Recuperação judicial atinge novo recorde no Brasil em 2025, com mais de 2 mil empresas
A recuperação judicial avança no Brasil e atinge 2.466 empresas em 2025, o que representa um aumento de 13% na comparação com o ano anterior (2.184). De acordo com dados do Indicador de Falências e Recuperações Judiciais, da datatech Serasa Experian, esse é o maior nível desde 2012, quando teve início a série histórica.
Também em 2025, o número de processos de reestruturação empresarial chegou a 977, uma alta de 5,5% frente a 2024 (926). Conforme a empresa, esse é o maior volume anual desde 2016, quando o índice atingiu o total de 1.011 processos, o que indica que a busca por reorganização judicial permaneceu intensa no País.
A economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, destaca que um processo como este pode envolver diversas empresas, que podem ser inseridas após a data protocolada, passar por mudanças de fase ao longo do tempo e até tramitar em segredo de justiça.
Quanto ao contingente de empresas sob recuperação judicial, ela explica que o acumulado do ano ajuda a observar a tendência dos pedidos ao longo do período. A especialista relata que, no último exercício, a recuperação judicial seguiu como instrumento de ajuste de balanço em um ambiente de crédito mais seletivo.
“Apesar das oscilações mensais, o nível anual avançou e ficou acima do padrão histórico, compatível com renegociação de passivos diante de custo financeiro ainda elevado e de uma demanda desigual entre setores”, avalia.
Análise mensal e por setores da economia

Na análise mensal, os dados observados no último ano permaneceram consistentemente acima da tendência histórica, assim como no período anterior, com uma média de 53 processos e 106 empresas envolvidas nesse tipo de ação por mês. Esse desempenho indica que a ativação do instrumento se manteve elevada ao longo dos últimos dois anos.
Para a economista, esse descolamento em relação à tendência estrutural sugere que a pressão sobre o caixa das empresas – principalmente nos segmentos mais sensíveis ao crédito – continuou significativa, levando mais negócios ao mecanismo de reestruturação judicial.
Já na análise por setor, a agropecuária reuniu 743 empresas que buscaram pela recuperação judicial, o que representa 30,1% do total no Brasil. Em seguida, aparece o setor de serviços, com 739 empresas e respondendo por 30% do montante total. Os demais destaques foram o comércio e a indústria, com 535 e 449 empresas, respectivamente.
De acordo com o estudo, a distribuição dos pedidos reflete desafios distintos enfrentados pelos setores da economia, influenciados por fatores como custo de crédito, dinâmica de demanda e estrutura de endividamento das empresas.
Na comparação com o ano anterior, a agropecuária teve um ganho de 3,8 pontos percentuais (p.p.) na participação e o serviço apresentou leve avanço de 0,6 p.p.. Por outro lado, o comércio perdeu 2,4 p.p. e a indústria reduziu sua participação em 2 p.p. durante o período.
Camila Abdelmalack pontua que a agropecuária opera sob um conjunto de riscos climáticos e biológicos, como estiagens, excesso de chuva, geadas, pragas e doenças. Além disso, o setor sofre os choques de preços de commodities, insumos dolarizados, exposição cambial e um ciclo financeiro mais longo de safra–entressafra, que amplifica a volatilidade de receita e caixa.
“Em cenários adversos, esses fatores comprimem margens e capacidade de pagamento ao longo de toda a cadeia, do produtor à armazenagem, logística, agroindústria e tradings, elevando a necessidade de renegociação de passivos e tornando a recuperação judicial um instrumento para preservar operação e emprego”, diz.
Fortalecimento da base empresarial

O conjunto de empresas ativas, excluindo os microempreendedores individuais (MEIs), manteve uma trajetória consistente de expansão entre 2023 e 2025. A taxa anual de crescimento saltou de 6,5% para 22,5% no período analisado. Já a quantidade de empresas que requereram recuperação judicial apresentou desaceleração, passando de 36,7% para 12,9% no ano passado.
O indicador aponta que esse quadro sugere uma normalização do uso do instrumento em um ambiente ainda de crédito seletivo e inadimplência elevada, com o nível anual de recuperações permanecendo acima do padrão histórico, embora com menor pressão marginal do que em 2023 e 2024.
No entanto, a economista-chefe da Serasa Experian ressalta que o fato de o crescimento anual dos pedidos ter perdido fôlego em 2025 não garante que veremos o mesmo movimento em 2026. Segundo ela, a economia deve desacelerar, o ritmo de corte de juros pode ser menor do que o projetado, mantendo a Selic em patamar restritivo e as condições de crédito apertadas.
Além disso, a especialista destaca que os dados de inadimplência da Serasa Experian seguem exigindo atenção, com 8,7 milhões de empresas negativadas em janeiro deste ano, com dívida média de R$ 23.138,40 e cerca de sete restrições, em média, por negócio negativado. “Em geral, a inadimplência costuma anteceder os movimentos de recuperação judicial, o que nos deixa em estado de alerta para as próximas leituras”, completa.
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