O avanço de um novo episódio de El Niño no Oceano Pacífico trouxe alerta entre especialistas em clima e organizações humanitárias. O fenômeno, associado ao aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial, deve aumentar a ocorrência de eventos extremos em diferentes partes do mundo, com efeitos previstos também para a América Latina. No Brasil, mulheres que dependem diretamente da agricultura ou vivem em áreas vulneráveis podem enfrentar impactos mais severos sobre renda, produção de alimentos e segurança financeira.
A Organização das Nações Unidas (ONU) avalia que o fenômeno está ganhando intensidade e pode manter elevado o risco de secas, enchentes e temperaturas extremas até fevereiro de 2027. O secretário-geral da entidade, António Guterres, afirmou que o El Niño está sendo “superdimensionado diante de nossos olhos” e que o mundo entrou em uma zona de perigo diante da intensificação dos eventos climáticos.
Além dos efeitos ambientais, o fenômeno pode provocar consequências econômicas. A alteração dos padrões de chuva e temperatura interfere na produção agrícola, na oferta de alimentos e nos preços de commodities, criando impactos que podem ultrapassar as regiões diretamente atingidas.
Por que as mulheres podem sofrer mais
O alerta não está relacionado apenas às características físicas do fenômeno climático. A maior vulnerabilidade feminina está ligada principalmente às condições sociais e econômicas em que muitas mulheres vivem.
Segundo dados reunidos pela CARE International, 172,3 milhões de mulheres e meninas já estão em risco de insegurança alimentar nos países considerados mais vulneráveis aos efeitos do El Niño. Em 20 dos 22 países analisados, há mais mulheres e meninas enfrentando fome do que homens.
A agricultura é um dos pontos mais sensíveis. Mulheres que dependem do cultivo da terra podem perder plantações, renda e investimentos quando períodos prolongados de seca comprometem a produção. Em situações opostas, chuvas intensas e enchentes também podem destruir lavouras, equipamentos e propriedades.
A perda da produção ainda pode provocar um efeito em cadeia. Com menos alimentos disponíveis, os preços tendem a sofrer pressão, enquanto famílias que já possuem orçamento limitado passam a ter maior dificuldade para comprar comida e manter outras despesas básicas.
Brasil pode sentir os efeitos de diferentes formas
O El Niño não produz exatamente o mesmo resultado em todos os lugares. O fenômeno altera a circulação atmosférica e modifica os padrões de temperatura e precipitação, fazendo com que algumas regiões enfrentem períodos mais secos enquanto outras registram chuvas acima do normal.
No Brasil, essas alterações podem repercutir diretamente sobre atividades agrícolas. Em determinadas áreas, a falta de chuva pode comprometer safras e aumentar a necessidade de irrigação. Em outras, o excesso de precipitação pode provocar alagamentos, erosão e perdas de plantações.
Para mulheres que têm a agricultura como fonte de sustento, o problema pode ser ainda maior. Uma quebra de safra não representa apenas a perda de alimentos, mas também a redução da renda familiar e, em muitos casos, a perda de recursos investidos na própria produção.
O impacto também pode chegar ao consumidor por meio dos preços. Como eventos climáticos extremos afetam a produção e a logística, commodities agrícolas podem ficar mais caras, pressionando mercados domésticos e internacionais.
Fenômeno pode atingir economia mundial
A preocupação dos especialistas vai além da produção de alimentos. Estudos sobre episódios anteriores de El Niño indicam que o fenômeno pode provocar perdas econômicas que permanecem por anos.
Uma análise baseada em pesquisas de Christopher Callahan e Justin Mankin, que avaliaram dados de 1960 a 2019, identificou impactos negativos tanto no crescimento econômico imediato quanto nos anos seguintes. Segundo a análise, o fenômeno também pode reduzir investimentos necessários para a expansão futura das economias.
Caso o atual episódio alcance intensidade semelhante à registrada durante o Super El Niño de 1997-1998, as perdas econômicas globais poderiam chegar a aproximadamente US$ 986 bilhões em 2027. Sem medidas de preparação e adaptação, as perdas acumuladas nos cinco anos seguintes poderiam alcançar pelo menos US$ 7,2 trilhões.











