Legislação

Veja em 9 pontos o que foi dito nos depoimentos sobre o Master à Polícia Federal

Os depoimentos foram colhidos pela delegada da PF Janaína Palazzo
Veja em 9 pontos o que foi dito nos depoimentos sobre o Master à Polícia Federal
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

O ministro Dias Toffoli, do STF (Supremo Tribunal Federal), levantou na quinta-feira (29) o sigilo dos depoimentos prestados à PF (Polícia Federal) pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB (Banco de Brasília), e do diretor de fiscalização do BC (Banco Central), Ailton de Aquino, no fim de dezembro de 2025. A decisão foi tomada atendendo a um pedido do Banco Central.


Os depoimentos foram colhidos pela delegada da PF Janaína Palazzo antes da acareação entre os empresários, determinada pelo próprio Toffoli no âmbito da investigação sobre as fraudes financeiras. A Polícia Federal investiga a venda de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito supostamente falsas pelo Master ao BRB.


As investigações do Ministério Público Federal, com base em denúncia feita pelo Banco Central, apontaram que o Master adquiriu carteiras de crédito da consultoria Tirreno, sem realizar qualquer pagamento, e logo em seguida os papéis foram vendidos ao BRB. O escândalo do Master levou à liquidação do banco, anunciada em 18 de novembro de 2025.


Veja em 9 pontos o que foi dito nos depoimentos.


Divergência sobre origem dos créditos


Durante a acareação, Costa e Vorcaro não concordaram sobre a origem dos créditos falsos, calculados em R$ 12,2 bilhões. O dono do Master afirmou que o banco do DF tinha conhecimento de que as carteiras eram originadas por terceiros, e não pelo Master.


“A gente chegou a conversar por algumas vezes que a gente começaria um novo formato de comercialização [de carteiras de crédito], que seria de terceiros, carteiras originadas por terceiros e não mais originação própria”, afirmou Vorcaro.


Costa, no entanto, disse que pelo seu conhecimento os créditos haviam sido originados no Master. “Meu entendimento é que eram carteiras originadas pelo Master que haviam sido vendidas ou negociadas a terceiros e que o Master estava recomprando e revendendo para a gente”, disse o ex-presidente do BRB.
De acordo com Costa, a ligação direta com a Tirreno só foi identificada entre abril e maio do ano passado, após análises técnicas apontarem que havia um padrão documental distinto nos contratos.

Costa explicou que a detecção tardia ocorreu porque a identificação do originador final do crédito não costuma integrar os documentos utilizados nas análises de risco.


Vorcaro admite crise de liquidez do Master


O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, admitiu que havia uma crise de liquidez no banco e que seu negócio era baseado no FGC (Fundo Garantidor de Créditos), fundo que garante pagamentos de até R$ 250 mil a investidores em caso de quebra de instituições.


“Existia uma crise, não era de hoje, mas o Master sempre foi solvente. Essa crise de liquidez foi criada por mudança de regulação com a pressão dos grandes bancos, que mudaram por duas vezes a regra do FGC. Essa mudança pressionou a captação do banco, porque todo o plano de negócio desde 2018, que a gente entregou para o Banco Central, era baseado no FGC”, disse Vorcaro.


Master tinha apenas R$ 4 milhões em caixa antes da liquidação


O diretor de fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, disse à PF que, antes da liquidação, o Master tinha apenas R$ 4 milhões em caixa, o que seria anormal para uma instituição financeira de médio porte.


“Um banco de R$ 80 bilhões de ativos totais tem liquidez de R$ 3 bi, R$ 4 bi em títulos livres. O Master, antes da liquidação, tinha só R$ 4 milhões em caixa”, afirmou Aquino, em depoimento prestado em 30 de dezembro.


Ele destacou que a crise de liquidez do Master era “muito clara” e que o banco não tinha ativos para fazer face às suas obrigações, o que gerou um processo administrativo sancionatório que ainda está em curso. De acordo com ele, o Master “não estava conseguindo cumprir o compulsório” —parcela de recursos dos clientes, captados em depósitos à vista, a prazo ou poupança, que o banco precisa obrigatoriamente deixar retida no BC.


Vorcaro minimiza conexões políticas


Vorcaro minimizou suas conexões políticas durante o depoimento à PF. “Se eu tenho tantas relações políticas, como estão dizendo, e se eu tivesse pedido a ajuda desses políticos, eu não estaria com a operação do BRB negada, eu não estaria aqui de tornozeleira, eu não teria sido preso e estava com a minha família sofrendo o que a gente está sofrendo”, disse.


