Finanças

Inadimplência crônica atinge quatro em cada dez consumidores em Minas

Levantamento da empresa que bancos e cartões de crédito estão na liderança dos credores entre as pessoas do Estado,
Inadimplência crônica atinge quatro em cada dez consumidores em Minas
Foto: Reprodução Adobe Stock

Quatro em cada dez pessoas de Minas Gerais que estão inadimplentes hoje já tinham o nome negativado há uma década. Esse é o dado mais chamativo de um levantamento inédito sobre os dez anos do Mapa da Inadimplência da Serasa, divulgado desde 2016. O índice de reincidência aparece em um cenário de avanço consistente da inadimplência no país. Ao longo da última década, o número de brasileiros com contas em atraso cresceu 38,1%.

No retrato mais recente, referente a fevereiro de 2026, o país alcança 81,7 milhões de pessoas em situação de inadimplência. Ao todo, são mais de 332 milhões de dívidas — volume 43% superior ao registrado em 2016. Como consequência, a dívida média por consumidor avançou 12,2%, passando de R$ 5.880,02 para R$ 6.598,13, considerando valores corrigidos pela inflação.

No Estado, são mais de sete milhões de pessoas (46% da população mineira) com as contas em atraso — e que já frequentam, entre idas e vindas, a lista de devedores ao longo dos anos. São 29 milhões de contratos abertos, totalizando R$ 51 bilhões. Para o consultor de finanças e educador financeiro Rafael Recidive, a inadimplência da população é multifatorial e precisa ser analisada sob vários ângulos.

Os homens são os maiores devedores, com 51,1% do total, enquanto as mulheres respondem por 48,9% dos débitos. Entre as faixas etárias, as pessoas de 41 a 60 anos representam a maior fatia, com 35% dos inadimplentes.

“Quando a gente pensa em dinheiro, a parte mais fácil dessa história é a matemática, que são os números. As pessoas são complexas. Então, temos a questão do comportamento, a questão das crenças, a questão da falta de educação financeira. A gente nasce, cresce e, muitas vezes, não recebe essa formação ao longo da infância e da adolescência. Quando começa a vida adulta, o que a pessoa recebe? Um cartão de crédito. Esse é um fator preponderante. Daí vem outro fator: o imediatismo de consumo”, comenta.

“As pessoas correm para resolver a situação da dívida, mas não buscam entender como evitar voltar para ela”, completa.

Bancos na liderança

Os bancos e os serviços de cartão de crédito são os maiores credores dos mineiros, representando 25,90% dos débitos. Em seguida, os serviços essenciais — como água e luz — respondem por 21,56% dos atrasos no Estado. Financeiras aparecem com 18,97%, serviços com 11,37%, telecom com 7,89%, varejo com 6,33%, cooperativas com 2,88% e securitizadoras com 2,34%.

“A última década foi marcada por juros elevados e pressão inflacionária, que impactaram diretamente o orçamento das famílias. Ao mesmo tempo, houve ampliação do acesso ao crédito, muitas vezes sem o devido planejamento, levando parte dos consumidores a utilizá-lo como complemento de renda, e não como um recurso pontual”, explica Aline Vieira, especialista da Serasa em educação financeira.

Saindo do “buraco”

“Negociar as dívidas é um passo fundamental, mas o acesso a condições facilitadas precisa vir acompanhado de informação e organização, para que o consumidor consiga manter o equilíbrio de forma sustentável”, afirma. “Ao combinar oportunidades com ações contínuas de educação financeira, como oferecemos em nossos mutirões, ajudamos a transformar hábitos e evitar o retorno à inadimplência”, completa Aline Vieira, do Serasa.

Para o consultor de finanças e educador financeiro Rafael Recidive, apenas uma mudança de hábito pode evitar novos casos de inadimplência contumaz — mas ele também acredita que uma política de juros menos abusiva poderia amenizar os impactos no orçamento das famílias.

“A educação financeira no longo prazo é fundamental, porque é ela que resolve os problemas de forma mais estrutural. As políticas econômica e monetária também são essenciais. Se pensarmos em uma pessoa de baixa renda, ela não terá condições de poupar, porque está lidando com a própria sobrevivência. Aí, entra a política econômica — o que o governo faz ou deixa de fazer —, que impacta diretamente a vida das pessoas”, finaliza.

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