Finanças

Renda fixa segue como protagonista em 2026, mas bolsa ganha espaço nas carteiras

Juros mais baixos e cenário político prometem volatilidade, exigindo carteiras estratégicas para combinar segurança e rentabilidade
Renda fixa segue como protagonista em 2026, mas bolsa ganha espaço nas carteiras
Dinheiro no Bolso. Foto: Marcos Santos / USP Imagens

O ano de 2026 guarda a promessa de juros mais baixos, inflação controlada e volatilidade em meio à corrida pela Presidência -fatores que podem impor cautela ao investidor brasileiro. Mas, se posicionada de forma estratégica, a carteira pode combinar segurança e rentabilidade, segundo especialistas ouvidos pela reportagem.

“Será um ano de transição, marcado pela busca de equilíbrio entre captura de oportunidades e gestão de riscos”, resume a equipe de analistas da XP no relatório “Onde Investir em 2026”.

A renda fixa continuará sendo o carro-chefe dos investimentos. Mesmo com a previsão de juros mais baixos, a modalidade pós-fixada -que acompanha a variação da Selic ou do CDI (Certificado de Depósito Interbancário), seu equivalente no mercado privado- continua tendo parte relevante nas carteiras, ainda que menor do que em 2025.

Segundo os analistas da XP, é possível aproveitar o rendimento acumulado da Selic até o vencimento dos contratos. “Essa classe continua sendo um pilar defensivo dos portfólios, principalmente os de menor volatilidade”, afirmam.

A taxa Selic, hoje em 15% ao ano, deve ter o ciclo de cortes iniciado ainda neste primeiro trimestre. Algumas corretoras apostam que a redução inicial será na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), entre 27 e 28 de janeiro; outras, no encontro de março. A expectativa é que a taxa encerre 2026 em torno de 12%, um patamar que ainda mantém o Brasil como “o país da renda fixa”, afirma Carla Beni, economista e professora da FGV.

“Mesmo que haja uma queda da Selic, a inflação também está projetada em níveis baixos, em torno de 3,8% e 4%. Isso garante a segurança e o ganho real, mesmo que um pouco menor”, diz Beni.

Para quem procura taxas elevadas no longo prazo, o conselho é aproveitar os prefixados rodando em torno de 13% ao ano. É preciso, porém, que o investidor tenha tolerância à marcação ao mercado, isto é, quando a oscilação do CDI ora ultrapassa, ora fica abaixo da taxa fixa durante o prazo contratado. Essa dinâmica pode causar desconforto em quem é mais conservador, e a dica é levar o investimento até o fim do prazo para não sofrer prejuízo com retiradas antecipadas.

Simulações de retorno na renda fixa em 2026

  • Valor investido: R$ 1.000
  • Investimento – Valor Líquido – Rentabilidade líquida real após um ano
  • CDB 1 ano 104% do CDI – R$ 1.118,23 – 7,47
  • CDB 1 ano IPCA + 9% a.a. – R$ 1.110,67 – 6,35
  • CDB 1 ano pré-fixado 14,2% a.a. – R$ 1.117,15 – 7,37
  • CDB 101,5% do CDI – R$ 1.115,39 – 6,95
  • CDB 99,0% do CDI – R$ 1.112,55 – 6,92
  • CDI – R$ 1.113,69 – 7,03
  • LCI/LCA 1 ano incentivada 91,0% CDI – R$ 1.118,65 – 7,47
  • Poupança – R$ 1.082,80 – 4,07
  • Tesouro IPCA+ 2029 7,98% – R$ 1.097,62 – 5,49
  • Tesouro IPCA+ com juros semestrais 2035 7,48% – R$ 1.101,57 – 7,37
  • Tesouro prefixado 2028 13,16% – R$ 1.108,57 – 6,54
  • Tesouro prefixado com juros semestrais 2035 13,78% – R$ 1.118,57 – 7,03
  • Tesouro Selic 2028 (Selic + 0,05%) – R$ 1.112,78 – 6,95
  • Premissas para 1 ano:
  • Selic = 13,88%
  • CDI = 13,78%
  • Inflação = 4,05%
  • TR = 2,11%
  • Poupança = 8,28%

Fonte: C6

Aplicações em títulos que acompanham a variação da inflação também seguem indicadas -a carteira do Itaú, por exemplo, está apostando mais nessa categoria do que nas demais de renda fixa. A preferência das casas de análise consultadas pela reportagem é por vencimentos intermediários, em torno de seis anos, devido à perspectiva de que a política fiscal do país seguirá pressionando a inflação.

