Minas lidera demanda por análise de crédito estruturado em levantamento nacional
Minas Gerais concentrou 39,4% das empresas que passaram por análise de crédito de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) nos nove primeiros meses de 2026, a maior participação entre os estados brasileiros. De acordo com levantamento realizado pela empresa de data & analytics Assertiva, o Estado reúne 1.395 das 3.543 companhias analisadas no período.
Na sequência aparecem São Paulo, com 893 empresas analisadas e participação de 25,2%, e Santa Catarina, com 396 companhias e 11,2%. Minas possui 502 empresas a mais na amostra do que São Paulo e participação 14,2 pontos percentuais (p.p.) superior à do estado paulista.
Juntos, Minas Gerais, São Paulo e Santa Catarina respondem por 75,8% das companhias analisadas no Radar Assertiva de Demanda por Crédito Estruturado, indicando uma concentração geográfica entre as empresas que chegaram à etapa de análise pelos fundos da amostra.
O CEO da Assertiva, Hederson Albertini, explica que, considerando apenas o tamanho das economias estaduais, seria natural imaginar uma predominância de São Paulo. No entanto, os dados da amostra mostram um cenário diferente. “Minas Gerais aparece com uma concentração bastante superior entre as empresas analisadas pelos fundos observados. Esse tipo de informação ajuda a enxergar onde a atividade de análise de crédito estruturado está acontecendo com maior intensidade”, afirma.
- Leia também: FIDCs podem alcançar R$ 1 trilhão em 2026
Já o CEO da Vitório, fintech especializada em supply chain finance e crédito estruturado para a indústria, Rafael Nakamoto, avalia que o resultado de Minas Gerais chama atenção pela relação entre o perfil econômico do Estado e as características das empresas que tradicionalmente demandam soluções de financiamento mais sofisticadas.
“Minas Gerais reúne cadeias industriais muito intensivas em capital, nas quais existe um intervalo importante entre produzir, vender e efetivamente receber”, diz.
O especialista ressalta que, nesse intervalo, as empresas precisam financiar matéria-prima, estoques, fornecedores e a própria rede de distribuição. “É justamente nesse descasamento que o crédito estruturado ganha relevância, porque permite construir soluções mais aderentes ao ciclo financeiro da indústria”, acrescenta.
Identificação das empresas
O levantamento analisou 4.045 consultas realizadas por 36 FIDCs entre janeiro e setembro deste ano, envolvendo 3.543 empresas distintas. O objetivo é identificar a localização e o perfil das companhias que chegam à etapa de análise dos fundos, considerando informações como setor de atividade, porte, maturidade e indicadores de restrição.
Na sequência aparecem Rio Grande do Sul, com 172 empresas e 4,9% de participação; Paraná, com 150 e 4,2%; e Rio de Janeiro, com 101 e 2,9%. Para Albertini, o resultado deve ser interpretado como um retrato da atividade dos fundos que integram a amostra, e não como um ranking nacional de concessão de crédito.
O executivo ressalta que o radar não mede quanto dinheiro foi efetivamente emprestado em cada estado, mas identifica onde estão as empresas analisadas pelos FIDCs que integram a amostra da Assertiva. “Estamos olhando para uma etapa anterior à concessão do crédito, o que permite identificar sinais sobre a distribuição geográfica dessa atividade sem confundir consulta com operação efetivamente realizada”, explica.
Comércio e indústria se destacam no crédito estruturado

O cruzamento entre localização e atividade econômica mostra que a concentração não ocorre apenas por estado, mas também por setor. Em Minas Gerais, o comércio reúne 501 empresas analisadas, o maior agrupamento identificado na pesquisa, enquanto a indústria soma 389 companhias, o terceiro maior recorte estadual por atividade.
O setor de serviços reúne outras 299 empresas analisadas em Minas, formando o quarto maior agrupamento estadual por atividade da amostra. Também se destacam a indústria em São Paulo, com 431 empresas; a indústria em Santa Catarina, com 277; e o comércio em São Paulo, com 272.
O recorte indica uma relação entre a distribuição geográfica das empresas analisadas e o perfil econômico das regiões. No conjunto da pesquisa, pouco mais da metade (51,1%) das companhias pertence ao grupo de indústria, construção e logística. Outros 36% estão nos segmentos de comércio, serviços financeiros e imobiliários. Juntos, os dois grupos representam 87,1% das empresas observadas.
Albertini afirma que o cruzamento entre localização e atividade econômica permite observar concentrações ligadas a setores específicos. “Isso permite começar a entender como a análise de crédito estruturado se distribui pelas diferentes cadeias produtivas do País”, completa.
Nakamoto destaca que, no setor industrial, parte da necessidade de capital surge da própria relação entre fabricantes, fornecedores e distribuidores. Na prática, as empresas podem conceder prazos aos clientes e acumular recebíveis enquanto precisam financiar a continuidade da produção.
Segundo ele, em muitas cadeias business-to-business (B2B), a própria indústria acaba financiando seus distribuidores ao vender a prazo. O especialista explica que o problema surge quando a empresa assume riscos e compromete o capital de giro sem necessariamente contar com uma estrutura financeira desenhada para isso.
“O crédito estruturado permite reorganizar essa dinâmica, trazendo capital de mercado e instrumentos como os FIDCs para financiar a cadeia sem deixar todo esse peso no balanço da indústria”, diz.
Ouça a rádio de Minas