Finanças

Guerra no Oriente Médio impulsiona renda fixa e pressiona Bolsas

Valorização dos ativos de renda fixa está relacionada à alta do petróleo
Guerra no Oriente Médio impulsiona renda fixa e pressiona Bolsas
Foto: Divulgação B3

São Paulo – A guerra no Oriente Médio tem afetado o comportamento de investidores mundo afora. Com maior aversão ao risco, Bolsas e ativos de renda variável se desvalorizam, enquanto investimentos considerados seguros ganham destaque.

Títulos públicos brasileiros e norte-americanos têm se valorizado diante do temor de que o conflito gere um repique inflacionário global. Outro exemplo é o dólar, novamente buscado por investidores como moeda de segurança.

Segundo o índice DXY, que mede o desempenho da divisa americana ante uma cesta de seis moedas fortes, o dólar registra alta de 2,55% desde que o conflito escalou. No acumulado de 2026 antes do confronto, o índice registrava queda de 0,72%.

“Em momentos de incerteza, costuma ocorrer o movimento chamado de ‘fuga para a qualidade’. Os investidores priorizam emissores considerados mais seguros. Nos Estados Unidos, são as Treasuries. No Brasil, títulos de renda fixa com alta liquidez e baixo risco também funcionam como proteção. Ações tendem a sofrer mais em períodos de turbulência”, afirma Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research.

A recomendação é de ativos indexados à inflação, que acompanham o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e pagam uma taxa prefixada de juros, além dos pós-fixados, como Tesouro Selic e CDBs.

Investimentos atrelados ao IPCA tendem a preservar o poder de compra do investidor em momentos de pressão inflacionária, como no caso do conflito no Oriente Médio. Vencimentos mais longos, porém, ficam mais expostos à marcação a mercado (diferença entre o valor pago pelo título na contratação e o preço pelo qual ele é negociado no momento do resgate), caso sejam vendidos antes do prazo.

“Dentro de uma estratégia de médio e longo prazo, os papéis atrelados ao IPCA continuam bastante atrativos, porque protegem contra o risco inflacionário e oferecem taxas reais elevadas”, afirma Guilherme Almeida.

Ele também destaca os pós-fixados, que acompanham índices como CDI ou Selic e que “ajudam a reduzir a volatilidade da carteira por apresentar menor variação de preço diante dos movimentos da curva de juros”.

A valorização dos ativos de renda fixa está relacionada à alta do petróleo. Os preços da commodity dispararam após o fechamento do estreito de Hormuz, localizado na fronteira do Irã e por onde passa cerca de 20% da produção global da commodity.

Há preocupação de que, caso o petróleo continue em alta em razão do conflito, a inflação global seja pressionada e, consequentemente, bancos centrais sejam obrigados a manter as taxas de juros elevadas -o que favorece ativos de renda fixa.

No Brasil, economistas já admitem a possibilidade de o Banco Central (BC) manter a taxa básica de juros em 15% por mais uma reunião. No primeiro Boletim Focus após o início do conflito, analistas voltaram a elevar a previsão para a Selic, a 12,13%, ante 12% na estimativa anterior.

Nos EUA, também houve revisão nas projeções de juros. Segundo a ferramenta FedWatch, do CME Group, os investidores veem uma chance de 99,2% de que o Federal Reserve (Fed) mantenha o patamar atual de juros, entre 3,5% e 3,75%, na reunião desta quarta-feira (18).

As previsões também apontam maior probabilidade de manutenção da taxa nas reuniões subsequentes: 93% na reunião de abril e 71,7% na de junho. O quadro começa a mudar na reunião de julho, com 59,5% prevendo manutenção, mas 34,3% projetando redução para a faixa entre 3,25% e 3,5%.

Para Luan Aral, especialista em câmbio e analista CNPI-P da Genial Investimentos, o cenário tende a manter os rendimentos dos títulos americanos elevados, atraindo capital para os EUA. “Para países emergentes, como o Brasil, isso pode significar pressão cambial, com dólar mais alto e juros domésticos também mais elevados.”

Bolsas pelo mundo caem, mas ações de energia resistem

A guerra no Irã também tem impactado o mercado acionário. No Brasil, o Ibovespa, índice de referência do mercado acionário nacional, registra alta acumulada de 11% no ano. O avanço, contudo, era maior -de 16%- até os ataques ao Irã. Após a escalada do conflito, a Bolsa passou a registrar queda de cerca de 5%.

O mesmo movimento é observado em outros índices acionários. As Bolsas norte-americanas Nasdaq e S&P 500 registram quedas de 2,99% e 1,53%, respectivamente, desde o início do conflito. O índice Euro Stoxx 600, referência no continente europeu, recua 5,58%. Na Ásia, a Bolsa de Seul chegou a cair 12%, em seu pior dia da história.

“Existe um ‘comportamento padrão de guerra’. Tradicionalmente, quando há conflitos -especialmente no Oriente Médio-, as Bolsas caem e o dólar tende a se valorizar com a busca por ativos mais seguros”, diz William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue.

As exceções são ativos relacionados a energia e defesa. “Setores considerados mais defensivos, como saúde, consumo não discricionário e infraestrutura, acabam se beneficiando quando os investidores querem manter exposição a ações, mas com um posicionamento mais conservador”, diz Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad.

No caso do mercado de energia, ações vinculadas ao petróleo têm registrado alta, como a Petrobras. A ação preferencial da estatal, que dá prioridade no recebimento de dividendos, acumula avanço de 12,6% impulsionada pela alta da commodity.

O setor, contudo, apresenta risco de volatilidade. “Assim como o petróleo teve altas expressivas recentemente, um eventual arrefecimento do conflito ou declarações relevantes de autoridades podem reverter essa tendência”, afirma Luan Aral.

Segundo ele, o momento exige cautela. “Antes de aumentar a exposição ao setor de energia, o investidor deve priorizar a proteção do capital. Esse deve ser o principal objetivo em momentos de tensão.”

Reportagem distribuída pela Folhapress

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