A expansão do home office durante a pandemia de Covid-19 provocou mudanças significativas na forma como milhares de brasileiros trabalhavam e também onde escolhiam morar. Em São Paulo, muitas famílias deixaram a capital em busca de imóveis maiores, cidades mais tranquilas e uma rotina distante dos grandes centros. Agora, com a consolidação dos modelos híbrido e presencial, os dados do mercado imobiliário indicam uma possível reversão de parte desse movimento.
Um levantamento do Colégio Notarial do Brasil em São Paulo (CNB/SP) mostra que a capital paulista registrou, em 2025, um recorde histórico de compra e venda de imóveis. Foram 90.402 escrituras lavradas nos cartórios de notas, número 49,6% maior que o registrado em 2020, primeiro ano da pandemia.
Enquanto São Paulo recuperou força no mercado imobiliário, municípios que haviam atraído moradores durante o período de maior adesão ao trabalho remoto registraram retração no volume de escrituras entre 2021 e 2025. O cenário acompanha a mudança na organização das empresas, que passaram a exigir novamente uma presença mais frequente nos escritórios.
Volta ao escritório muda rotina dos trabalhadores
Uma pesquisa realizada pela WeWork em parceria com a Offerwise aponta que 63% dos profissionais entrevistados trabalham presencialmente. Entre esse grupo, 79% afirmam que a frequência ao escritório é determinada pela própria empresa, e não por uma escolha individual do trabalhador.
A rotina presencial, porém, também trouxe novos custos e dificuldades. Para 65% dos entrevistados, o deslocamento até o trabalho é a principal desvantagem do modelo presencial. Outros 53% afirmam ter registrado aumento nas despesas relacionadas à ida ao escritório.
A quantidade de dias presenciais também varia de acordo com a atividade profissional. Trabalhadores dos setores de construção civil e engenharia frequentam o escritório, em média, 4,8 dias por semana. Na área de serviços, a média é de 3,3 dias, refletindo a permanência de diferentes formatos de organização do trabalho.
Essa mudança não afeta apenas a rotina dentro das empresas. A necessidade de deslocamento diário ou frequente pode interferir diretamente nas despesas familiares, no tempo disponível e até na escolha do município onde o trabalhador pretende morar.
Cidades que cresceram com home office perdem espaço
Os efeitos dessa transformação aparecem de forma mais evidente em cidades que haviam se beneficiado da procura por casas, condomínios e imóveis maiores durante a pandemia.
Entre 2021 e 2025, Itupeva registrou queda de 57% no número de escrituras. Em Cotia, a retração foi de 41%, enquanto Indaiatuba teve redução de 36%. São João da Boa Vista apresentou queda de 32%, seguida por Atibaia, com 31%, e Peruíbe, com 30%. Itu e Itatiba registraram retração de 28% cada uma.
O interior turístico também perdeu praticamente todo o avanço obtido durante o auge do trabalho remoto. Ao final de 2025, o volume de escrituras nessas localidades correspondia a 99,3% do patamar registrado antes da pandemia.
No litoral paulista, entretanto, o nível permaneceu cerca de 20% acima do registrado em 2020. Apesar disso, não houve crescimento relevante desde 2023, indicando uma estabilização depois do forte movimento provocado pela pandemia.
Trabalho remoto ainda é valorizado pelos profissionais
Apesar da retomada do modelo presencial, os dados mostram que o trabalho remoto continua sendo valorizado por uma parcela significativa dos profissionais.
Em 2025, 67,7% dos trabalhadores entrevistados em uma pesquisa da HUG, empresa especializada na curadoria e alocação de profissionais de comunicação, afirmaram que o trabalho remoto melhorou sua qualidade de vida. Outros 23,1% disseram ter percebido efeitos mistos, enquanto 9,2% relataram impactos predominantemente negativos.
O levantamento aponta que o home office deixou de ser encarado apenas como uma solução emergencial da pandemia e passou a fazer parte das expectativas de muitos profissionais na hora de avaliar uma oportunidade de emprego. Flexibilidade, autonomia e equilíbrio entre vida pessoal e trabalho passaram a dividir espaço com o salário entre os fatores considerados pelos trabalhadores.
Para as empresas, a escolha entre trabalho presencial, híbrido ou remoto também passou a ter impacto na contratação e na retenção de funcionários. Políticas de flexibilidade podem influenciar o recrutamento, o custo para preencher uma vaga, o tempo necessário para encontrar profissionais e a permanência das equipes.











