Finanças

Sete em cada dez mulheres brasileiras ainda não investem, aponta estudo da Anbima

Especialistas apontam educação financeira, aversão ao risco e busca por liquidez como fatores que limitam o avanço feminino nos investimentos
Sete em cada dez mulheres brasileiras ainda não investem, aponta estudo da Anbima
Foto: Amanda Perobelli / Reuters

Fazer investimentos financeiros ainda não é a realidade de sete a cada dez mulheres brasileiras. De acordo com dados da 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, divulgado pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), em parceria com o Datafolha, apenas 31% delas são investidoras no País. O estudo mostra que ainda há espaço para o público feminino avançar quando o assunto é finanças, haja vista que entre os homens esse percentual sobe para 41%.

Segundo a consultora financeira e especialista em investimentos, Adriana Gontijo, para além dos números, a pesquisa reflete uma questão comportamental. “O homem tem menos aversão ao risco, ao contrário da mulher, imersa em um senso de sobrevivência. Como somos maioria na liderança dos lares brasileiros, para nós o que conta é a segurança de ter o dinheiro no momento que, talvez, ele falte. Por isso a poupança acaba sendo uma solução, principalmente se o resgate for rápido”, destaca.

Entretanto, a opção pela caderneta de poupança, conforme aponta a especialista, tem seus entraves. De acordo com Adriana, esse tipo de reserva rende abaixo da inflação. “Colocar o dinheiro na poupança nem pode ser considerado um investimento, muito pelo contrário: é perda de dinheiro. Quando você pensa que o investimento é a soma de um montante do capital acompanhado dos juros, a poupança já não tem os juros, então a investidora vai perder”, esclarece.

Educação financeira é um dos maiores gargalos

Adriana Gontijo também afirma que a educação financeira é um dos principais fatores que afasta as mulheres do universo dos investimentos. “Ainda existe na sociedade um estigma de que a familiaridade com a matemática é inerente aos homens. Com isso, muitas mulheres passam a ter medo de lidar com o dinheiro”.

A especialista em finanças reforça que apesar de parecer impossível nos dias de hoje, ainda existem casos de mulheres privadas de lidar com o próprio dinheiro. “Há situações em que alguns patrões de mulheres de classes sociais mais baixas acertam o salário da funcionária com o marido e não com a trabalhadora. Isso impede que ela se arrisque e tenha autonomia financeira”.

Mulher em pé
Adriana Gontijo, consultora financeira | Foto: Arquivo pessoal

Para promover a educação financeira, Adriana acredita ser fundamental a disseminação da cultura do aprendizado para as mulheres. “Hoje existem vários profissionais sérios, inclusive nas redes sociais, capazes de conduzir as mulheres para um caminho de entendimento acerca de suas finanças”, destaca.

Urgência pelo presente

A pesquisa da Anbima aponta ainda que 40% das investidoras priorizam liquidez e ganhos imediatos, mesmo com menor retorno. Essa “urgência pelo presente”, segundo o economista e professor dos cursos de Gestão e Negócios do Centro Universitário UniBH, Fernando Sette Junior, tende a proteger o curto prazo, mas pode limitar a acumulação de patrimônio.

“Essa postura reduz a exposição a instrumentos que remuneram melhor com o tempo, os juros compostos e o risco calculado. Na prática, isso pode significar carteiras excessivamente concentradas em produtos conservadores, com menor capacidade de superar inflação, gerar renda futura ou financiar objetivos mais ambiciosos.”

Ao mesmo tempo, Sette reforça que esse comportamento não deve ser lido como erro irracional. Ele reflete, sobretudo, a necessidade concreta de manter o dinheiro disponível para emergências, instabilidade de renda ou responsabilidades familiares.

O problema, conforme aponta o economista, aparece quando a carteira inteira fica presa à lógica da urgência. “O ideal não é eliminar a liquidez, mas organizar o dinheiro por camadas: uma parte para segurança imediata, outra para metas de médio prazo e uma terceira para crescimento patrimonial. Sem essa separação, a investidora pode até manter o patrimônio protegido, mas terá mais dificuldade de fazê-lo crescer de forma relevante ao longo dos anos”.

Sobre o Raio X do Investidor Brasileiro

A 9° edição do Raio X do Investidor Brasileiro retrata a população com 16 anos ou mais, o que equivale a mais de 168 milhões de pessoas, sendo 48% homens e 51% mulheres economicamente ativas, com uma média de idade de 44 anos. O estudo ouviu 5.832 pessoas em todas as regiões do País entre os dias 4 e 21 de novembro de 2025.

No recorte de gênero, a pesquisa destaca que 61% do público feminino já possui algum tipo de renda, com uma média de idade de 44 anos. Entre as mulheres que já investem, a maior concentração está na classe C, que responde por 50%, enquanto as classes D/E somam 15% e as A/B representam 34%.

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