Páscoa 2026: entenda por que os chocolates ficaram mais caros
Com uma alta acumulada de 24,77% em 2025 nos preços do chocolate em barra e bombom, a Páscoa de 2026 vai exigir planejamento dos consumidores brasileiros. É o que mostram os dados do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que também indicam que o aumento foi mais de cinco vezes superior à inflação geral, de 4,44% no mesmo período.
Outro fator que interfere no preço final para o consumidor é a valorização recente do cacau no mercado internacional. Desde 28 de fevereiro, os contratos futuros do grão vêm registrando altas na Bolsa de Nova York. Naquele momento, a cotação estava acima de US$ 3 mil por tonelada. Na segunda semana de março, após sucessivas altas, nesta terça-feira (10) o valor superou US$ 3,4 mil por tonelada.
Segundo análise da plataforma de economia Trading Economics, a alta recorrente é influenciada pelo aumento das tensões geopolíticas no Oriente Médio. Isso porque o fechamento do Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, levantou preocupação sobre um possível aumento nos custos de transporte e redução de abastecimento de cacau. No entanto, embora o cenário atual seja de alta no preço do grão, o contexto dos últimos 12 meses tem sido de diminuição em relação ao pico de mais de US$ 12 mil por tonelada em abril de 2024 – mais do que o triplo da média histórica.
Para o professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), Ahmed El Khatib, o crescimento dos preços no Brasil não é pontual nem exclusivamente sazonal, mas resultado de um choque global que ainda repercute em toda a cadeia produtiva. “Antes mesmo do efeito Páscoa, o chocolate já vinha encarecendo forte no Brasil. Isso revela que o problema é estrutural, envolvendo matéria-prima, energia, frete e embalagens”, explica o professor.
Crise do cacau em 2024
O principal fator por trás da alta foi o choque histórico no preço do cacau em 2024, quando a cotação internacional ultrapassou US$ 12 mil por tonelada, mais que o triplo da média histórica. A crise teve origem em quebras sucessivas de safra na África Ocidental, especialmente na Costa do Marfim e em Gana, responsáveis por cerca de 60% da produção mundial.
“Doenças nas lavouras, eventos climáticos extremos associados ao El Niño e envelhecimento dos cacaueiros reduziram drasticamente a oferta global. Como o cacau representa entre 30% e 40% do custo industrial do chocolate, o repasse foi inevitável”, afirma Ahmed.
Mesmo com a recente correção dos preços internacionais, o consumidor brasileiro ainda não sente alívio. “A indústria trabalha com contratos futuros e estoques. Muitas empresas travaram preços quando o cacau estava muito caro. O reflexo na gôndola ocorre com defasagem”, explica.
Além disso, como o cacau é cotado em dólar, qualquer desvalorização do real amplia o custo doméstico.
A alta continua nas prateleiras
Em Belo Horizonte, com a chegada da Páscoa, os preços dos chocolates estão até 37% mais caros em 2026, quando comparados a 2025. É o que mostra um levantamento feito pela plataforma Mercado Mineiro nos últimos 15 dias de fevereiro e divulgado na última segunda-feira (2) . A barra de chocolate da Nestlé subiu de R$ 7,92 para R$ 10,89 (37%), já a barra da Lacta passou de R$ 7,39 para R$ 9,94 (34,56%).
Os aumentos também chegam aos ovos de Páscoa, veja abaixo:
- Ovo Trakinas de 190g passou de R$ 59,62 para R$ 80,99, um aumento de 35,84%;
- Ovo Sonho de Valsa de 277g subiu de R$ 47,49 para R$ 57,99, um aumento de 22%;
- Ovo Surpresa 204g subiu de R$ 58,83 para R$ 76,99, um aumento de 30,87%;
- Ovo Talento avelã de 350g subiu de R$ 73,40 para R$ 91,95, um aumento de 25%.
Conforme Ahmed, o consumidor pode perceber a alta de três formas: aumento direto do preço, redução da gramatura com valor semelhante ou promoções mais seletivas. “O varejo pode manter preços competitivos em alguns produtos-âncora e compensar elevando margens em versões premium ou licenciadas”, afirma.
Ele ressalta ainda que o ovo de Páscoa concentra custos adicionais de embalagem temática, marketing e logística refrigerada. “O consumidor não paga apenas pelo chocolate, mas por toda a estrutura sazonal que envolve o produto”, diz.
Queda de preços pode demorar
Ahmed explica que há expectativa de superávit global de cacau até o fim de 2026, cenário que pode aliviar os preços ao consumidor apenas ao longo de 2027. Mesmo assim, ele prevê que a redução tende a ser limitada, uma vez que o impacto da matéria-prima representa apenas parte do valor final do produto.
“Em um ovo de R$ 70, cerca de 30% do preço está ligado diretamente ao cacau. Se o preço internacional cair 30% e esse movimento for totalmente repassado, o impacto máximo seria algo próximo de R$ 6”, afirma.
Na prática, como o repasse costuma ser parcial, a redução poderia ser de cerca de R$ 3. “Mesmo com superávit, dificilmente veremos uma volta aos preços antigos. Há rigidez para baixo no varejo e outros custos continuam elevados”, diz.
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