As alocações em renda fixa também são uma espécie de movimento defensivo contra a volatilidade da corrida presidencial de 2026. Anos de eleição costumam ser marcados por turbulências nos mercados, à medida que os investidores tentam antever qual será a postura do governo eleito -se pró-mercado, com medidas de redução dos gastos do Estado, se expansionista do ponto de vista das despesas.

“Vai ter algum ruído político [causado pelas eleições presidenciais] no mercado, mas não precisamos ter pressa para se posicionar [na renda fixa]”, diz Nicholas McCarthy, diretor de estratégia de investimentos do Itaú.

As turbulências são esperadas especialmente para a renda variável. Um exemplo dessa movimentação ocorreu no dia 5 de dezembro, quando o anúncio da candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fez o dólar disparar 2% e a Bolsa desabar 4%. O entendimento dos operadores foi que, com o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro na disputa, o nome de Tarcísio de Freitas (Republicanos), favorito da Faria Lima para o pleito, estaria enfraquecido, o que favoreceria a reeleição do governo Lula (PT), visto como expansionista.

Ainda assim, a recomendação é não deixar de investir em Bolsa, que acumulou alta de mais de 30% em 2025 -muito acima do CDI e das previsões de economistas no apagar das luzes de 2024. O impulso veio da estratégia de diversificação dos investidores estrangeiros para mercados fora dos Estados Unidos. Os emergentes receberam uma boa parte desses recursos, e o Brasil surfou na tendência.

O planejador financeiro Edson Cerqueira, da Planejar, diz que empresas ligadas à economia doméstica e pagadoras de dividendos podem ser destaque, beneficiadas pela queda gradual dos juros e pelo crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) estimado em 1,8%.

Para 2026, a diversificação tende a continuar, e “os investidores estrangeiros provavelmente vão aumentar a participação na Bolsa brasileira assim que o primeiro corte da Selic acontecer”, diz McCarthy, que afirma que o Itaú aumentou a alocação na Bolsa brasileira em novembro. A exposição se dá, principalmente, via fundos de ações e de ETFs (fundos de índice, na sigla em inglês, que copiam a performance de um índice como o Ibovespa).

A projeção é que o Ibovespa continue subindo. Para a XP, o patamar justo ao fim de 2026 é 185 mil pontos. O cenário mais pessimista projeta o índice em torno de 151 mil pontos; o mais otimista, 220 mil pontos.

Já em relação ao dólar, a expectativa do mercado é que ele continue se desvalorizando globalmente, como ocorreu em 2025. “Com os investidores globais reduzindo a exposição ao dólar, é conservador ter uma carteira diversificada com outras moedas e até um pouco de ouro”, diz Gina Baccelli, estrategista sênior de investimentos do Itaú.

No Brasil, porém, a coisa muda de figura. Se o dólar continuar caindo no mundo todo, explica ela, esse também será o movimento aqui. “As eleições criam muito ruído, mas não mudam a tendência. No máximo, vão fazer o dólar ficar estável no fim do ano em relação a dezembro de 2025”, afirma. Não à toa, a maioria das casas de análise projeta a moeda em torno de R$ 5,50 no fim de 2026.

No entanto, se o dólar subir globalmente, as eleições deverão pesar na conta e fazer a valorização ser mais acentuada no Brasil, diz ela. “O cenário internacional vai ditar o rumo da economia doméstica.”

Carteira de referência para um perfil de investidor moderado

Segundo Edson Cerqueira, planejador financeiro pela Planejar

1 – Renda fixa (75% a 80%)
Ainda predominante na carteira, com foco em títulos pós-fixados, mas incluindo parcela relevante em prefixados e IPCA+, aproveitando a curva de juros mais baixa e proteção contra inflação (projeção IPCA 2026: 4,16%)
2 – Renda variável (15% a 18%)
A Bolsa tende a se beneficiar da redução da Selic e da retomada gradual do consumo. Setores ligados a infraestrutura, energia e consumo interno devem ganhar destaque
3 – Investimentos dolarizados (10% a 12%)
Exposição internacional é essencial para diversificação e proteção cambial, via ETFs globais ou fundos internacionais, considerando volatilidade do câmbio e cenário externo incerto

Conteúdo distribuído por Folhapress

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