Na contramão do Brasil, setor de serviços em Minas encerra 2025 com o pior resultado em quatro anos
Em um ano marcado por altos e baixos, o setor de serviços em Minas Gerais encerrou 2025 com o pior resultado em quatro anos, com variação de 0,2%. O desempenho contrasta com o crescimento de 2,8% registrado no País, e foi impactado, principalmente, pelo setor de transportes de carga ferroviária e rodoviária.
Os dados fazem parte da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada nesta quinta-feira (12). No período, foram registradas uma estabilidade, seis recuos e cinco avanços nos indicadores mensais, comprovando as alternações ao longo do ano.
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Em dezembro, o setor apresentou recuo de 0,8%, com o transporte rodoviário de carga exercendo a maior influência negativa para o período. No mês, três das cinco atividades analisadas apresentaram queda, com destaque para Serviços prestados às famílias, que recuou 3,9% frente ao mesmo mês do ano anterior.
Também recuaram as categorias de Transportes, serviços auxiliares aos transportes e correio, além de serviços profissionais, administrativos e complementares, ambos com retração de 2,2%.
Em contrapartida, no acumulado do ano, três das cinco atividades investigadas tiveram resultado positivo, com a maior variação em Serviços de informação e comunicação (3,0%).
O analista do IBGE, Daniel Dutra, explica que a retração no setor de transporte de cargas pode estar atrelada ao escoamento de safra, que foi menor no ano passado se comparado a 2024. Os envios de commodities, segundo ele, tendem a ser mais expressivos no primeiro semestre, impactando diretamente o volume de fretes e a demanda por transporte rodoviário, ferroviário e portuário.
Nesse contexto, como as commodities agrícolas são o principal produto escoado pelo transporte rodoviário, qualquer oscilação no segmento se reflete de maneira quase automática na atividade de serviços. “Quando a safra cresce e o escoamento ganha força, o setor de transporte sente imediatamente os efeitos positivos. Da mesma forma, quando há retração na produção, o impacto negativo também é direto”, reforça o analista.
Por outro lado, serviço de informação, como internet e telecomunicações, registraram crescimento no período e ajudaram a sustentar o desempenho do setor, evitando que o ano se encerrasse com resultado negativo.
Estrutura de produção torna serviços mineiros mais sensíveis ao ritmo da economia
De acordo com o economista e conselheiro de política econômica Stefan D’Amato, o desempenho mais contido do setor de serviços em Minas Gerais, em comparação ao resultado nacional, pode estar associado à composição da estrutura econômica do Estado. Segundo ele, o Estado tem forte integração com as cadeias industriais, extrativas e agropecuárias, o que torna parte relevante dos serviços, especialmente transportes, altamente dependente do ritmo da produção física.
“Quando a indústria e o comércio perdem fôlego, os efeitos se propagam rapidamente para os serviços ligados à logística, apoio operacional e gestão empresarial”, destaca.
Além disso, o cenário macroeconômico de juros elevados e crédito mais restritivo ao longo do ano contribuiu para um ambiente de maior cautela por parte de empresas e famílias. Para D’Amato, os custos financeiros mais altos reduzem investimentos, encarecem capital de giro e desestimulam a expansão de atividades produtivas, afetando diretamente serviços voltados às empresas.
Outro fator considerado relevante pelo economista são as particularidades do setor de serviços no País. Estados com maior peso de atividades intensivas em tecnologia, informação e serviços financeiros costumam apresentar maior resiliência em momentos de desaceleração.
“Em Minas, apesar da presença desses segmentos, o peso relativo dos serviços mais tradicionais e cíclicos é maior, o que amplia a sensibilidade em períodos de oscilações da economia”, argumenta.
Para 2026, as perspectivas ainda são consideradas incertas, já que dependem principalmente da trajetória da política monetária e da recuperação do investimento produtivo. “Uma eventual redução consistente dos juros pode aliviar o custo do crédito, estimular a atividade empresarial e favorecer a retomada gradual do setor. Ainda assim, o cenário tende a ser de recuperação moderada, exigindo maior diversificação e fortalecimento de segmentos de maior valor agregado para reduzir a vulnerabilidade a ciclos econômicos adversos”, conclui D’Amato.
Desempenho do setor de serviços em Minas Gerais
- 2021: 14%
- 2022: 11,2%
- 2023: 8%
- 2024: 2,2%
- 2025: 0,2%
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