Comércio interestadual de Minas atinge R$ 1,4 trilhão e registra superávit recorde pelo terceiro ano seguido
A soma das exportações e das importações de Minas Gerais para outros estados chegou a R$ 1,4 trilhão em 2025. O resultado é 7,1% superior ao registrado no ano anterior e configura superávit recorde pelo terceiro ano consecutivo, de R$ 27,1 bilhões. Os dados foram apurados pela Fundação João Pinheiro (FJP) e divulgados nessa quarta-feira (24), a partir da base de dados das Notas Fiscais Eletrônicas (NFe), disponibilizada pela Secretaria de Estado de Fazenda (SEF). Veja os produtos com maior participação na balança mineira.
| Produto | 2024 | 2025 |
|---|---|---|
| 1º – Veículos automóveis, suas partes e acessórios | 10,4% | 9,6% |
| 2º – Produtos farmacêuticos | 6,7% | 8,5% |
| 3º – Máquinas e equipamentos mecânicos | 7,1% | 7,0% |
| 4º – Ferro fundido, ferro e aço | 7,5% | 6,5% |
| 5º – Máquinas e equipamentos elétricos | 5,4% | 5,5% |
Em relação às exportações feitas em 2025, a região Sudeste foi o principal destino dos produtos, com 56,1% dos envios. Os principais parceiros, incluindo estados de outras regiões, foram São Paulo (37,5%), Rio de Janeiro (10,3%), Espírito Santo (8,3%), Goiás (6,1%) e Paraná (5,4%).
Espaço para crescer
Embora Minas possua uma pauta exportadora interestadual “relativamente diversificada”, há potencial para ampliação de vendas, sobretudo em segmentos de maior valor agregado, como os produtos farmacêuticos, cuja participação cresceu 42,6% em 2025 em relação ao ano anterior. A análise é do economista e conselheiro de política econômica Stefan D’Amato. Segundo ele, enquanto a exportação de máquinas e equipamentos mecânicos e elétricos também subiu, “o que reflete uma base industrial capaz de fornecer bens de maior conteúdo tecnológico”, o setor de ferro, aço e produtos siderúrgicos perdeu participação, o que evidencia “um espaço importante para recuperação da competitividade desse segmento”.
“Além disso, há espaço para diversificar geograficamente as vendas. Embora Minas exporte para todas as regiões do País, mais da metade das exportações ainda se concentra no Sudeste, especialmente em São Paulo, que sozinho absorve 37,5% das vendas mineiras. A ampliação da participação em outras regiões pode reduzir a dependência de poucos mercados e fortalecer a resiliência do comércio mineiro”, sugere o especialista.
Também pode ser possível crescer em setores em que Minas já produz bem, mas ainda vende pouco. “É o caso das máquinas e equipamentos elétricos e mecânicos, que vêm apresentando crescimento consistente e respondem por parcela importante da atividade industrial do Estado, mas ainda representam fatia inferior à de veículos automotores. Outro destaque é o segmento farmacêutico, que, apesar do forte crescimento recente, ainda possui participação inferior à dos veículos e apresenta amplo potencial de expansão, sobretudo porque Minas já demonstra capacidade produtiva consolidada nesse setor. O fortalecimento desses segmentos tende a aumentar a sofisticação da pauta exportadora e reduzir a dependência de produtos tradicionais, tornando o comércio interestadual mais resiliente às oscilações de mercados específicos”, completa D’Amato.
Diversificação da pauta é essencial
Ainda sobre a pauta exportadora de Minas, o economista e professor dos cursos de gestão do Uni-BH Fernando Sette Júnior completa que é importante considerar uma tendência estrutural da mineração brasileira. Segundo ele, o Estado segue como potência mineral, mas parte de suas jazidas mais tradicionais encontra-se em estágio mais avançado de exploração, enquanto o Pará concentra projetos de expansão com reservas mais extensas e competitivas, especialmente de minério de ferro.
“Isso significa que, no médio e longo prazo, a participação relativa da mineração mineira tende a crescer em ritmo menor que no passado. Nesse contexto, torna-se estratégico acelerar a diversificação da pauta exportadora, fortalecendo setores como farmacêutico, equipamentos industriais, tecnologia, alimentos processados e bioeconomia, reduzindo a dependência das commodities minerais e aumentando o valor agregado da economia estadual”, diz.
