Mesmo menos rentável, poupança cresce em depósitos, mas segue com saldo negativo
Apesar de render menos do que alternativas como Tesouro Direto, Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) e fundos de investimento, a caderneta de poupança vem registrando crescimento nos depósitos nos últimos cinco anos, segundo dados do Banco Central (BC). No entanto, as retiradas continuam superando as aplicações no período, mantendo o saldo líquido negativo.
Em 2021, os depósitos na poupança somaram R$ 3,40 trilhões e, em 2025, avançaram para R$ 4,2 trilhões, alta de 23,5%. No entanto, ao longo do período, os saques cresceram em ritmo ainda maior e superaram as entradas. Em 2021, as retiradas alcançaram R$ 3,44 trilhões, gerando saldo negativo de R$ 35,4 bilhões. Já em 2025, o movimento se repetiu: as saídas somaram R$ 4,3 trilhões, resultando em déficit de R$ 85 bilhões. O comportamento, segundo especialistas, reflete mudanças no perfil do investidor brasileiro.
De acordo com o coordenador do curso de pós-graduação em economia do Ibmec, Hélio Berni, o aumento expressivo de depósitos está ligado entre outros motivos a questões culturais, uma vez que a poupança é segura e de fácil entendimento. “O aplicador sabe que na data do aniversário vai ter um rendimento caindo na conta dele. Também não existe a cobrança de imposto de renda, que é outra questão que também chama atenção do investidor”, comenta.
Na mesma linha, o professor da FIA Business School, Paulo Feldmann, cita a facilidade operacional da poupança. “Ela é praticamente como se fosse uma conta corrente, então é muito fácil retirar e depositar. É tudo muito fácil de operar”, observa.
Além disso, segundo Feldmann, a poupança já teve rendimentos semelhantes aos da renda fixa, o que não acontece hoje, mas deixa um legado cultural. “Hoje, a pessoa tira porque vai ganhar mais em outro tipo de aplicação, mas o natural era deixar na poupança”, diz.
Dessa forma, a maior rentabilidade, o maior acesso à educação financeira e a digitalização do sistema financeiro, que faz essas transações mais ágeis e fáceis, estimulam a migração de recursos para produtos mais vantajosos. Hélio Berni explica que apesar do rendimento da poupança em 2025 ter sido em torno de 8,2%, maior até que a inflação, o mercado oferece produtos financeiros também com baixo risco, porém com remuneração maior.
“À medida que o tempo passa, as pessoas estão se educando mais do ponto de vista financeiro e entendendo que existem produtos com o mesmo nível de risco que pagam uma taxa de juros bem mais alta. Na plataforma do Tesouro Direto, a pessoa pode, de forma simplificada, comprar títulos com uma taxa de 15% ao ano, quase o dobro que a poupança pagou ano passado”, analisa.
Dessa forma, Berni acredita na continuidade do aumento das retiradas líquidas. “Na medida que o investidor for se educando e entendendo que a remuneração de outros títulos supera a poupança, a continuidade do aumento das retiradas líquidas vai continuar acontecendo”, diz.
O mesmo sugere o professor da FIA Business School: “nos últimos anos, praticamente de 20 anos para cá, a poupança deixou de ser atrativa e perde para todas as outras opções de investimentos porque, diferente da poupança que só paga a correção, os outros pagam a taxa Selic, mais alguma correção. Então, sem dúvida, a poupança é menos rentável e podemos dizer que isso provavelmente não vai mudar a curto e médio prazos”.
Feldmann pontua ainda que é da poupança que as pessoas conseguem recursos para pagar contas e custos pessoais. “Início do ano tem IPVA, IPTU, uma série de despesas que as pessoas retiram da poupança. Dificilmente elas tirarão de suas aplicações para pagar despesas pessoais. O normal é que elas façam retiradas de onde se ganha menos, que é a poupança”, finaliza.
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