Ele reconheceu, no entanto, que se encontrou com o governador do DF (Distrito Federal), Ibaneis Rocha (MDB), para discutir o assunto porque ele era o controlador indireto do BRB. O ex-banqueiro disse que tratou da venda com o governador “em algumas poucas oportunidades”, com a participação de outras pessoas.


“[Ibaneis] já foi à minha casa, se não me engano, uma vez. Eu já fui à casa dele, e a gente se encontrou poucas vezes. Conversas institucionais, todas na presença também de outras pessoas”, completou Vorcaro sobre encontros ou conversas entre os dois entre janeiro de 2024 e novembro de 2025.


Prejuízo ao BRB pode chegar a R$ 5 bilhões


Ailton de Aquino disse que a reserva de recursos a ser feita pelo BRB para cobrir as perdas com o Master pode se aproximar de R$ 5 bilhões. O BC já determinou que o banco do DF faça um provisionamento (reserva financeira) de R$ 2,6 bilhões em seu balanço para cobrir perdas. Seriam necessários ainda outros R$ 2,2 bilhões, segundo Aquino disse na oitiva.


Troca de ativos entre master e BRB


Para solucionar o impasse em torno das carteiras problemáticas, Master e BRB realizaram uma ampla troca de ativos. Do total de R$ 12,7 bilhões, aproximadamente R$ 10,2 bilhões foram substituídos por novos créditos consignados, imobiliários e corporativos. O BRB aplicou um deságio médio de 30% nesses ativos, o que resultou em uma margem de segurança estimada em cerca de R$ 2 bilhões a favor do banco público, disse Paulo Roberto Costa.


Ao final da acareação, Vorcaro afirmou que a operação foi encerrada sem prejuízo ao BRB. Costa, porém, ponderou que, embora as garantias tenham sido reforçadas, ainda havia pendências formais e ativos— como cerca de R$ 800 milhões em ações— que dependiam de avaliação final de preço no momento em que o processo foi interrompido pela liquidação do banco.


BC conclui que créditos eram falsos


Aquino disse que o Banco Central concluiu que os créditos comprados pelo BRB eram falsos quando o regulador fez uma reunião com representantes das empresas Cartos e Tirreno. “A gente começa a discutir, dado que a Cartos é uma empresa pequena, e a Tirreno é uma empresa desconhecida… Eu pergunto várias vezes: quanto você gerou de crédito?”, disse o diretor do BC.


O responsável pela empresa, segundo Aquino, disse que gerava entre R$ 30 milhões e R$ 50 milhões e depois de uma hora de conversa, os valores foram subindo. Em certo momento da conversa, a cifra teria subido para R$ 6,2 bilhões. “Isso é impossível, do ponto de vista técnico, de uma empresa gerar isso.”


Aquino disse que o único relacionamento da Tirreno é com o Master, iniciado em 23 de maio de 2025.

Além disso, afirmou que o regulador não viu nenhum fluxo financeiro na Tirreno, via TED, Pix ou câmbio.


Vorcaro não responde se tem bens no exterior


O dono do Banco Master não respondeu à PF se tem bens no exterior.


“O banco tem ativos no exterior, estava iniciando [esse processo]. Agora, eu talvez tenho sido uma das pessoas mais escrutinadas do Brasil antes dessa operação. Todos os meus bens estão declarados, impostos altíssimos pagos ao longo do tempo”, respondeu Vorcaro.


O depoimento prossegue e Vorcaro e a PF não tocam mais no ponto. No início deste ano, o liquidante do Banco Master acionou o tribunal de falência dos Estados Unidos para proteger os ativos da instituição financeira no país.


Defesa de Vorcaro nega entrega de celular


A defesa do ex-banqueiro Daniel Vorcaro disse, no início da acareação realizada no STF, que o dono do Banco Master não abriria o sigilo de seu telefone celular, devido a vazamentos ocorridos minutos após sua participação em uma audiência realizada na corte.


No início da confrontação entre Vorcaro e o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, o advogado Roberto Podval disse que, naquela primeira audiência, perguntas formuladas pelo ministro do STF Dias Toffoli foram publicadas pela imprensa “apenas 20 minutos após o encerramento do ato judicial”.


Segundo o advogado, a rapidez e a precisão da divulgação das informações teriam gerado “insegurança jurídica”, tornando inviável o fornecimento de dados privados do investigado às autoridades. O advogado afirmou que Vorcaro sequer portava o aparelho durante a acareação, para reduzir qualquer risco.

Conteúdo distribuído por Folhapress

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