Veículos automóveis, suas partes e acessórios também lideram importações
Nas importações de 2025, a classe de “Veículos automóveis, suas partes e acessórios” também lidera, com 12,6% de representatividade. Entre as regiões parceiras, a Sudeste foi a principal vendedora para Minas, com 65,2% do total nacional, seguida pela região Sul, com 16,6%. Veja os produtos mais importados pelo Estado:
Principais produtos importados por Minas para outros estados

Entre os estados parceiros, Minas importou mais de São Paulo (51,9%), Rio de Janeiro (7,0%), Espírito Santo (6,3%), Paraná (6,2%) e Santa Catarina (6,2%).
Minas exporta e importa praticamente os mesmos produtos?
Como mostram os dados, os produtos exportados e importados por Minas guardam aparente equivalência. Conforme Sette Júnior, isso ocorre porque Minas faz parte de cadeias produtivas altamente integradas, nas quais os estados não apenas comercializam produtos finais, mas também componentes, insumos e diferentes etapas do processo de fabricação. Assim, embora veículos, máquinas, equipamentos e produtos farmacêuticos apareçam tanto entre as exportações quanto entre as importações, não são exatamente dos mesmos produtos e, sim, bens com diferentes níveis de transformação.
Assim, um veículo pode sair de Minas para outro estado, enquanto motores, sistemas eletrônicos ou autopeças produzidos em São Paulo, Paraná ou Rio Grande do Sul chegam às fábricas mineiras para serem incorporados à produção. O mesmo ocorre com máquinas, equipamentos e medicamentos, cujas cadeias envolvem diversos fornecedores espalhados pelo País. Esse padrão é característico de economias industrializadas e representa um sinal de sofisticação produtiva, e não de fragilidade. Quanto maior a especialização das empresas e a integração entre os estados, maior tende a ser o fluxo de importações e exportações dos mesmos grandes grupos de produtos”, afirma.
Série histórica mostra superávit nos últimos três anos
O relatório da FJP mostra que, na série histórica de comércio de Minas Gerais com os demais estados brasileiros, contabilizada entre 2015 e 2025, o Estado registrou superávit comercial nos últimos três anos. O registro passou de R$ 21,2 bilhões em 2024 para 27,1 bilhões em 2025.

O terceiro ano consecutivo de superávit reflete, segundo Stefan D’Amato, um crescimento das exportações superior ao das importações em 2025: enquanto as vendas interestaduais avançaram 7,4%, as compras cresceram 6,9%, ampliando o saldo comercial para R$ 27,1 bilhões. Outros pontos favoráveis, conforme o especialista, foram a redução dos déficits comerciais com as regiões Sudeste e Sul e o aumento do superávit com o Centro-Oeste.
“Em termos setoriais, destacaram-se o forte crescimento das exportações de produtos farmacêuticos, a expansão das vendas de máquinas e equipamentos e o aumento das exportações para estados como Espírito Santo e Paraná, onde as vendas cresceram acima das importações. Em outras palavras, o superávit não decorre apenas do aumento do comércio, mas de um desempenho relativamente mais favorável das exportações, especialmente em setores industriais de maior valor agregado”, encerra.
O documento da FJP pode ser visto, na íntegra, aqui.
Pauta do comércio interestadual é industrializada
Na análise de Sette Júnior, o relatório da FJP mostra que, diferentemente da pauta de comércio exterior, ainda concentrada em commodities como minério de ferro e café, o comércio interestadual é predominantemente formado por produtos industrializados, como veículos, medicamentos, máquinas, equipamentos e produtos siderúrgicos. “Isso demonstra que Minas Gerais vem consolidando uma economia mais diversificada, integrada e intensiva em valor agregado, reduzindo sua dependência de setores tradicionais e fortalecendo sua participação nas cadeias produtivas nacionais”, declara.
Por fim, o especialista reforça a importância da elevada integração econômica com São Paulo. “Mais do que uma relação de compra e venda, trata-se de uma complementaridade produtiva: Minas fornece insumos industriais, medicamentos, veículos e aço, enquanto importa componentes, máquinas e equipamentos utilizados por sua própria indústria. Essa integração explica a resiliência do comércio interestadual mineiro e reforça que o desenvolvimento econômico do Estado depende cada vez mais de inovação, produtividade e agregação de valor, fatores que deverão sustentar sua competitividade mesmo diante da desaceleração relativa da atividade mineradora no longo prazo”, encerra.
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