Finanças

Empresas mineiras mantêm IPOs no radar, mas adotam cautela para 2026

Cenário macroeconômico e internacional influenciam retorno de ofertas públicas iniciais, com companhias de Minas Gerais avaliando o momento ideal para a abertura de capital
Atualizado em 24 de março de 2026 • 12:48
Empresas mineiras mantêm IPOs no radar, mas adotam cautela para 2026
Foto: Divulgação/ B3

O mercado está otimista para uma retomada das ofertas públicas iniciais (IPOs, na sigla em inglês) de ações no Brasil neste ano e principalmente 2027. Entre as companhias cotadas para encerrar a “seca” da abertura de capitais, que já perdura desde 2021, há algumas com sede em Minas Gerais, como Patrimar, Emccamp, INC Empreendimentos e Blip.

O início de um ciclo de queda da taxa básica de juros, a Selic, por parte do Banco Central do Brasil (BCB), é um dos principais fatores que sustentam essa projeção. Na última quarta-feira (18), o BC reduziu a taxa de 15% para 14,75% ao ano. Além disso, há o novo regime regulatório da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que busca simplificar o processo de registro, oferta pública e divulgação de informações para empresas menores que desejam entrar neste mercado.

O diretor do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças de Minas Gerais (Ibef-MG), Rafael Cordeiro, relata que, recentemente, o Índice Bovespa apresentou uma melhoria motivada, principalmente, pela entrada de recursos estrangeiros no mercado nacional. Ele destaca que isso tem recuperado o ânimo do mercado, mas esclarece que o fato não representa, necessariamente e em um primeiro momento, um avanço expressivo no cenário atual.

Essa valorização do índice, segundo o especialista, tende a despertar a atenção de alguns players no mercado, porém, não a ponto de destravar uma nova onda de IPOs neste momento. Cordeiro destaca que algumas empresas têm realizado operações em busca de maior liquidez, com algumas com possibilidade de abrir capital no futuro.

“O mercado ainda não destravou para novos IPOs, principalmente de empresas menores, mas nós já começamos a ter alguns sinais da possibilidade de voltar algo que estava completamente travado”, diz.

Já o diretor de intermediação e coordenação de ofertas da Araújo Fontes, Rafael Conrado, explica que o que falta para a reabertura da janela de IPOs no País é um ambiente macroeconômico mais estável. Ele destaca que várias empresas já vêm se preparando para esse movimento. “Alguns setores podem assumir protagonismo nesse processo, especialmente infraestrutura, que tem forte demanda por capital para financiar projetos de longo prazo”, pontua.

A própria vice-presidente de operações da B3, Viviane Basso, chegou a afirmar, durante a realização do evento B3 Day 2025, que existem mil empresas no Brasil com potencial para listagem na Bolsa, sendo que 54 companhias já possuem registro e estão apenas aguardando o momento mais adequado para realizar um IPO.

Conrado relata que o cenário ainda é de cautela e que o conflito no Oriente Médio aumenta a volatilidade dos mercados globais. Segundo ele, isso tende a adiar decisões de investimento e dificultar o ambiente para novas emissões. “Em momentos de maior incerteza global, o mercado naturalmente fica mais seletivo”, completa.

Candidatas mineiras para próxima onda de abertura de capital

Bolsa de valores brasileira B3.
Foto: Divulgação/ B3

O diretor de finanças e relação com investidores (RI) do Grupo Patrimar, Felipe Gonçalves, destaca que a companhia está pronta para uma operação no mercado de capitais. Ele lembra que a Patrimar já realizou diversas transações, como a recente venda de participação minoritária na holding Alicerce PM Empreendimentos Imobiliários para o fundo de investimentos imobiliários (FII) Alicerce Desenvolvimento Imobiliário, gerido pela Manatí Capital Management.

Quanto à realização de um IPO, Gonçalves afirma que o mesmo não deverá ocorrer neste ano, devido à volatilidade no cenário nacional, principalmente no segundo semestre, e internacional, com o conflito no Oriente Médio.

O diretor relata que, neste momento, o planejamento está voltado para governança, aumento de rentabilidade e consolidação robusta de estrutura de capital. “Se, no futuro, o panorama favorecer um IPO, estaremos prontos, mas para isso certamente será necessária uma queda nos juros”, afirma.

