Conflito do Oriente Médio pressiona bolsa de valores a curto prazo
O aumento das tensões geopolíticas no Oriente Médio deu espaço para a volatilidade nos mercados globais a curto prazo, mas não alterou as expectativas para médio e longo prazos, conforme especialistas ouvidos pelo Diário do Comércio.
A queda do Ibovespa, acompanhada pela alta do dólar, reflete um movimento típico de aversão ao risco diante do medo da interrupção no fornecimento global de petróleo, especialmente após o anúncio de bloqueio ou dificuldades no Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo.
Para os especialistas, o episódio não altera, por enquanto, as expectativas de médio e longo prazo das bolsas, mas impõe um freio no curto prazo, redirecionando os fluxos para ativos considerados mais seguros.
A sócia e economista da Siegen Consultoria, Jucelia Lisboa, avalia que o risco de interrupção no fluxo de petróleo após a escalada das tensões entre Estados Unidos, Israel e Irã impulsionou os preços da commodity e reacendeu preocupações inflacionárias. “Com o petróleo em alta, os investidores passam a revisar as expectativas para cortes de juros no mundo e adotam postura mais defensiva”, afirma.
Esse reposicionamento leva, conforme Jucelia Lisboa, à redução de exposição a ativos de risco, como ações e moedas de países emergentes, e à busca por proteção no dólar e em títulos do tesouro norte-americano.
No Brasil, de acordo com a economista, praticamente todos os setores da bolsa registraram perdas, com destaque para bancos, varejo e empresas ligadas ao consumo interno. A exceção são as petroleiras, que tendem a se beneficiar com o avanço do barril.
O especialista e sócio da Valor Investimentos, Gustavo Trotta, reforça que conflitos dessa magnitude impactam todas as bolsas globais. “Há uma aversão ao risco que redireciona fluxo para metais e treasuries americanas, o que aumenta a volatilidade na renda variável”, explica.
Ele pondera, contudo, que o movimento do petróleo decorre de um choque geopolítico e não necessariamente de fundamentos de oferta e demanda. Por isso, nem sempre as ações acompanham integralmente a alta do barril, já que o investidor pode optar por reduzir risco mesmo em empresas potencialmente beneficiadas.
Mercado nacional em cautela
No cenário doméstico, Jucelia Lisboa reforça que o dado do Produto Interno Bruto (PIB) de 2025 (2,35%) ficou dentro das expectativas e em segundo plano. Para a economista, o comportamento dos ativos reflete mais o aumento da incerteza global, do que às fragilidades internas.
O head de renda variável da Veedha Investimentos, Rodrigo Moliterno, avalia que o conflito coloca as bolsas em “hold”, ou seja, em investimentos de médio e longo prazo, até que haja maior clareza sobre a magnitude e a duração das tensões. “Se ficar restrito à região, o impacto tende a ser temporário. O mercado precisa entender se haverá envolvimento de outras nações e por quanto tempo o petróleo permanecerá elevado”, diz.
Ele destaca que o principal canal de transmissão do choque é a inflação. Petróleo mais caro significa energia mais cara, com potencial de pressionar os índices de preços e reduzir o espaço para cortes mais rápidos da taxa básica de juros, tanto no Brasil quanto em outras economias.
Além disso, o fluxo estrangeiro que vinha reforçando mercados emergentes pode sofrer interrupção temporária. “Parte do capital que estava sendo realocado para emergentes tende a voltar para portos seguros até que o cenário fique mais claro”, afirma Moliterno.
Em consonância, o analista de ativos da Monte Bravo, Bruno Benassi, ressalta que o cenário é incerto. Na visão dele, tudo dependerá da duração da guerra e dos impactos que o petróleo terá. “O petróleo é um componente importante de composição de várias indústrias e países, pressiona a inflação, tira cortes da curva, aumenta a tensão geopolítica”, diz.
Por isso, ele afirma que, em cenário de intensificação da guerra, a situação fica negativa para ativos de risco no geral. “A bolsa brasileira vai sofrer, mas desempenhar relativamente bem. Até porque nesse cenário de aumento de risco, uma parte do dinheiro que entrou no Brasil pode voltar para os ativos Estados Unidos, para o dólar, as treasuries, entre outros”, avalia.
No entanto, no cenário de alívio das tensões, o petróleo sobe, depois volta para a normalidade. “A bolsa brasileira, nestas condições, deve sofrer um pouco, como sofreu esta semana, mas depois volta a performar bem”, observa.
No curto prazo, a tendência apontada pelos especialistas é de maior volatilidade e realização parcial de lucros, especialmente após o rali recente observado em mercados emergentes. A possibilidade de novos recordes nas bolsas deve ficar suspensa até que o cenário geopolítico se estabilize.
A médio e longo prazos, porém, o viés estrutural ainda é considerado positivo, desde que o conflito não se amplie e não haja desancoragem significativa das expectativas de inflação.
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