Serviços puxam emprego em Minas, que apresenta melhor saldo em oito meses
O número de empregos formais registrou, em fevereiro, o melhor desempenho em oito meses em Minas Gerais com saldo positivo de 22.874 novos postos. O resultado foi impulsionado pelo setor de serviços, que superou o déficit de janeiro e registrou saldo positivo de 16.122 empregos.
Os dados são do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgados nesta terça-feira (31), pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Ao todo, o Estado contabilizou 240.712 admissões e 217.838 desligamentos no último mês. No acumulado do primeiro bimestre, o saldo está positivo em 30.318 postos de trabalho.
Além de superar o patamar de janeiro (7.425), este é o melhor saldo desde junho de 2025, quando foram criadas 23.915 vagas. O desempenho robusto minimiza o impacto dos três resultados negativos consecutivos registrados no último trimestre de 2025, que haviam gerado incertezas sobre a retomada da economia no Estado.
O setor de serviços saltou de um saldo negativo em janeiro (-606) para a liderança absoluta no mês de fevereiro (16.122). Em seguida, o agronegócio registrou 3.237 novos postos, ocupando a segunda posição dentre os setores.
A indústria também fechou o mês com saldo positivo (1.718), embora tenha perdido tração na comparação com janeiro (9.195). Já o comércio, embora continue no terreno negativo em fevereiro (-126), apresentou uma melhora acentuada frente a janeiro (-5.741), sinalizando a interrupção dos impactos das demissões sazonais de início de ano.
O economista e docente do curso de Gestão e Negócios do UniBH, Fernando Sette Júnior, comenta que, embora positivo, o saldo revela que o mercado de trabalho mineiro está mais resiliente do que propriamente aquecido. “O saldo em fevereiro é forte, mas a composição do resultado pede cautela: a reação veio concentrada em serviços, enquanto a indústria perdeu tração e o comércio apenas saiu de um quadro muito negativo para perto da estabilidade”, salienta.
Destaque no mês, o economista explica que a virada de serviços de janeiro para fevereiro pode se dar, em grande parte, pela normalização do calendário econômico após os ajustes típicos do início do ano. Além disso, a passagem de janeiro para fevereiro tradicionalmente melhora o desempenho de serviços, já que o ponto negativo do primeiro mês do ano tende a decorrer menos de deterioração real da economia e mais de um ajuste de calendário.
O setor de serviços ainda encontra fatores de sustentação mais persistentes ao longo do tempo. O economista cita o fato da inflação do setor permanecer elevada no último ano, em 6,01%, acima do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 4,26%. “Isso indica uma demanda ainda relativamente firme e um mercado de trabalho com alguma sustentação, mesmo em um ambiente de juros elevados”, acrescenta.
Indústria perde tração com juros elevados
Com relação à desaceleração da indústria observada entre janeiro e fevereiro, Sette Júnior avalia que o resultado é compatível com o efeito defasado da política monetária. Segundo ele, o setor tende a sentir com maior força o custo do capital, o crédito mais caro, a cautela dos investimentos e a demanda mais fraca por bens duráveis e intermediários.
“Mesmo com a redução da Taxa Selic em março para 14,75% ao ano, o nível de juros segue elevado, e isso naturalmente limita decisões de expansão de capacidade, recomposição de estoques e novas contratações”, destaca o economista.
Além disso, a indústria é considerada um setor de maior exposição à volatilidade do cenário externo e à incerteza sobre câmbio, custo financeiro e ritmo da atividade nacional. Embora não tenha entrado em retração com o atual desempenho, Sette Júnior ressalta que o segmento passou a operar com maior moderação, algo considerado típico de uma economia com condições financeiras ainda apertadas.
Apesar do crescimento, cenário ainda impõe cautela
Apesar do desempenho positivo, a projeção é de desaceleração na criação de novos empregos em Minas Gerais nos próximos meses, sobretudo se a melhora for considerada apenas uma recomposição pós-janeiro. Mesmo que positivo, o economista avalia que a tendência é que o mercado de trabalho mineiro possa apresentar oscilações, já que a política monetária segue contracionista e a indústria já mostrou perda de fôlego.
“Quando a geração de vagas fica muito concentrada em serviços, a continuidade depende mais da sustentação da renda e da confiança de famílias e empresas do que de um ciclo amplo de investimento”, complementa Sette Júnior.
Além dos juros ainda em patamares elevados, principal desafio atualmente, o cenário internacional também pode influenciar nos próximos meses. Em hipótese de desaceleração global, aperto financeiro externo ou pressão cambial, o impacto tende a atingir exportações, confiança e custos industriais.
“Para Minas Gerais, isso significa que, se o mundo ajudar e os juros domésticos caírem gradualmente, os empregos podem continuar avançando. Por outro lado, se o ambiente externo piorar e a inflação seguir resistente, o Estado tende a continuar resiliente, mas com crescimento menos espalhado e mais vulnerável a perda de tração”, finaliza o economista.
Saldo de empregos em Minas nos últimos meses:
- Junho: 23.915
- Julho: 3.402
- Agosto: 1.466
- Setembro: 11.784
- Outubro: – 4.120
- Novembro: – 9.023
- Dezembro: -73.640
- Janeiro: 7.425
- Fevereiro: 22.874
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