Já a INC Empreendimentos fez sua estreia na Bolsa brasileira em 2018, por meio do programa Bovespa Mais, que possibilita a listagem sem oferta de ações por até sete anos, com possibilidade de prorrogação deste prazo. A empresa de empreendimentos imobiliários tem utilizado esse mecanismo para aguardar uma oportunidade mais favorável no cenário econômico.

Há, ainda, exemplos de companhias que estão abrindo capital em Bolsas de outros países, como é o caso da indústria mineira Prática Produtos. A fabricante de equipamentos para o setor de food service e panificação planeja abrir capital na Bolsa y Mercados Españoles (BME) ainda neste ano.

Em entrevista ao Diário do Comércio em novembro do ano passado, o fundador e presidente da empresa, André Rezende, ressaltou o interesse em abrir capital na Bolsa de Valores brasileira. No entanto, ele explicou que o cenário de juros elevados é desfavorável para esse tipo de operação para companhias semelhantes à Prática. Rezende ainda destacou que o mercado de capitais brasileiro está mais voltado para empresas de grande porte.

“Ao contrário da Europa, que oferece caminhos para empresas em crescimento terem acesso ao mercado de capitais, que é exatamente o que nós estamos buscando”, completa o presidente da Prática, empresa que está listada na B3, porém, sem ações negociadas em Bolsa, já que 100% dos papéis estão sob o controle da Brava Participações

Há ainda empresas que reconheceram o movimento preparatório para uma oferta pública inicial no futuro, mas não em um cenário de curto prazo, como a incorporadora Emccamp Residencial, que já passou pelo processo de estruturação, mas aguarda um momento propício.

Já a Blip, principal plataforma de inteligência conversacional do país, desde 2024 sinaliza o foco em expansões internacionais e um futuro IPO. Ambas as empresas foram procuradas pela reportagem do Diário do Comércio, mas optaram por não comentar o assunto neste momento.

Minas é o segundo Estado em número de investidores

De acordo com dados da B3, o valor de custódia na Bolsa brasileira saltou cerca de 20% nos dois últimos anos, passando de R$ 528 bilhões, no fim de 2024, para R$ 635 bilhões em 2025. Ela também teve 205,9 mil novos investidores em produtos de renda variável, somando 5,4 milhões no último ano, o que representa um aumento de 3,92% frente ao período anterior (5,2 milhões).

Em Minas Gerais, segundo o levantamento, o crescimento foi de 4,45% no número de investidores no exercício anterior, passando de 530,1 mil em 2024 para 553,7 mil pessoas investidoras no ano passado. Dessa forma, o Estado se consolida como o segundo no ranking nacional, atrás apenas de São Paulo, com 1,9 milhão de investidores. O volume registrado em Minas equivale a 10,15% do total de investidores no Brasil.

Juros elevados podem prejudicar cenário otimista do mercado

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Foto: Reprodução/ Freepik

A retomada dos IPOs, segundo Conrado, depende principalmente de maior previsibilidade macroeconômica. Ele cita alguns fatores que podem contribuir para esse cenário, como avanços na agenda fiscal, mais clareza sobre os impactos da reforma tributária e uma trajetória mais definida para a taxa de juros. “Historicamente, janelas de IPO tendem a se abrir quando o mercado começa a enxergar um ciclo de juros mais estável ou em queda”, diz.

Enquanto o Comitê de Política Monetária (Copom), do BC, decidiu reduzir a taxa básica de juros em 0,25, o boletim Focus da última segunda-feira (16) projetou uma taxa de 12,25% ao ano no encerramento de 2026. Para Cordeiro, mesmo que isso se confirme, ainda assim será algo elevado demais para viabilizar a retomada das aberturas de capital.

Como 2026 é ano eleitoral, o especialista avalia que os próximos dois anos poderão representar uma janela de oportunidades, já que os políticos eleitos tendem a querer mostrar um pouco mais de serviço no período pós-eleição para deixarem suas marcas. “É uma oportunidade para nós termos algumas reformas que são fundamentais, como uma reforma administrativa, caso contrário, vamos continuar no famoso ‘voo de galinha’”, defende.

