Inadimplência de empresas cresce 26,7% em Minas e atinge recorde histórico
O número de empresas inadimplentes em Minas Gerais cresceu 26,7% em junho deste ano e atingiu o maior patamar da série histórica. Os dados são do Indicador de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian. Enquanto, em junho do ano passado, 716,2 mil empresas estavam inadimplentes, neste ano a marca atingiu 907,6 mil.
No período, o volume financeiro de dívidas negativadas chegou a R$ 22 bilhões no Estado. Em média, cada empresa inadimplente acumulou sete contas em atraso, com dívida média de R$ 24,3 mil por CNPJ e ticket médio de R$ 3,4 mil.
Os números de Minas Gerais representam quase 10% da dívida total do País, que soma R$ 232,9 bilhões. O Estado possui o segundo maior número de empresas inadimplentes, atrás apenas de São Paulo, que possui 3,1 milhões de empresas em débito, com dívidas que somam mais de R$ 87 bilhões. Em comparação a maio, a alta no número de empresas negativadas em Minas Gerais foi de 2,3%.
A economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, explica que o encerramento do primeiro semestre confirma a continuidade de um ambiente desafiador para as empresas brasileiras. “Os dados mostram que a inadimplência segue avançando mesmo após o início do ciclo de cortes da Selic”, diz.
Ela explica que isso acontece porque as condições financeiras continuam bastante restritivas e os juros permanecem elevados em termos históricos, limitando uma melhora mais consistente do mercado de crédito.
Ao mesmo tempo, a especialista ressalta que a atividade econômica começa a apresentar uma desaceleração mais evidente, reduzindo o ritmo de geração de receita das empresas justamente em um momento em que muitas ainda enfrentam dificuldades para reorganizar seus passivos e recompor o fluxo de caixa.
O coordenador do Curso de Ciências Econômicas do Centro Universitário Ibmec-BH, Ari Francisco de Araujo Junior, pontua que, além dos juros altos, que encarecem o capital de giro e a rolagem da dívida, houve desaceleração da atividade econômica em alguns segmentos, redução do ritmo de crescimento das vendas e aumento dos custos operacionais, pressionando as margens de lucro.
“Dessa forma, quando o custo financeiro cresce mais rápido que a receita, aumenta a probabilidade de inadimplência, especialmente entre empresas com menor liquidez”, diz.
Empresas brasileiras somam R$ 233 bilhões em dívidas
Os números de Minas Gerais contribuíram para que, no Brasil, a inadimplência também chegasse a patamares históricos. Em todo o País, 9,1 milhões de empresas estão inadimplentes, e as dívidas dessas empresas já somam quase R$ 233 bilhões.
Ainda de acordo com os números nacionais da pesquisa, do total de empresas negativadas em junho, 55,7% pertenciam ao setor de “Serviços”. Na sequência, apareceram os segmentos de “Comércio” (32,2%), “Indústria” (8%) e o setor “Primário” (0,9%).
Nesse caso, Araujo Junior explica que muitas empresas de serviços operam com margens relativamente apertadas e dependem diretamente do consumo das famílias e da atividade empresarial. “Quando há aumento dos juros ou redução da renda disponível, a demanda por diversos serviços tende a desacelerar, afetando o faturamento”, afirma.
Em relação à origem das dívidas, o maior peso permaneceu com o segmento de “Serviços” (31,6%), seguido por “Bancos/Cartões” (19,5%). Na sequência, apareceram Cooperativas (8,4%), Utilities (6,9%) e Telefonia (6%).
A região Sudeste concentrou o maior volume de empresas inadimplentes em junho de 2026. São Paulo liderou (3.126.658), seguido por Minas Gerais (907.558) e Rio de Janeiro (874.385). Em seguida, apareceram os estados do Sul: Paraná (601.986) e Rio Grande do Sul (527.555).

Questionado se o quadro pode piorar em razão da reforma tributária, Araujo Junior explica que, no curto prazo, a reforma pode gerar desafios de adaptação devido à necessidade de mudanças em sistemas, processos e planejamento tributário.
“Setores que hoje possuem regimes favorecidos ou benefícios específicos poderão enfrentar custos de transição. Isso pode pressionar temporariamente o caixa de alguns negócios. Por outro lado, a proposta tem como objetivo simplificar o sistema tributário, reduzir a cumulatividade de impostos e aumentar a segurança jurídica. Assim, não é possível afirmar que a reforma, por si só, aumentará a inadimplência. O efeito deve variar entre setores e ao longo do tempo”, resume.
Micro e pequenas empresas seguem concentrando a inadimplência
Do total de empresas inadimplentes no País, as micro e pequenas empresas seguiram como maioria expressiva, com 8,6 milhões de CNPJs negativados em junho. O grupo concentrou 59,7 milhões de dívidas, que somaram R$ 201,4 bilhões. Em média, cada micro e pequena empresa acumulou 6,9 contas inadimplentes, com dívida média de R$ 23 mil e ticket médio de R$ 3,3 mil.
O coordenador do Ibmec-BH explica que, nesse caso, as micro e pequenas empresas geralmente possuem menor capital e reservas próprias, com maior dependência de crédito de curto prazo para financiar as operações. “Isso as torna mais vulneráveis a choques de juros e oscilações de receita. Em termos econômicos, elas têm menos capacidade de diluir custos fixos e menor poder de negociação com fornecedores e instituições financeiras. Quando ocorre queda de faturamento ou aumento das despesas, o ajuste tende a ser mais difícil”, explica.
Para a economista-chefe da Serasa, o quadro das micro e pequenas empresas continua sendo o mais preocupante. “Estamos falando de negócios que acumulam, em média, quase sete pendências financeiras simultaneamente. Para empresas desse porte, esse volume de compromissos representa uma pressão significativa sobre o fluxo de caixa e reduz a capacidade de investimento e de crescimento”, comenta.
Ela explica que, em um cenário em que os juros permanecem elevados e a desaceleração econômica tende a ganhar intensidade no segundo semestre, a gestão financeira passa a ser ainda mais decisiva para preservar a sustentabilidade dos negócios.
Casas Bahia e Marabraz
Os números da Serasa foram divulgados dias depois de grandes empresas do varejo, como Casas Bahia e Marabraz, oficializarem pedidos de recuperação judicial, em um momento em que as empresas estão sendo impactadas pelo cenário macroeconômico.
Para o especialista no tema e CEO da Siegen, Alexandre Temerloglou, as empresas do varejo vêm sendo fortemente impactadas nos últimos anos, especialmente pelas altas taxas de juros. Temerloglou explica que, em geral, são empresas que pagam seus fornecedores em prazos mais curtos do que aqueles utilizados para financiar suas vendas.
“Dessa forma, recorrem ao capital financeiro para alavancar e manter suas operações, que, no atual patamar, causam uma grande despesa financeira. Na outra ponta, o cliente, consumidor final, também endividado e impactado da mesma forma pelas taxas de juros, também tem dificuldades de manter o consumo”, explica.
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