A China passou a aplicar, a partir desta terça-feira (15), uma nova regulamentação que restringe o funcionamento de companheiros virtuais criados por inteligência artificial. A regra impede que plataformas ofereçam recursos capazes de estimular relacionamentos afetivos intensos entre usuários e chatbots, em uma tentativa do governo de reduzir casos de dependência emocional e seus impactos sobre a vida social.
As regras, coordenadas pela Administração do Ciberespaço da China (CAC), obrigaram algumas das maiores empresas de tecnologia do país a desativar funções que permitiam criar “namorados” e “namoradas” virtuais personalizados.
Batizada de Medidas Provisórias para a Administração de Serviços de Interação Antropomórfica por Inteligência Artificial, a regulamentação foi publicada em abril e entrou oficialmente em vigor no dia 15 de julho.
O texto determina que sistemas de IA não podem induzir usuários à dependência emocional nem prejudicar relacionamentos no mundo real. A norma é direcionada aos chamados companheiros virtuais, capazes de manter conversas contínuas e simular vínculos afetivos, e não atinge chatbots destinados ao atendimento ao cliente ou ferramentas de estudo.
Além de limitar esse tipo de interação, as plataformas passam a ser obrigadas a implementar mecanismos de prevenção ao vício, emitir alertas sobre o tempo de uso, oferecer formas simples de encerrar a interação e detectar sinais de dependência emocional em tempo real.

Plataformas retiram funções
Com a entrada em vigor das regras, empresas como ByteDance, dona do chatbot Doubao, Alibaba, com o Qwen, e Tencent, responsável pelo Yuanbao, desativaram recursos que permitiam aos usuários criar personagens virtuais altamente personalizados para atuar como parceiros românticos ou amigos.
Esses assistentes eram utilizados diariamente por milhares de pessoas, que relatavam conversar sobre problemas pessoais, rotina e sentimentos, estabelecendo vínculos considerados profundos.
A mudança provocou forte repercussão nas redes sociais chinesas. Muitos usuários compararam o fim dos relacionamentos virtuais ao luto.
Em uma das publicações que ganharam destaque, um usuário do Doubao afirmou que não conseguia aceitar a perda de seu “companheiro virtual”, descrevendo-o como um pilar emocional em sua vida. Outra pessoa escreveu que o chatbot havia se tornado “como um membro da família”.
Governo também mira impactos sociais
Segundo especialistas, a preocupação das autoridades chinesas vai além da saúde mental. O governo teme que relacionamentos com inteligência artificial reduzam a disposição das pessoas para formar famílias e tenham impacto sobre a taxa de natalidade, um dos desafios demográficos enfrentados pelo país.
Para Wang Jiang, diretor do Instituto de Pesquisa do Ciberespaço da China, os serviços de IA voltados para companhia oferecem conforto aos usuários, mas também podem criar riscos significativos ao explorar necessidades emocionais e sociais.
Especialistas em inteligência artificial observam que a tendência de atribuir características humanas aos chatbots não é nova. Desde os primeiros programas de conversa desenvolvidos na década de 1960, pesquisadores já alertavam para a facilidade com que usuários estabelecem vínculos emocionais com sistemas capazes de simular empatia e compreensão.








