Alerta ligado: mudanças climáticas impõem desafios para estruturas de mineração
Os incidentes envolvendo a Vale em Ouro Preto e Congonhas no domingo (25) reacenderam o alerta em Minas Gerais sobre a capacidade das estruturas de mineração de suportar as mudanças climáticas. Entra ano, sai ano, e o período chuvoso tem sido cada vez mais intenso, impondo riscos e desafios para as instalações do setor mineral.
Os extravasamentos de água com sedimentos em operações da mineradora, um na cava da mina de Fábrica e outro no sump – reservatório que serve como dreno – na mina Viga, não causaram vítimas, porém trouxeram impactos ambientais para os municípios. A companhia associou os acontecimentos justamente ao volume de chuvas que atingiu a região Central.
Episódio semelhante ocorreu em janeiro de 2022, na mina de Pau Branco, pertencente à Vallourec, em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). À época, em função das fortes precipitações, ocorreu um deslizamento de talude e carreamento de material sólido da pilha Cachoeirinha para o dique Lisa, que transbordou, invadindo a BR-040. Também não houve vítimas, mas o meio ambiente foi afetado.
Para que incidentes como estes não voltem a acontecer, as instalações do setor mineral precisam estar preparadas para enfrentar o período chuvoso. Inclusive, a previsão para várias regiões do Estado é de chuvas severas nos próximos dias.
De acordo com o professor titular do Departamento de Engenharia de Minas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Roberto Galery, os projetos das estruturas de mineração precisam contemplar recursos tecnológicos que possibilitem, nessas situações, a percolação e a drenagem mais efetivas da água e, caso insuficientes, o bombeamento e a abertura de comportas, se existentes. O docente pondera que, normalmente, esses projetos abrangem operações em condições extremas.
Setor avança, mas exposição a eventos climáticos extremos é fator de risco
O professor do Departamento de Engenharia de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), Hernani Lima, destaca que, após as tragédias de Mariana e Brumadinho, a gestão de barragens passou por uma transformação profunda. Segundo ele, a adoção obrigatória de referências internacionais e a implementação da política de segurança de barragens resultaram em um novo patamar de controle, monitoramento e ações corretivas.
Especificamente sobre as barragens de rejeitos, o docente explica que os estudos de revisão periódica de segurança devem, por força da regulamentação, considerar parâmetros hidrológicos e hidráulicos atualizados, incluindo projeções relacionadas às mudanças climáticas. Portanto, há um arcabouço técnico e normativo que direciona a preparação destas estruturas para cenários climáticos mais severos. Entretanto, nenhuma instalação pode ser considerada 100% imune a eventos extremos, fora do padrão histórico de projeto.
Quanto a outras estruturas de contenção e drenagem, como sumps e bacias, Lima esclarece que cada uma possui projeto, função e critérios técnicos específicos, distintos das barragens de rejeitos. Ele diz que a segurança e a capacidade hidráulica de cada uma devem ser avaliadas caso a caso, com base em seus respectivos estudos técnicos e documentações. E ressalta que a resiliência de qualquer sistema depende da robustez do projeto, da manutenção adequada e da existência de planos de contingência.
“Em síntese, o setor de mineração avançou de forma substantiva na gestão de risco de suas principais estruturas, mas a exposição a eventos climáticos extremos é um fator de risco externo que demanda gestão e monitoramento permanentes, não apenas para barragens, mas para todo o complexo industrial e seu entorno”, afirma.
“A prudência técnica não permite afirmar que qualquer estrutura está absolutamente ‘preparada’ para cenários climáticos não testados, mas permite afirmar que os instrumentos para identificação de vulnerabilidades e resposta a emergências são hoje muito mais robustos e confiáveis”, reitera.
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