Emprego formal desacelera e tem pior resultado em cinco anos em Minas Gerais
Minas Gerais encerrou 2025 com saldo positivo de 79 mil empregos formais, o pior resultado em cinco anos. No acumulado dos últimos doze meses, o Estado contabilizou 2,82 milhões de admissões e 2,74 milhões de desligamentos, conforme dados do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgados nesta quinta-feira, (29), pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
O desempenho é o mais baixo desde 2020, quando registrou um saldo de apenas 2,7 mil formalizações, impactado pela pandemia de Covid-19. Nos quatro anos subsequentes, o Estado apresentou uma média anual de 193,8 mil vagas, sendo a mais expressiva registrada em 2021 (320,4 mil) e a mais baixa registrada até então em 2023 (138,4 mil).
Ainda assim, o estoque de postos de trabalho avançou de 4,91 milhões em 2024 para 4,98 milhões em 2025, evidenciando a continuidade da geração de empregos, mesmo em um cenário de desaceleração. O resultado é o segundo mais expressivo dentre os estados do Sudeste, atrás apenas de São Paulo (14,62 milhões) e à frente do Rio de Janeiro (3,98 milhões) e Espírito Santo (923,1 mil).
No Brasil, o emprego formal encerrou 2025 com saldo positivo de 1,27 milhão de vagas no acumulado do ano, também o pior resultado desde 2020. Na comparação com 2024, o resultado anual recuou cerca de 24%.
O economista e docente da Uni-BH, Fernando Sette Júnior, comenta que o saldo positivo sinaliza que a economia mineira segue gerando empregos líquidos, mesmo em um contexto macroeconômico adverso. No entanto, ele pontua que o desempenho inferior frente aos anos anteriores indica perda de fôlego no mercado.
“Trata-se menos de um cenário de crise e mais de uma transição para uma fase de crescimento mais lenta, após um ciclo excepcionalmente forte de recuperação no pós-pandemia”, acrescenta.
Segundo o economista, os principais impactos desse movimento devem se concentrar na confiança de empresas e trabalhadores, já que a desaceleração reduz a velocidade de absorção de mão de obra, aumenta a competição por vagas e tende a pressionar menos os salários. “Além disso, há impacto direto sobre a arrecadação tributária e sobre o efeito multiplicador do emprego no consumo, criando um círculo que pode retroalimentar a desaceleração da atividade econômica”, explica.
O nível elevado da taxa juros, que encerrou 2025 a 15% ao ano, também pode ter pressionado o mercado, especialmente sobre setores dependentes de financiamento. No último ano, a avaliação é que esse cenário encareceu o custo do capital e reduziu a viabilidade econômica de novos projetos, impactando em uma menor concretização de oportunidades.
Serviços lideram saldo; construção encerra no vermelho
Quatro dos cinco grandes grupos de atividade econômica do Caged encerraram 2025 com saldo de vagas positivo em Minas Gerais. O ranking é liderado pelo setor de Serviços (46,5 mil), seguido por Comércio (20,2 mil), Indústria (13,3 mil) e Agropecuária (5 mil).
Em contrapartida, a construção registrou déficit de 6,1 mil empregos formais. No ano passado, o setor perdeu dinamismo e apresentou queda de 2,1% no Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre, pressionada pelo ambiente de juros elevados, que encarece o crédito e desestimula investimentos.
Para Sette Júnior, o crescimento observado em setores como serviços, comércio e indústria apresenta mais características de recomposição do que de expansão estrutural robusta. “Muitas empresas ainda estavam ajustando quadros de pessoal após perdas ocorridas em períodos anteriores, especialmente em nichos ligados ao consumo e à prestação de serviços locais”, avalia.
Entretanto, o desempenho positivo não pode ser desconsiderado. O economista aponta para um avanço seletivo e desigual. “Segmentos específicos, como serviços especializados, logística e algumas áreas industriais, continuam se expandindo, enquanto outros apenas mantêm operações. O saldo positivo, portanto, esconde uma heterogeneidade importante dentro dos próprios setores”, afirma.
Com relação à construção, três fatores são destacados como de fundamental impacto para o setor ao longo de 2025: dependência de crédito, longo prazo de maturação dos projetos e forte ligação com a renda das famílias. O economista pontua que, os juros elevados e o consumo mais cauteloso podem ter levado investidores e compradores finais a postergar decisões, reduzindo a demanda por novos empreendimentos.
Além disso, ele frisa que o setor vinha de um período de recuperação parcial nos anos anteriores, o que poder ter elevado a base de comparação. “Diferentemente da indústria ou dos serviços, que conseguem realocar produção ou ajustar margens, a construção reage de forma mais abrupta, refletindo rapidamente a desaceleração no mercado de trabalho”, argumenta.
Em 2026, serviços e comércio devem puxar vagas e construção depende dos juros
Para 2026, a expectativa é de mercado de trabalho ainda positivo, porém com crescimento moderado, a depender do controle da inflação e maiores previsibilidades no mercado. Segundo Sette Júnior, setores menos dependentes de crédito tendem a liderar a geração de empregos neste ano, especialmente serviços, comércio e atividades ligadas à economia digital e à logística.
Já para a indústria, a avaliação do economista é que o setor pode ganhar algum fôlego adicional, sobretudo se houver melhora no cenário externo e avanço de políticas de reindustrialização. Com relação à agropecuária, a expectativa é de contribuição estável, enquanto a construção dependerá fortemente das condições financeiras. “Assim, o crescimento do emprego tende a ser mais distribuído e menos concentrado do que em ciclos anteriores”, acrescenta.
Ainda assim, ele avalia que existe espaço para uma retomada mais forte do emprego caso a queda dos juros se consolide de forma consistente. “A redução do custo do crédito destrava investimentos represados, melhora a confiança empresarial e estimula decisões de consumo de maior valor, criando um ambiente mais favorável à geração de vagas, especialmente nos setores intensivos em capital”, finaliza Sette Júnior.
Saldo de empregos em Minas (2020-2025)
- 2020: 2.721
- 2021: 320.452
- 2022: 177.195
- 2023: 138.413
- 2024: 139.184
- 2025: 79.008
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