Fornecedor aumenta preço de insumo de detergente e sabão e culpa guerra no Irã
Fabricantes brasileiros de produtos de limpeza receberam neste mês uma carta da Moeve, multinacional espanhola de insumos químicos, informando que o preço do LAS (ácido sulfônico linear) vai aumentar para US$ 915 (R$ 4.812) a tonelada a partir de abril. O LAS é o componente-base na fabricação de detergentes líquidos, lava-roupas, limpadores multiuso, desengraxantes etc., responsável por remover a sujeira e formar espuma.
O novo preço representa um reajuste de quase 60% em relação ao que é praticado até o momento, apurou a reportagem com fabricantes do setor, o que pode levar ao aumento do preço final dos produtos entre 20% e 30%. A Moeve é a única fornecedora local do insumo, produzido em Camaçari (BA), respondendo por cerca de 70% da demanda local. A empresa afirma que o reajuste se deve à guerra no Irã.
“As restrições no acesso a matérias-primas em nível global -incluindo interrupções logísticas em rotas estratégicas, como o estreito de Hormuz, e impactos operacionais em unidades de refino- têm agravado o desequilíbrio entre oferta e demanda de diversos produtos originários desta cadeia do petróleo, levando inclusive alguns produtores a declararem força maior”, diz a carta, à qual a reportagem teve acesso.
“Diante desse contexto e considerando as análises de mercado que indicam a não-reversão desse cenário no curto prazo, comunicamos um reajuste de US$ 915/t no preço do LAS, com validade a partir de abril/2026”, afirma no documento. O valor será adicionado ao preço atual praticado, em torno de US$ 1.600 (R$ 8.414), ou seja, um aumento de 57% para US$ 2.415 (R$ 12.701).
Procurada na noite desta segunda-feira (23), por email, a Moeve não respondeu até o fechamento desta reportagem. Dois executivos da companhia no Brasil também foram contatados nesta terça (24) por telefone, mas não responderam. A empresa fabrica as principais matérias-primas para o segmento de limpeza doméstica e comercial no Brasil. No balanço de 2024 (o último publicado), apresentou receita líquida de R$ 2,1 bilhões e lucro líquido de R$ 209 milhões.
Reações do setor
De acordo com a Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química), no entanto, não há dificuldade em obter o insumo no mercado externo. Os principais fornecedores estrangeiros são da própria América do Sul (Argentina e Uruguai), além de Índia e Egito, ou seja, não envolvidos na guerra, nem indiretamente.
Mas a Abiquim afirma acompanhar com atenção os impactos de curto e de médio prazo decorrentes do conflito em cadeias relacionadas aos mercados de petróleo, gás e derivados.
A Abipla (Associação Brasileira das Indústrias de Produtos de Higiene, Limpeza e Saneantes) informou, em nota, que o LAS está inserido em uma cadeia petroquímica influenciada por diversos fatores, como condições internacionais de oferta, custos de energia e oscilações do mercado de petróleo. “A entidade ressalta que não se manifesta sobre decisões comerciais, políticas de preços ou estratégias empresariais, que são de responsabilidade individual de cada empresa”, disse.
Cadeia de Suprimentos
Existem fornecedores locais de LAS, como Basf e Stepan, mas eles importam o componente, o que encarece o custo para a indústria. Já a Unilever, dona de marcas como Omo, Brilhante, Surf e Cif, fabrica o próprio insumo, assim como a Química Amparo, dona das marcas Ypê e Tixan, apurou a reportagem com fontes do setor. A maior parte das fabricantes, porém, depende da Moeve para obter o insumo no país.
Antes de se tornar Moeve, a fábrica de Camaçari pertencia à Deten, que foi comprada pela espanhola Cepsa Química. A Petrobras era sócia da Deten até 2022, quando vendeu sua participação para a Cepsa, que já era sócia majoritária na companhia. O valor da fatia de 27,8% foi de R$ 514 milhões.
A Cepsa se tornou acionista da Deten em 1999 e, em 2024, adotou globalmente o nome Moeve, com negócios em energia e petróleo e a proposta de focar em energia de baixo carbono.
Conteúdo distribuído por Folhapress
Ouça a rádio de Minas