Indústria mineira busca fortalecer a produção local diante de tensões globais
A escalada de tensões entre Estados Unidos, Irã e Israel marca o fim de uma era de estabilidade das relações internacionais e acende um alerta para a economia local. Diante de um cenário geopolítico cada vez mais conturbado, a indústria mineira já se articula para fortalecer a produção interna e reduzir a dependência externa de insumos.
O assunto foi destacado pelo presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe, em entrevista ao Diário do Comércio. Apesar de as análises apontarem para um cenário alarmante, o dirigente afirma que as novas dinâmicas no comércio exterior também podem ser encaradas como um evento fundamental de valorização da produção interna.
Esse movimento, iniciado durante a pandemia, deve se intensificar a partir do agravamento das atuais tensões, momento encarado como uma importante fase de transição para as relações entre os países. “Devemos enfrentar um período mais conturbado. Nesse contexto, é fundamental fortalecer a produção local e reduzir a dependência externa, garantindo maior segurança para a economia mineira”, pontua Roscoe.
Um dos exemplos bem-sucedidos citados é o desenvolvimento da indústria petrolífera nacional, que segue se mostrando como um importante investimento de longo prazo, que reduziu significativamente a dependência de fornecedores externos. “Se fosse na década de 1970, uma crise como essa poderia quebrar o Brasil, porque o País era totalmente dependente do petróleo importado. Hoje, como desenvolvemos a indústria aqui, esse risco já não gera a mesma aflição”, comenta o dirigente.
O cenário, entretanto, não deve se repetir em outros segmentos industriais, muitos ainda dependentes de insumos importados, cuja ausência é capaz de paralisar a produção local. Diante dessa preocupação, Roscoe defende que a indústria e o poder público mapeiem os segmentos mais vulneráveis das cadeias produtivas e atuem para ampliar e estruturar a produção desses insumos no Estado.
“Com a pandemia, a indústria farmacêutica foi onde primeiro sentimos essa necessidade de garantir uma produção local. Mas, na minha leitura, essa percepção tende a se intensificar e se espalhar para outros setores”, complementa o dirigente.
Fiemg amplia capacidade de investimento e reforça formação
A evolução nessa frente é uma das diversas prioridades da gestão de Flávio Roscoe, iniciada em 2018, como presidente da Fiemg. Ao relembrar os feitos dos últimos oito anos, o dirigente afirma que a entidade foi praticamente redesenhada para defender os interesses da sociedade em consonância com os interesses da indústria mineira.
Como resultado dessa forte articulação, a Fiemg apresentou evolução de aproximadamente sete vezes no patrimônio durante a gestão Roscoe, saltando de um patrimônio de R$ 800 milhões para cerca de R$ 5,3 bilhões. “Nesse período, ampliamos a capacidade de investimento com mais escolas, quintuplicamos o total de alunos, expandimos os laboratórios e reforçamos pesquisa e desenvolvimento. Em média, multiplicamos por cinco praticamente tudo o que fazemos”, ressalta o dirigente.
Os investimentos, segundo ele, ampliaram a participação da indústria de Minas Gerais no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Em 2018, o PIB industrial do Estado era equivalente a 25% do montante nacional, e atualmente está em 32% – figurando entre as maiores participações do País. “Nesse período, conseguimos ampliar significativamente o setor industrial no Estado, mesmo em um ambiente adverso”, acrescenta Roscoe.
Com o fim do mandato na Fiemg, a expectativa é de continuidade na nova gestão, com a totalidade dos eleitores apoiando a candidatura do diretor financeiro e presidente do Sindicato das Indústrias de Laticínios (Silemg), Guilherme Abrantes. “A gente está garantindo que a transformação realizada seja perenizada e siga atualizada. Muitos pontos ainda serão revisitados e melhorados, esse é o propósito. Espero que a próxima gestão seja melhor do que a nossa”, avalia o dirigente.
Indústria articula crédito de R$ 50 milhões e ações emergenciais após apagão produtivo
Além do desenvolvimento frente ao mercado global, o fortalecimento da indústria mineira também exige capital para emergências e situações de calamidade, especialmente em decorrência de eventos climáticos. Exemplo disso é a articulação da indústria diante das fortes chuvas que atingiram a Zona da Mata na última semana, e provocaram um apagão produtivo em cidades como Juiz de Fora e Ubá.
De acordo com Roscoe, a entidade segue atuando com o objetivo de minimizar os prejuízos na região, que conta com importantes parques fabris, como o polo moveleiro de Ubá e o polo metal-automotivo de Juiz de Fora. “Em Ubá já identificamos uma demanda de R$ 50 milhões em capital de giro para as empresas. Estamos buscando viabilizar fontes de financiamento para que elas consigam retomar as atividades, já que muitas perderam parte relevante dos seus ativos”, comenta.
A entidade representativa da indústria mineira também informa que segue atuando na desobstrução de vias para liberar o acesso ao setor produtivo, além de enviar equipes para realizar manutenções emergenciais nas plantas atingidas, com o objetivo de viabilizar a retomada das operações em condições seguras. Em paralelo, Roscoe afirma que será encaminhado aos governos estadual e federal um conjunto de propostas de curto prazo para mitigação dos impactos, incluindo medidas emergenciais e ações de apoio psicossocial às pessoas afetadas.
Quanto ao futuro, os investimentos devem ser marcados pela aquisição de importantes empreendimentos, que devem se transformar em centros de formação e espaços de eventos para o setor. Dentre os mencionados estão a compra da Faculdade Metodista Granbery e do Expominas, em Juiz de Fora, além de escolas em outros municípios, como Leopoldina.
“Isso, com certeza, vai ajudar a dinamizar a economia local. A partir de agora, vamos acompanhar de perto, junto aos industriais, quais são as demandas e necessidades, para atuar e garantir que elas sejam atendidas”, finaliza Roscoe.
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