão acessar esse benefício. No tarifaço, havia uma série de exigências, e algumas empresas acabaram ficando de fora”, salienta a coordenadora da Fiemg.
Setores como minério de ferro, aço e café, além do segmento de autopeças, tendem a ser os principais beneficiados pelo crédito do Plano Brasil Soberano em Minas Gerais, especialmente em um contexto marcado por medidas tarifárias e pelo elevado preço do petróleo, que continua pressionando o frete e demais custos. “Esses custos impactam o transporte, a logística e o valor final do produto ao consumidor”, ressalta Verônica Winter.
A especialista também chama atenção para a necessidade da implementação de estímulos às pequenas e médias empresas (PMEs), também afetadas pelos altos custos logísticos, mesmo que em menor proporção. “É preciso olhar também para as pequenas e médias empresas. As grandes geram mais empregos e, por isso, costumam concentrar maior preocupação, mas as PMEs representam cerca de 40% das exportadoras do País e têm papel relevante na dinâmica econômica”, avalia.
Efeito do crédito tende a ser mais defensivo do que estrutural
O economista e conselheiro de política econômica, Stefan D’Amato, avalia que os efeitos tendem a ser ainda mais relevantes quando se considera a densidade e a diversificação da base exportadora mineira. Para além do agro, ele considera que o Estado abriga segmentos industriais de relevância no comércio internacional, como metalurgia, siderurgia e bens de capital, ambos sensíveis a variações de custos, restrições de crédito e oscilações da demanda externa.
“Nesse contexto, a ampliação das linhas de financiamento pode contribuir para mitigar perdas mais imediatas, ajudando a preservar postos de trabalho e a sustentar algum grau de competitividade dessas empresas”, destaca o economista.
Ainda assim, D’Amato avalia que o efeito tende a ser mais defensivo do que estrutural, principalmente em cadeias produtivas mais complexas, onde os impactos negativos se acumulam ao longo do processo. Segundo ele, o fato de o volume anunciado se situar em patamar semelhante ao disponibilizado no ciclo anterior, onde existia apenas o “tarifaço” e outras tensões comerciais, é algo a se pensar.
“Diante de um cenário que combina a permanência dessas barreiras com novos elementos de instabilidade geopolítica, o crédito do Plano Brasil Soberano pode se mostrar limitado frente à intensidade e à simultaneidade dos choques externos”, completa.
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