Ibovespa acumula 11 quedas seguidas; entenda o que afasta investidores
O Ibovespa encerrou o pregão dessa terça-feira (18) em queda de 0,27%, aos 166.334 pontos, e completou a 11ª sessão consecutiva de baixa. O movimento prolonga uma sequência de perdas e expõe a combinação de fatores domésticos e externos que vem afastando investidores do mercado acionário.
A saída de capital estrangeiro aparece como um dos principais fatores por trás da pressão, conforme especialistas ouvidos pelo Diário do Comércio. Segundo dados da Elos Ayta Consultoria, os investidores estrangeiros retiraram R$ 15,63 bilhões da B3 somente em agosto, até o dia 13. É a maior fuga mensal registrada pela consultoria desde janeiro de 2022 e supera, inclusive, os R$ 13,28 bilhões retirados em maio deste ano.
Para o sócio da Veedha Investimentos, Rodrigo Moliterno, a fuga dos estrangeiros é o principal fator que ajuda a explicar a sequência negativa. “O movimento ganhou força, principalmente, após o JPMorgan reduzir, em 11 de agosto, a recomendação para as ações brasileiras de uma exposição acima da média para neutra”, afirmou.
Segundo Moliterno, o banco teria citado a volatilidade eleitoral e a incerteza fiscal como principais motivos para a nova recomendação. A reação do mercado ao relatório do JPMorgan foi imediata. No próprio dia 11, os estrangeiros retiraram R$ 4,7 bilhões da Bolsa brasileira, o maior volume de saída em um único pregão desde abril de 2021. Naquele dia, o Ibovespa caiu 2,5%.
O problema, segundo os especialistas, é que a saída de investidores estrangeiros não está sendo compensada por uma entrada suficiente de recursos domésticos. O investidor brasileiro encontra na renda fixa uma alternativa considerada mais atraente em um ambiente de juros ainda elevados, enquanto a bolsa enfrenta dúvidas sobre a trajetória fiscal e política do País.
Para o economista sênior da Nomad, Vitor Kayo, houve uma tentativa de recuperação do Ibovespa nesta semana, impulsionada pelo retorno pontual de investidores estrangeiros. Na terça-feira, o índice chegou a superar os 168 mil pontos durante o pregão, mas não conseguiu sustentar os ganhos.
Segundo ele, a falta de confiança do investidor local também pesa. Enquanto permanecer a incerteza sobre o resultado da eleição presidencial e sobre o ajuste fiscal que será adotado pelo próximo governo, a renda fixa continuará aparecendo como uma alternativa mais confortável para parte dos investidores brasileiros.
O cenário também é influenciado pelo ambiente internacional. Nesta semana, o movimento dos rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos e a piora do humor externo diante da falta de acordo entre Estados Unidos e Irã contribuíram para reduzir o apetite por ativos de risco. As bolsas americanas também fecharam em baixa.
O sócio da Valor Investimentos, Daniel Teles, acrescenta outro movimento global à equação: a concentração de recursos em grandes empresas de tecnologia, especialmente aquelas ligadas à inteligência artificial e à infraestrutura necessária para esse ecossistema.
Na avaliação dele, parte do dinheiro que poderia estar alocado em mercados como o brasileiro está sendo direcionada para as chamadas big techs, que vêm atraindo volumes expressivos de capital. “Voltou toda uma onda de destinação de recursos para as big techs e todo o ecossistema que acaba tirando recursos do Brasil”, diz.
Além da saída de capital estrangeiro, os especialistas apontam um aumento da percepção de risco associado ao Brasil, que também prejudica o mercado. A proximidade das eleições coloca no radar dos investidores as perspectivas para a política econômica a partir de 2027.
A preocupação se concentra especialmente na capacidade do próximo governo de promover um ajuste fiscal e controlar a trajetória das contas públicas. Nesse caso, Moliterno avalia que uma sinalização mais clara dos candidatos sobre como pretendem conduzir as contas públicas poderia ajudar a reduzir a pressão sobre a bolsa.
“O que a gente pode esperar é talvez, se começar a ter alguma sinalização por parte dos candidatos de como vão tratar essa questão fiscal, acalmar um pouco o estrangeiro e manter o capital por aqui”, afirma.
Há espaço para recuperação?
Apesar da sequência de 11 quedas, os especialistas não descartam uma reação da bolsa. Para Moliterno, a própria desvalorização já começa a criar oportunidades para investidores com horizonte de longo prazo.
Segundo ele, algumas empresas de qualidade, com posições relevantes em seus setores, bons resultados esperados e níveis controlados de endividamento, passaram a ser negociadas com descontos que começam a chamar a atenção de gestores.
Isso, porém, não significa necessariamente uma reversão imediata da tendência. O mercado ainda depende de um gatilho capaz de mudar a percepção de risco.
Já para Kayo, a recuperação depende tanto da melhora do ambiente externo quanto da retomada da confiança dos investidores domésticos.
Teles também considera o cenário eleitoral um possível catalisador de curto prazo, na medida em que pesquisas e expectativas sobre a disputa possam alterar a percepção dos investidores a respeito da condução da política fiscal. “Haja vista as pesquisas, determinados candidatos animariam, de certa forma, o cenário”, avalia.
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