Guerra no Oriente Médio pode agravar quadro negativo da siderurgia no Brasil
O cenário negativo enfrentado pela siderurgia brasileira, marcado por importações elevadas e pelo fraco consumo interno, pode se intensificar com a guerra no Oriente Médio. O conflito, que já dura mais de um mês, afeta energia, logística e ciclo econômico, elevando custos, comprimindo margens e pressionando a demanda.
A guerra encarece fortemente o gás e o petróleo e gera risco de crise energética. Com isso, a indústria do aço, intensiva em energia, sofre um aumento de custo direto, conforme destaca o especialista da Valor Investimentos, Virgílio Lage.
O conflito também impacta a logística internacional ao fechar o Estreito de Ormuz, redirecionar navios, gerar atraso nas entregas e elevar o frete marítimo. Por consequência, ele pontua que o custo indireto das siderúrgicas com transporte cresce.
Diante da alta nos custos, as empresas tendem a subir o preço do aço. No entanto, o medo de uma recessão global derruba a demanda por metais, segundo Lage. Logo, há risco de perda de volume, enquanto a forte concorrência com o mercado externo continua.
O especialista salienta que, antes da guerra, o quadro da siderurgia no Brasil já era ruim. Dados do Instituto Aço Brasil mostram que a produção do setor recuou 1,6% e as vendas internas diminuíram 0,4%. Por outro lado, a entrada de aço laminado do exterior no País cresceu 20,5%, alcançando o maior patamar em 15 anos.
Os números da entidade para este ano também são pessimistas. As perspectivas indicam retração de 2,2% no volume produzido e 1,7% nas comercializações no mercado interno, ao passo que as importações de laminados devem subir 10%.
Para Lage, a importação é o maior problema da indústria do aço nacional, que vem perdendo competitividade há anos. Ele afirma que o excesso de capacidade de produção global de aço, principalmente da China, pressiona os preços internos, comprime as margens e faz as siderúrgicas perderem participação de mercado.
“A siderurgia brasileira já vinha fraca e a guerra do Oriente Médio não ajuda. Na verdade, o conflito aumenta o custo e ao mesmo tempo mantém a demanda pressionada. Então, o resultado acaba sendo compressão de margem e risco de piores resultados”, reitera.
“Se a guerra continuar ou escalar, as margens seguem pressionadas, os resultados fracos continuam e há maior volatilidade nas ações do setor”, avalia. “Em um cenário mais negativo, a energia dispara mais, há recessão global e forte queda na demanda pelo aço justamente por conta disso e há um possível aumento na ociosidade das usinas”, conclui.
Impacto do conflito na economia brasileira
O setor siderúrgico no Brasil segue com incertezas do lado econômico, destaca o analista de investimentos da plataforma AGF, Pedro Galdi. Sobretudo por influência da guerra nos preços de combustíveis e fertilizantes, a inflação voltou a ser uma preocupação e não há mais expectativas para uma queda expressiva na taxa de juros (Selic), o que se reflete na economia e, consequentemente, na demanda por produtos que utilizam aço.
Conforme ele, a entrada representativa de aço do exterior tende a se reduzir diante das recentes mudanças de alíquota de importação para alguns tipos de aço, com foco na China. Entretanto, ainda não é possível calcular o que pode entrar de aço chinês via outros países.
Caso o conflito no Oriente Médio se estenda e isto se configure em uma alta ainda maior no preço do petróleo e seus derivados, na avaliação de Galdi, a situação negativa da siderurgia brasileira pode piorar. Para o analista, o impacto será global se acontecer, mas é preciso aguardar mais notícias para mensurar quanto tempo a guerra vai durar.
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