Economia

Indústria mineira vê oportunidades, mas pede cautela com acordo UE-Mercosul

Fiemg avalia tratado como estratégico para Minas Gerais, mas alerta para desafios de adaptação e novas exigências ambientais
Indústria mineira vê oportunidades, mas pede cautela com acordo UE-Mercosul
Foto: Divulgação/ Portal Governo Brasil

A aprovação provisória do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE) repercutiu de forma positiva entre representantes da indústria mineira, que veem potencial de ampliação de mercados, mas defendem cautela na implementação e atenção aos impactos setoriais em Minas Gerais. A avaliação é da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), que acompanha a tramitação do tratado após o aval dos países europeus, nesta sexta-feira (9), em Bruxelas, na Bélgica.

O acordo cria a maior área de livre comércio do mundo, com um mercado estimado de 722 milhões de consumidores, e prevê a eliminação de tarifas sobre 91% das mercadorias comercializadas entre os dois blocos.

Em Minas Gerais, a relação comercial com a União Europeia é considerada estratégica. Entre 2021 e 2025, as exportações mineiras para o bloco somaram cerca de US$ 31,0 bilhões, enquanto as importações alcançaram US$ 13,38 bilhões, resultando em superávit de US$ 17,62 bilhões, segundo dados da Fiemg.

Apesar do tom de cautela, o pacto pode beneficiar o Estado, uma vez que os seguintes itens são exportados para o bloco, segundo a entidade:

  • café, que responde por 58% das vendas à UE;
  • minério de ferro, que corresponde a 9% das vendas à UE;
  • ferroliga, que corresponde a 8% das vendas à UE.

Também há participação de produtos mais industrializados, como celulose, silício, ferro gusa, peças para motores, tubos de aço, medicamentos embalados e equipamentos médicos. Já as importações provenientes do bloco europeu são dominadas por máquinas e equipamentos, produtos farmacêuticos e itens do setor automotivo, sobretudo partes e peças.

Para o analista de Negócios Internacionais da Fiemg, Felipe Ramon, o acordo tende a gerar efeitos distintos entre setores e até dentro de uma mesma cadeia produtiva, o que exige análise detalhada. “É importante fazer um balanço com cada setor, até porque, em um mesmo setor, podem existir perspectivas divergentes”, defende.

Nesse contexto, ele explica que cadeias produtivas integradas, como a automotiva, podem se beneficiar da redução tarifária, enquanto segmentos como calçados e vestuário podem enfrentar maior concorrência externa.

De acordo com o especialista, a presença de multinacionais europeias em Minas Gerais amplia o potencial de ganhos.

“Quando você tem uma cadeia produtiva integrada, significa que uma empresa compra insumo da outra para transformar ou distribuir. Com a redução das tarifas, esses insumos ficam mais baratos, e isso melhora o custo de produção”, afirma.

Esse processo ocorre de forma gradual, por meio do chamado período de desgravação tarifária, no qual as alíquotas são reduzidas ao longo dos próximos anos, afetando os setores de maneira diferenciada.

Pauta ambiental se torna mais urgente

A Fiemg também chama a atenção para desafios regulatórios e ambientais associados ao acordo. Segundo Felipe Ramon, a indústria mineira precisará se preparar para atender às exigências europeias relacionadas à emissão de carbono.

“A União Europeia tem colocado restrições às importações de produtos com alto nível de emissão. Isso exige investimento em sustentabilidade e em processos produtivos mais verdes para que as empresas consigam aproveitar o acordo”, disse.

A entidade defende apoio ao tratado, mas ressalta a necessidade de instrumentos de mitigação para setores mais sensíveis. Em nota, a Fiemg afirma que o acordo representa um marco relevante no comércio internacional, mas que seus efeitos sobre a indústria mineira exigem acompanhamento cuidadoso.

“O acordo entre a União Europeia e o Mercosul representa uma oportunidade relevante para Minas Gerais ampliar sua inserção em um mercado estratégico, com alto valor agregado”, comenta o presidente da Fiemg, Flávio Roscoe.

Nesse sentido, a federação destaca o papel do Sistema Fiemg, por meio de iniciativas do Senai e de outras entidades, no apoio às empresas para aumento de produtividade e competitividade.

Felipe Ramon reforçou que, quando a adaptação não for possível, existem mecanismos internacionais previstos para a adoção de medidas de defesa comercial, capazes de conter importações que causem impactos relevantes a determinados setores.

A aprovação do acordo ocorre em meio a tensões políticas na Europa, com oposição liderada pela França e protestos de agricultores, além de um contexto geopolítico marcado por disputas comerciais globais.

Para a indústria mineira, no entanto, o foco está nos próximos passos: a ratificação do tratado pelos governos europeus, a definição das regras de implementação e a capacidade de o Estado transformar a abertura comercial em ganhos sustentáveis de competitividade e inserção internacional.

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