Economia

Preço da energia no mercado livre dispara até 121% em dois anos

Fatores climáticos, estruturais e de mercado elevam o custo da energia e afetam o setor industrial, alertando para possíveis impactos inflacionários
Preço da energia no mercado livre dispara até 121% em dois anos
Foto: Reprodução Adobe Stock

O preço da energia no mercado livre, em dois anos, variou 59% nos contratos de longo prazo e até 121% em contratos trimestrais, conforme dados da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel). Os motivos, de acordo com especialistas, passam pelos fatores climáticos, estruturais e conjunturais. Situação que alerta para possíveis impactos inflacionários.

O estudo realizado pela associação mostra que, entre janeiro de 2024 e março de 2026, o preço da energia elétrica no mercado livre de longo prazo, ou seja, aqueles contratos de energia convencional para os quatro anos subsequentes, acumulou elevação de 59%, passando de R$ 147 por megawatt-hora (MWh) em 2024 para R$ 233 por MWh em 2026.

Nesse período, quando comparados os preços trimestrais, a escalada é ainda maior. Os contratos de energia convencional para os três meses subsequentes sofreram uma elevação de 121%, passando de R$ 143 por MWh em 2024 para R$ 317 por MWh em 2026. Para efeito de comparação, a variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial de inflação, subiu 5% desde então.

Ao contrário do mercado cativo atendido pelas distribuidoras, no qual as tarifas são calculadas e definidas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), no mercado livre os preços variam em função de elementos de mercado, como oferta e demanda, mas principalmente em função dos resultados dos modelos matemáticos de formação de preços e da operação do sistema interligado nacional.

A escalada de preços no mercado livre de energia segue o avanço do Preço de Liquidação de Diferenças (PLD), utilizado para valorar as operações no mercado de curto prazo, onde compradores e vendedores ajustam posições mensalmente. O PLD médio sofreu uma elevação de 84% nesse período, passando de R$ 129 por MWh em 2024 para R$ 236 por MWh em 2026.

Nesse contexto, o presidente da Abraceel, Rodrigo Ferreira, ressalta que o mercado livre é responsável por 42% da demanda de energia no Brasil. Com previsão de atender a todos os consumidores, incluindo residenciais, “é preciso que o governo e a sociedade tenham um olhar atento para o preço da energia sob pena de inviabilizar o setor produtivo do Brasil e a política pública que se pretende alcançar com a abertura de mercado para todos os consumidores, com impactos diretos na inflação”.

A alta dos preços já afeta o setor industrial. Conforme informa o consultor em energia da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Sérgio Pataca, esse movimento já tem impactado decisões de empresas e indústrias, especialmente aquelas com contratos próximos do vencimento. “Muitas estão sendo obrigadas a renovar acordos em patamares mais elevados, o que pressiona custos e pode refletir no preço final dos produtos”, observa.

Fatores climáticos e estruturais dispararam preços

De acordo com Pataca, o principal ponto para entender a disparada recente é que 2024 representou um piso histórico de preços motivado por um período de reservatórios muito cheios, que garantiu energia abundante e barata e pela abertura do mercado livre a novos consumidores. “A cheia dos reservatórios coincidiu com a abertura do mercado livre para consumidores do grupo A (alta tensão), ampliando a migração e permitindo economias de até 30% em relação ao mercado cativo. O mercado livre estava muito atraente”, comenta.

A partir do final daquele ano e início de 2025, Pataca explica que começa um período de seca, em que o regime de chuvas ficou abaixo da média. Situação que se agravou, especialmente nas regiões Sudeste e Sul, com baixos níveis de precipitação ao longo do ano. “Foi um período muito ruim do ponto de vista hídrico. Isso impacta diretamente o nível dos reservatórios e, consequentemente, o preço da energia”, explica Pataca.

Além da questão climática, houve também uma mudança no modelo de precificação adotado pelo governo, que passou a ser mais conservador diante do risco de escassez. A nova metodologia elevou os preços para preservar os níveis dos reservatórios e evitar uma crise de abastecimento.

Mudança que o diretor da CMU Energia, Walter Fróes, considera determinante para a volatilidade dos preços. “Esse modelo de maior aversão ao risco, fez com que o mercado ficasse muito nervoso. A qualquer consideração, os preços já sobem muito”, avalia.

De acordo com ele, grandes geradores estão preferindo vender energia mês a mês, no curto prazo do que vender a prazos mais longos quando o preço é menor.

Em 2026, apesar de uma recuperação, o consultor da Fiemg comenta que os níveis dos reservatórios ainda são considerados insuficientes em algumas regiões, mantendo os preços altos. “Antes eles estavam cheios e o preço da energia baixo, com diferenças que chegaram a ultrapassar os 30%, para o mercado livre. Hoje, a diferença está entre 2% a 5%. O empresário acaba não migrando”, diz.

Com uma economia tão pequena, Pataca disse acreditar que muitos consumidores irão preferir permanecer no mercado cativo, que é mais simples. “No mercado livre, há mais agentes envolvidos e maior complexidade contratual”, afirma.

Essa situação leva Fróes da CMU Energia a apostar que as migrações este ano se aproximem do zero. “Ano passado tivemos recordes de migrações, mas este ano, nossa previsão é que elas praticamente não aconteçam”, diz.

Situação que a Abraceel considera preocupante. De acordo com o presidente da entidade, Rodrigo Ferreira, apesar do preço alto, o desarranjo setorial afastou significativamente novos investimentos em geração, principalmente em função de inconsistências que vêm sendo observadas nos modelos de formação de preços.

Há também, segundo ele, um elemento novo ocorrendo no setor que é uma escassez de oferta no mercado livre que estaria contribuindo para a elevação dos preços. “Cerca de um terço dos contratos de consumidores têm prazo de seis meses a dois anos e com esse patamar de preço, associado à crise de oferta e escassez de energia nova, esses consumidores livres ficarão expostos a preços impagáveis”, comenta.

A falta de energia estaria sendo causada pelo GSF, da sigla em inglês Generation Scaling Factor, que é um índice que mede o risco hidrológico, indicando se as hidrelétricas produziram abaixo ou acima do previsto e pelo curtailment, que é a redução forçada, ordenada pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), da produção de usinas eólicas e solares para equilibrar a rede elétrica quando há excesso de energia ou falhas na transmissão.

Em função disso, o presidente recomenda “um olhar atento, inclusive da Agência Nacional de Energia Elétrica, para evitar artificialidades na formação do preço da energia, como poder de mercado e sobre custos com a operação do sistema”.

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