Economia

UE deve anunciar investimentos em 5 mineradoras com operação no Brasil em março

Acordo busca garantir fornecimento de lítio, níquel e terras raras para transição energética europeia
UE deve anunciar investimentos em 5 mineradoras com operação no Brasil em março
Foto: Ricardo Teles

O governo brasileiro espera que no final de março investidores ligados à União Europeia anunciem aportes em cinco mineradoras com operação no Brasil. O anúncio já fará parte do interesse da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em assinar um acordo com o país para garantir o fornecimento de minerais críticos para a Europa.

Segundo Ana Paula Repezza, diretora de negócios da Apex Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), o interesse inicial dos europeus é por mineradoras de terras raras, níquel, lítio e manganês, todos essenciais para a fabricação de carros elétricos -principal ferramenta da UE para descarbonizar o setor de transportes.

O anúncio, segundo ela, é esperado para acontecer no dia 24 de março, durante um fórum na Apex sobre investimentos envolvendo o Brasil e o bloco europeu. Ela não quis nomear quais empresas receberão os aportes.

Conforme a reportagem apurou, uma dessas empresas é a Viridis, que tem capital aberto na Bolsa de Sydney, mas tem um fundo brasileiro como principal acionista. A mineradora tem planos de extrair elementos de terras raras no sul de Minas Gerais a partir de 2028, e já mantém conversas frequentes com investidores europeus -o banco de exportação do governo francês, por exemplo, é responsável por metade da dívida contraída pela mineradora para avançar seu projeto.

Os investimentos também podem ser alocados na Brazilian Nickel, com planos de operar no Piauí, e na AMG Lithium, que já extrai lítio em Minas Gerais -ambas participaram de eventos organizados pela Apex recentemente com os europeus. Essa última, aliás, já tem uma planta de processamento de lítio na Alemanha e, em dezembro, recebeu 36 milhões de euros vindos de um fundo do governo alemão para ampliar suas operações no país europeu.

Repezza diz que que, em todos os casos, há interesse da União Europeia de que o beneficiamento e o refino desses minerais seja feito no Brasil, como defende o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não haverá, no entanto, entraves legais que exigem que isso aconteça; segundo ela, as exigências vêm do próprio mercado.

“Faz sentido para a UE apoiar e investir no beneficiamento de minerais críticos no Brasil, porque todo o processo de extração e processamento mineral consome muita energia, e o Brasil tem a matriz elétrica mais limpa do mundo e, consequentemente, a menor pegada de carbono”, afirma Repezza.

As negociações entre Brasil e União Europeia sobre o tema seguem rumos diferentes da estratégia do governo dos Estados Unidos sobre minerais críticos. Quando lidam com governos estrangeiros, autoridades americanas costumam negociar, em contratos, termos que garantem o fornecimento e o acesso prioritários de minerais críticos para os EUA. Como a Folha de S.Paulo mostrou, os americanos também optam, em alguns casos, por entrar em contato diretamente com as mineradoras.

Já no caso europeu, a participação governamental passa apenas pela coordenação dos trabalhos. De acordo com Repezza, o papel do governo brasileiro nessas discussões foi direcionar o investimento a projetos considerados estratégicos para o país. “Estamos levando em conta não só o estágio do projeto, mas a questão do desenvolvimento regional”, afirma.

O objetivo, no caso, é evitar que as negociações sejam feitas sem qualquer crivo do governo brasileiro. “Estamos fazendo um processo de aceleração de investimento com a UE, tendo em vista o respeito das políticas públicas para o adensamento da cadeia e industrialização do Brasil”, diz Repezza.

Participam também das discussões os ministérios de Minas e Energia; da Ciência, Tecnologia e Inovação; do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social).

O processo também deve ser facilitado pelo acordo comercial entre o bloco europeu e o Mercosul, que reduzirá as tarifas de importação de alguns desses minerais críticos, seja na forma bruta ou processada -o tratado foi assinado no sábado (17), mas o Parlamento Europeu aprovou sua revisão jurídica na quarta (21).

Von der Leyen aproveitou seu discurso de celebração do acordo comercial na sexta (16) para ressaltar o interesse da UE pelos minerais do Brasil. “Europa e Brasil estão caminhando para um acordo político muito importante em minerais críticos, que vai definir os termos de nossa cooperação em investimentos conjuntos em lítio, níquel e terras raras. Isso é chave para nossas transições energética e digital”, afirmou.

A estratégia europeia passa pela iniciativa ReSourceEU, que visa reduzir a dependência europeia por minerais críticos em até 50% até 2029. Para isso, os europeus estão dispostos a desembolsar 3 bilhões de euros até o final deste ano. Em documentos de apresentação do plano, um acordo com o Brasil é geralmente tratado como uma das principais ferramentas para atingir o objetivo.

Conteúdo distribuído por Folhapress

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