Em dez anos, Minas perdeu 35% das agências bancárias
Minas Gerais assim como todo o Brasil vive um processo contínuo de redução de agências bancárias físicas. Segundo dados do Banco Central (BC), Minas Gerais perdeu em dez anos 35% das agências físicas. A tendência, que deve continuar, tem reestruturado o futuro dos bancos no País.
De acordo com o BC, o Estado possuía (2,2 mil agências em 2015. Atualmente, esse número gira em torno de 1,5 mil, evidenciando a redução de cerca de 800 agências no período. No Brasil, a queda é semelhante (36%), com mais de 8 mil agências fechadas, passando de cerca de 23 mil em 2015 para pouco mais de 16 mil em 2025.
Para o professor de administração da ESPM, especialista na área, Jorge Ferreira, a tendência é irreversível. “Esse movimento começou antes mesmo da explosão das fintechs, impulsionado pela digitalização dos serviços bancários. O fechamento das agências é consequência direta da mudança no comportamento dos clientes e da estrutura de custos dos bancos”, afirma.
Digitalização abriu o caminho
Segundo o professor, o primeiro impulso para a redução das agências veio com a consolidação do internet banking, ainda nos anos 2000, inicialmente para empresas e depois, para pessoas físicas. Com a popularização dos smartphones, os aplicativos bancários passaram a concentrar grande parte das operações cotidianas.
Na sequência, as fintechs aceleraram o processo ao oferecer serviços financeiros sem a necessidade de atendimento presencial. “O Nubank, por exemplo, começou atendendo principalmente à população C, D e E, que não era bancarizada. Essas pessoas foram diretamente do ‘não ter conta’ para o banco digital, sem nunca frequentar uma agência”, explica Ferreira.
Outro fator decisivo foi a criação do Pix. Apenas em 2024, foram realizadas cerca de 25 bilhões de transações pelo celular, segundo dados oficiais. “Há 15 ou 20 anos, muitas dessas operações exigiam uma ida ao banco ou ao caixa eletrônico. Hoje, são feitas em segundos no celular”, pontua o professor.
Custo elevado e pressão social
Além dos fatores mencionados, o alto custo para se manter uma agência física também interfere no processo de decisão, no entanto, a pressão social reduz a velocidade do fechamento das agências, na visão do professor. Segundo ele, envolve sistema de segurança, contratação de pessoal, transporte de valores e infraestrutura física e tecnológica. “As agências hoje são, em grande parte, deficitárias. Do ponto de vista econômico, os bancos teriam fechado ainda mais unidades se não houvesse uma forte pressão social e política”, avalia Ferreira.
Essa pressão é ainda maior sobre os bancos públicos, como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, especialmente em cidades pequenas e médias. “Em muitos municípios do interior, a agência bancária é um símbolo da presença do governo. Nenhum prefeito quer ser lembrado como o gestor que perdeu a agência da cidade”, argumenta o professor.
Além disso, uma parcela da população ainda depende fortemente do atendimento presencial. “Estamos falando, principalmente, de pessoas com mais de 50 anos, com baixo letramento digital ou que não se adaptaram às novas tecnologias. Para elas, a agência continua sendo essencial”, ressalta.
O professor acredita que, não fosse a pressão dos sindicatos, a redução das agências estaria em uma velocidade ainda maior. A mesma opinião é acolhida pelo presidente do Sindicato dos Bancários de Belo Horizonte e Região Metropolitana, Ramon Peres.
Conforme o dirigente, o papel dos sindicatos regionais, amparado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf) que representa 95% da categoria no País, é crucial para a manutenção das agências. “Em dez anos, Minas Gerais perdeu 5 mil empregos com o fechamento das agências. Neste ano, a nossa campanha salarial discutirá vários pontos como condições de trabalho, segurança, mas o fechamento de agência é um dos pontos fundamentais”, assinala.
Ao mesmo tempo, os bancos tradicionais enfrentam concorrência não apenas de fintechs, mas também de empresas não bancárias. Jorge Ferreira ressalta que operadoras de telefonia, aplicativos de transporte e plataformas digitais, por exemplo, passaram a oferecer serviços financeiros. “Hoje você recebe oferta de empréstimo pela operadora do seu celular ou pelo aplicativo de mobilidade. Isso pressiona ainda mais os bancos a diversificar”, ressalta.
Nesse cenário, as instituições financeiras têm ampliado sua atuação para áreas como seguros, comércio eletrônico, investimentos e serviços integrados, numa estratégia mais ampla do que simplesmente fechar agências.
Futuro: menos agências, novos formatos
Os especialistas acreditam que as agências bancárias, como são conhecidas hoje, devem ser reduzidas ou até mesmo desaparecer, mas a presença delas ainda tem relevância. O que deve surgir em seu lugar são formatos híbridos, combinando serviços financeiros com outras experiências.
Na avaliação do pró-reitor do Ibmec BH, Eduardo Coutinho, as agências ainda continuarão existindo. “Eu acredito que o consumidor de alta renda, que é grande usuário do serviço financeiro, vai continuar demandando agência física, assim como as relações corporativas no atacado”, defende.
O professor da ESPM, Jorge Ferreira, acredita, no entanto, que agências com experiências mais interativas e modernas, com lounges, cafés ou espaços de convivência, terão atendimento bancário integrado. “O Banco do Brasil, por exemplo, fez parcerias comerciais em unidades emblemáticas. Outros bancos criaram áreas semelhantes a salas VIP de aeroportos. Essa é a tendência”, observa Jorge Ferreira.
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