Cordeiro se diz otimista quanto ao cenário no curto prazo. Ele reforça a necessidade dos governantes observarem toda a questão estrutural para proporcionar um aumento no ânimo do mercado e uma redução dos juros. Tudo isso, segundo o dirigente, resultará em maiores investimentos e em um mercado de capitais mais acessível para empresas que ainda estão se preparando para entrar no segmento, em busca de uma nova forma de financiamento.

Além de diretor da entidade que representa os executivos de finanças no Estado, Cordeiro também ocupa o cargo de CFO da rede de hospitais Mater Dei, que foi a última companhia com sede em Minas a realizar um IPO, no dia 14 de abril de 2021. Já a última da Bolsa brasileira foi a empresa de fertilizantes e defensivos agrícolas Vitta, no dia 31 de agosto do mesmo ano.

Desde então, o sistema da B3 registrou inúmeras Ofertas Públicas de Aquisição de Ações (OPAs) com a finalidade de cancelamento de registro de companhia aberta. Entre as operações mais recentes está a do Mercantil Financeira, subsidiária do Banco Mercantil.

Ao Diário do Comércio em janeiro deste ano, o diretor de controladoria do Banco Mercantil, Gregório Franco, explicou que o fechamento de capital da financeira garante uma estrutura societária mais simples e eficiente, favorecendo o negócio da companhia. “A empresa segue operando normalmente, mas agora com controle total do Grupo Mercantil”, esclareceu, à época.

Cenário ideal para IPO e entrada de empresas menores no mercado de capitais

Bolsa de valores brasileira B3.
Foto: Divulgação/ B3

O diretor de finanças e RI do Grupo Patrimar acredita que o cenário ideal para uma abertura de capital envolve uma combinação de fatores, como o interesse por novas teses e avaliações atrativas das empresas listadas para recompensar o investimento em algo promissor. “Atrelado a isso, os investidores precisam contar com fluxo de capital novo disponível para alocação em companhias emergentes”, completa.

Gonçalves avalia que esse ambiente é mais favorável em ciclos de queda de juros. Segundo ele, essa redução aumenta a atratividade dos investimentos na economia real e amplia a disposição dos investidores para assumir outros projetos. Outro aspecto mencionado pelo especialista é a estabilidade econômica, que diminui a insegurança do investimento. “Do lado da empresa, é importante apresentar uso eficiente dos recursos, com boa tese de negócios e excelente governança”, acrescenta.

Já o novo regime de Facilitação do Acesso ao Mercado de Capitais e de Incentivos à Listagens (Fácil), elaborado pela CVM, já está em vigor desde segunda-feira passada. Ele tem como objetivo estimular a entrada de companhias de menor porte (CMPs) com faturamento de até R$ 500 milhões por meio de diversas dispensas regulatórias.

Conrado acredita que este tipo de iniciativa ajudará a preencher a lacuna entre o crowdfunding, ou financiamento coletivo, e o mercado tradicional, preponderantemente composto por grandes empresas. “Se ganhar tração, pode ampliar, de forma relevante, o número de empresas utilizando o mercado de capitais como fonte de financiamento no Brasil”, pontua.

Já Cordeiro avalia que toda iniciativa que amplie o acesso ao mercado de capitais tende a ser benéfica, pois fomenta a economia com mais uma forma de obtenção de recursos para as empresas. Porém, ele também aponta para a necessidade de compreender a governança e os custos que essas companhias terão para abrir capital.

A compreensão sobre custos e vantagens de operar nesse modelo é, na visão do diretor do Ibef-MG, um dos principais pontos a serem explorados e desenvolvidos. “Caso contrário, será mais uma iniciativa legal, mas que não teria tanto apelo por parte das empresas, por medo do desconhecimento”, completa.

Ele ainda explica que é necessário ter uma preparação para as empresas conviverem com toda exposição típica do mercado de capitais. Para ele, a criação de uma área de RI é uma das etapas desse processo de adaptação. O especialista ressalta que também é necessário divulgar informações, possuir um conselho estruturado, governança, comitês e uma mentalidade de companhia aberta.

O diretor do Ibef-MG reforça a importância de as empresas estarem bem preparadas para não depender apenas de um bom mercado. “Ser uma empresa pronta para encarar os desafios de ser uma companhia de capital aberto”, conclui.

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