Economia

Dívida da PBH com hospitais filantrópicos pode chegar a R$ 148 milhões até sexta (30), diz Federassantas

Entidade afirma que repasse devido é de R$ 96 milhões e cobra cronograma para evitar agravamento do colapso assistencial na Capital
Atualizado em 28 de janeiro de 2026 • 12:58
Dívida da PBH com hospitais filantrópicos pode chegar a R$ 148 milhões até sexta (30), diz Federassantas
Foto: Divulgação Santa Casa BH

O valor total do repasse aos hospitais filantrópicos a ser pago pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) é de R$ 96 milhões. De acordo com a Federação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos de Minas Gerais (Federassantas), se o Executivo municipal seguir sem cumprir essa obrigação, o montante poderá atingir cerca de R$ 148 milhões até esta sexta-feira (30).

A entidade ressalta que o pagamento é indispensável para conter o agravamento do colapso assistencial e permitir a continuidade do funcionamento das unidades. A federação defende que o cronograma não deve ser apenas uma promessa, com prazos distantes e valores insuficientes para superar o cenário atual.

A presidente da Federassantas-MG, Kátia Rocha, lembra que, no dia 7 deste mês, a entidade participou de uma reunião com o prefeito em exército, Juliano Lopes (Pode), e alguns secretários municipais, em que o Executivo reconheceu a inadimplência. Durante a conversa, a prefeitura prometeu que irá repassar todos os recursos até o final de fevereiro.

Vale ressaltar que o pedido de cronograma foi apresentado na reunião e reiterado em outras tratativas anteriores. No entanto, os hospitais filantrópicos 100% SUS da Capital não tiveram retorno quanto ao planejamento.

Dessa forma, o pedido foi formalmente ratificado por meio de notificação extrajudicial, na última sexta-feira (23), com prazo de dois dias úteis para resposta, que se encerrou nessa terça-feira (27). Até o momento, não houve um posicionamento da PBH.

Para Kátia Rocha, a apresentação de um cronograma já não surtirá grandes efeitos, o envio integral dos recursos é a única solução viável. Ela ainda explica que, mesmo que o valor devido seja repassado, os hospitais ainda enfrentarão dificuldades para normalizar as operações.

Além disso, segundo a presidente, as instituições filantrópicas ainda não receberam a integralidade dos custos dos serviços oferecidos. Para a dirigente, é fundamental que a sociedade tenha conhecimento a respeito dos desafios enfrentados pelos hospitais. “A saúde não admite improviso”, diz.

Colapso do sistema

Mesa de debate sobre saúde com participantes e banner preto com a hashtag "Luto pela Saúde".
Foto: Diário do Comércio/ Leonardo Leão

De acordo com a Federassantas, os hospitais já ultrapassaram seu limite operacional e têm enfrentado dificuldades para cumprir a folha salarial. A situação dos fornecedores e prestadores de serviços também é preocupante, segundo a entidade, diante de problemas financeiros que comprometem os estoques de medicamentos e insumos essenciais.

A federação aponta que essas limitações têm causado redução da capacidade de atendimento ao Sistema Único de Saúde (SUS) em alguns hospitais. Ela ressalta que isso não é resultado de uma decisão deliberada, mas da obrigação técnica e ética de garantir atendimento seguro aos pacientes que já estão ou ainda serão internados.

O provedor da Santa Casa BH Alberto Otto relata que a instituição já conta com cerca de R$ 36 milhões em aberto junto à prefeitura e que esse problema se intensificou a partir de abril do ano passado. Ele ainda alerta para o risco do hospital ter que iniciar algumas restrições de atendimento à cardiologia e neurocirurgia na próxima semana.

Otto ainda pontua que as entidades afetadas atendem aproximadamente 90% de todo o Estado, portanto, não é um problema limitado apenas à população belo-horizontina. “Todos os pacientes que necessitam de atendimentos de alta complexidade em Minas Gerais irão sofrer as consequências”, completa.

Já a diretora-executiva do Hospital Sofia Feldman Tatiana Coelho Lopes relata atrasos no salário dos funcionários e prestadores em dezembro e também no pagamento de fornecedores. Ela destaca que esse cenário tem gerado dificuldades para a operação da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal neste final de semana.

“O nosso cenário, atualmente, é de uma possível paralisação das internações na próxima segunda-feira (2). Não temos dinheiro para o vale-transporte dos trabalhadores e isso vai gerar uma desassistência tanto em Belo Horizonte quanto no Estado”, alerta.

O superintendente geral do Hospital São Francisco Helder Yankous também relata dificuldades no pagamento do vale-transporte e de três acordos trabalhistas. Além disso, o hospital, em até três dias, não terá mais capacidade para receber novos pacientes da linha vermelha, com risco iminente de morte em pronto-socorro.

Yankous reforça a necessidade de, não apenas receber os valores em atraso, mas, principalmente, o montante corrente para normalizar as atividades. “É uma insanidade o que está acontecendo com os hospitais filantrópicos de Belo Horizonte. Isso é uma tragédia anunciada que já está ocorrendo”, alerta.

O diretor executivo do Hospital Risoleta Toletino Neves Pedro Guatimosim Vidigal lembra que a unidade possui R$ 15 milhões a receber e que está há cinco anos sem reajustes do valor. Ele alerta para o risco existencial e para os efeitos que a inadimplência tem gerado principalmente nos pacientes do hospital que atende moradores do Vetor Norte.

“É importante dizer que após a reunião do dia 7, nós começamos a receber recursos que eram devidos desde junho de 2025. Isso não é uma luta de hoje, mas que já vem há muitos meses, desde meados do ano passado”, relata.

Dificuldades no pagamento de fornecedores

Santa Casa BH.
Foto: Divulgação Santa Casa BH

A presidente da Federassantas destaca que os hospitais filantrópicos demandam recursos para a aquisição de insumos e para o pagamento de profissionais liberais. Kátia Rocha esclarece que as unidades não podem simplesmente receber um paciente sem ter as condições necessárias para atendê-lo por falta de insumos.

“Nós temos que ter a responsabilidade de não admitir o paciente em casos em que nós realmente não temos as condições para tratá-lo”, pontua.

A ausência do repasse também está impactando a relação dos hospitais com alguns de seus fornecedores, chegando ao ponto de haver empresas que têm se recusado a seguir fornecendo produtos por falta de pagamento. “Quando perdemos a credibilidade e os fornecedores não acreditam mais em nossos hospitais, ele passa a onerar ainda mais os preços por não ter a certeza de que irá receber”, acrescenta.

A vereadora Marcela Trópia (Novo) garantiu que irá acionar o governador Romeu Zema (Novo), o secretário de Estado de saúde Fábio Baccheretti e o prefeito em exercício para buscar soluções para este imbróglio. Segundo ela, existem duas formas como a Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH) pode contribuir nessa discussão.

A primeira é por meio da fiscalização, tentando entender o que está acontecendo, para onde foram os recursos enviados pelos governos federal e estadual, o porque deles estarem sendo retidos. A outra proposta da parlamentar é destinar parte dos recursos da própria CMBH para os hospitais filantrópicos da Capital.

“Eu vou acionar o presidente da câmara, que é o prefeito em exercício, para que ele verifique se é possível realizar um repasse de imediato para a prefeitura. Isso poderá ajudar a amenizar essa sangria desatada”, diz.

De acordo com Kátia Rocha, nem mesmo as emendas enviadas pelos vereadores estão chegando para os hospitais. Sobre essa questão, Marcela Tropia ressalta a necessidade dos parlamentares municipais cobrarem para que suas respectivas emendas sejam executadas.

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