Em fase de maturação, atacarejo apresenta desaceleração de inaugurações em Minas Gerais
O segmento de atacarejo, que mescla os modelos de atacado e varejo na mesma operação, vem apresentando uma desaceleração no número de aberturas de lojas em Minas Gerais ao longo dos últimos anos. Esse cenário reflete uma nova fase de maturação do mercado após uma fase de expansão acelerada no Estado.
De acordo com dados da Associação Mineira de Supermercados (Amis), a quantidade de inaugurações neste formato caiu de 42, em 2022, para 13 novas operações no ano passado, o que representa uma redução de 69,05%. O atacarejo seguiu na contramão do setor varejista mineiro, que apresentou um avanço de 14,61% nesse período, passando de 89 aberturas de lojas para 102 em 2025.
O consultor especialista em varejo José Cortizo explica que esse movimento reflete o momento atual desse segmento, de maior maturidade. Outros fatores que, segundo ele, têm contribuído para esse cenário são a menor disponibilidade de praças viáveis e o aumento do custo de capital, que torna a expansão mais seletiva, por parte das empresas.
“Também pesa o custo operacional mais elevado e desafios logísticos em algumas regiões do Estado”, acrescenta.
Esse cenário aponta para uma tendência para o futuro do mercado mineiro. O especialista avalia que essa desaceleração deve continuar nos próximos anos, ao menos, no curto e médio prazo. No entanto, ele ressalta que isso não significa queda do setor, mas sim uma mudança de fase.
“O Estado já está relativamente ‘ocupado’, com forte presença de redes regionais. Novas aberturas tendem a ser pontuais e cirúrgicas”, relata.
O crescimento no atacarejo, segundo Cortizo, deve vir mais do aumento de vendas nas lojas existentes, ganho de participação no consumo e melhorias operacionais. O consultor destaca que o futuro promete um ambiente com menos “expansão física” e mais produtividade em Minas.
Avanço dos supermercados de vizinhança
Os dados da Amis demonstram que, entre os anos de 2022 e 2025, os atacarejos deixaram de responder por quase metade (47,19%) das aberturas de lojas em Minas Gerais para ficar com uma participação de 12,75% das inaugurações realizadas. Por outro lado, o segmento de supermercados de vizinhança vem ganhando cada vez mais espaço.
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A abertura deste tipo de loja saltou de 38 novas operações, em 2022, para 83 unidades ao longo do último ano. Já a participação no total de inaugurações no mercado mineiro subiu de 42,7% para 81,37% nesse período.

O avanço das lojas de vizinhança no Estado, segundo o especialista, não está ocorrendo por obra do acaso. Ele afirma que isso reflete uma mudança estrutural no comportamento de consumo e na estratégia das redes que atuam na região. Cortizo explica que o consumidor passou a fazer mais compras de reposição e proximidade, em vez da “compra do mês”.
“Esse formato cresceu justamente por atender à necessidade de praticidade e agilidade. O atacarejo domina o abastecimento (compra grande), enquanto o supermercado de bairro atende perecíveis, urgência e conveniência”, relata.
Minas Gerais é reflexo do cenário nacional
O mercado mineiro não é o único no Brasil a apresentar essa tendência de desaceleração na quantidade de novas unidades no modelo atacarejo. Cortizo destaca que São Paulo é um dos exemplos mais extremos, com um mercado altamente saturado e competitivo.
Ele ainda menciona o caso da região Sul do País, que tem apresentado crescimento nos últimos anos, mas também já está entrando em fase de maior competitividade. Já o Nordeste segue sendo a região com maior potencial de crescimento desse mercado. “Redes como Grupo Mateus, Novo Atacarejo e Atakarejo seguem expandindo com força, inclusive em cidades médias e interior”, relata.
Um relatório produzido pelo Itaú BBA observou uma desaceleração de 31% nas inaugurações líquidas no ano passado, na comparação com 2024, passando de 14 para dez aberturas por mês. Essa diminuição já perdura por três anos consecutivos, após atingir 22 aberturas líquidas mensais entre os anos de 2021 e 2023.
“Em nossa opinião, essa tendência reflete tanto o custo de capital ainda elevado quanto um formato que se expandiu rapidamente nos últimos anos e que agora pode estar se consolidando”, avalia o Itaú BBA no relatório.
Expansão das redes regionais

O banco de atacado e investimento ressalta que esse movimento foi liderado por empresas nacionais, como Atacadão e Assaí Atacadista. No caso das regionais, ele destaca que elas seguem fortalecendo sua presença no mercado, incluindo aquelas de menor porte. “Algumas empresas regionais em processo de reestruturação também contribuíram para a desaceleração”, pontua.
Entre os grandes destaques do levantamento, está o Grupo Mart Minas, que segue consolidando sua liderança na região. No entanto, vale ressaltar que, no caso dessa companhia, das oito novas operações previstas para o primeiro semestre deste ano, sete são unidades já existentes e adquiridas junto a rede Apoio Mineiro, do Grupo Supernosso.
Inclusive, o estudo do Itaú BBA demonstra que as atividades de fusões e aquisições devem continuar a acelerar nos próximos anos. Isso porque, à medida que o espaço para crescimento orgânico vai reduzindo, a consolidação tende a ser cada vez mais natural. Entre os exemplos citados está a operação envolvendo o Mart Minas e o Apoio Mineiro e a aquisição de 54 lojas da rede Bretas no Estado pelo Supermercados BH.
Portanto, o cenário no mercado de atacarejo é dos grandes players nacionais focados no processo de redução do endividamento e líderes regionais aproveitando as oportunidades para consolidar seus mercados estratégicos por meio de aquisições direcionadas. O relatório ressalta que essas transações, na maioria dos casos, envolvem a compra de algumas unidades em vez de uma aquisição completa da empresa, que envolve maior complexidade.
As 25 maiores empresas do setor respondem por 77,2% das 2.237 lojas mapeadas pelo levantamento. Os grandes destaques são as redes Atacadão e Assaí, com 385 e 312 lojas, respectivamente, que somadas respondem por 31,2% do total registrado. Em seguida, aparece o Grupo Mateus, com 138 operações e 6,2% de share.
Entre elas, estão sete empresas com sede em Minas Gerais, que somam 296 unidades ou 13,4% de participação. O destaque nesse caso fica para a rede Mart Minas, com 71 lojas em funcionamento no ano passado. Confira a lista completa das maiores redes de atacarejo mineiras:
- Mart Minas (71 lojas e 3,2% do total);
- BH Supermercados (50 lojas e 2,2% do total);
- DMA Distribuidora (49 lojas e 2,2% do total);
- Grupo Bahamas (43 lojas e 1,9% do total);
- Villefort (38 lojas e 1,7% do total);
- Grupo ABC (28 lojas e 1,3% do total);
- Tonin (19 lojas e 0,9% do total).
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