Especialistas veem espaço para novas altas na Bolsa e afastam risco de bolha
Mesmo após a valorização de 12% da bolsa brasileira (B3) no primeiro mês do ano impulsionada, em parte, pelo forte ingresso de capital estrangeiro em janeiro, especialistas ouvidos pelo Diário do Comércio avaliam que ainda há espaço para novas altas no mercado acionário. Segundo eles, o risco de formação de uma “bolha”, situação em que expectativas não se confirmam e levam a quedas abruptas de preços e grandes prejuízos aos investidores, está descartado.
De acordo com o gestor da Valor Investimentos, Paulo Henrique Duarte, a bolsa brasileira negocia abaixo da média do preço sobre lucro futuro esperado para os próximos 12 meses. Por isso, não há risco de que os preços dos ativos, como as ações, subam de forma repentina, impulsionados por euforia ou especulação.
Dados da B3 mostram que os investimentos estrangeiros somaram R$ 26,31 bilhões em janeiro, superando os R$ 25,47 bilhões aportados ao longo de todo o ano de 2025. No entanto, segundo especialistas, o movimento não é exclusivo do mercado brasileiro, mas reflete uma tendência observada em países emergentes de forma geral.
“O Brasil estava negociando abaixo da média histórica e é um mercado grande e líquido. No entanto, esse movimento faz parte de um fluxo mais amplo para países emergentes. Em boa parte deles, as bolsas acumulam alta neste início de ano”, afirma o analista de ativos da Monte Bravo, Bruno Brenassi.

O fenômeno é consequência, segundo Paulo Duarte, da elevada liquidez do mercado internacional, impulsionada por uma “fuga do dólar” por parte de bancos centrais e investidores. “Esse movimento está mais relacionado a questões geopolíticas do que econômicas. As ações erráticas e a política internacional agressiva do governo Trump têm enfraquecido o dólar e os títulos do governo americano, historicamente usados como principal reserva de valor no mundo”, explica o gestor.
Esse cenário, ainda conforme Duarte, tem impulsionado não apenas os mercados emergentes, mas também outras moedas fortes, como o euro, a libra esterlina e o franco suíço, além de ativos como os metais preciosos: ouro e prata.
Nesse contexto, o economista e CEO da Veedha Investimentos, Rodrigo Marcatti, avalia que haverá revisões nas projeções para o mercado acionário, já que o patamar de 185 mil pontos, esperado para este ano, foi atingido rapidamente. “É cedo para falarmos em bolha. Os 185 mil pontos eram considerados o piso das projeções, mas várias casas já estimavam níveis acima de 200 mil pontos. Essas expectativas devem ser ajustadas ao longo do tempo”, afirma.
A confirmação do ciclo de queda de juros pelo Banco Central do Brasil é outro fator que contribui para o aumento da confiança dos investidores e para a maior disposição em assumir riscos em busca de retornos mais elevados. “Com a redução dos juros e a continuidade desse ciclo até o fim do ano, a Bolsa ganha mais apetite, sem qualquer chance de formação de bolha”, destaca Marcatti.
Por se tratar de um ano eleitoral, os especialistas reconhecem que a volatilidade tende a aumentar, mas avaliam que o efeito não deve ser substancial sobre o desempenho do mercado. Em geral, cenários de incerteza política afastam investidores, enquanto candidatos alinhados ao mercado costumam gerar otimismo e valorização dos ativos. Ainda assim, Brenassi pondera que o impacto das eleições pode ser limitado. “Não acreditamos que o processo eleitoral vá influenciar de forma significativa. Mantivemos nossas projeções: um primeiro trimestre bastante positivo e, a partir do terceiro trimestre, alguma correção, já considerando o cenário eleitoral doméstico”, afirma.
Na mesma linha, Marcatti avalia que as eleições elevam a volatilidade, mas também podem funcionar como catalisador para novas altas. “A volatilidade é esperada, mas pode haver incorporação de mais valor à bolsa, dependendo do cenário político. As projeções tendem a mudar ao longo do ano”, observa.
Já Paulo Duarte destaca que, mais importante do que o nome do candidato vencedor, será o compromisso do futuro governo com o ajuste fiscal no segundo semestre, fator considerado determinante para a sustentação do mercado nos médio e longo prazos.
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