Um mágico de 37 anos que vive em Qingdao, na China, perdeu a destreza dos dedos após uma lesão grave em 2015, quando um vidro estilhaçou e seccionou o tendão do indicador da mão direita, além de fraturar o dedo mindinho. A lesão encerrou sua carreira de ilusionista, mas hoje ele se inspira em Bryan Berg.
Incapaz de continuar apresentando números de magia com moedas e objetos do cotidiano, ele transformou a frustração em recuperação. Começou a empilhar cartas sem cola, fita ou ferramentas para reabilitar a coordenação motora. O movimento repetido dos dedos lesionados, que agora só dobram até a metade, restaurou gradualmente sua capacidade funcional e despertou uma nova paixão.
Da terapia à obsessão com estruturas
O que começou como exercício fisioterápico evoluiu para uma dedicação à construção com cartas. Ele aprendeu os princípios fundamentais ao estudar vídeos do americano Bryan Berg, o arquiteto profissional de cartas mais conhecido do mundo, e comprou um livro dele.
Em entrevista ao The Guardian, disse que ficou chocado ao ver o trabalho de Berg e nunca pensou que conseguiria fazer algo assim tão legal.
A construção exige coordenação precisa, paciência e tranquilidade mental, e depois de milhares de falhas, ele aprendeu as regras: cada tentativa o ajudou a entender como o peso se distribui. A ordem das cartas importa, e a estabilidade segue leis estruturais tão rigorosas quanto as de um edifício de verdade.
Para ele, imaginar uma construção antes de começar a montá-la é semelhante a meditar.
Réplicas do mundo em 10 mil cartas
Muitas de suas obras reproduzem marcos arquitetônicos mundiais, como a mesquita Hagia Sophia em Istambul, a Torre Eiffel e a Cidade Proibida na China. O Big Ben consumiu 18 horas e 10 mil cartas, posicionadas individualmente com precisão milimétrica.
Além das réplicas históricas, ele cria estruturas originais inspiradas em ficção. Um castelo inspirado no filme Frozen demandou 40 horas e 12 mil cartas. Videogames também alimentam sua imaginação com designs inovadores, e cada projeto internacional o força a pesquisar estilos arquitetônicos distintos, transformando a prática em aprendizado contínuo sobre culturas e períodos históricos.
Recorde em menos de cinco horas
No ano passado, ele registrou dois recordes consecutivos com torres verticais extremas. Na primeira tentativa, construiu o edifício mais alto em uma hora: terminou a obra em pouco menos de 42 minutos.
Semanas depois, estabeleceu um novo recorde em 12 horas: uma torre de 50 andares e 3,37 metros, finalizada em pouco mais de cinco horas. A construção superou a do antigo detentor do título, seu mentor Bryan Berg, que havia erguido 48 andares.
Isolamento, gatos e recusa da comercialização
Ele vive afastado do centro urbano de Qingdao para concentrar-se melhor, acompanhado apenas por dois gatos que, após anos de presença, aprenderam a não perturbar as estruturas. Em entrevista ao The Guardian, afirmou que prefere estar sozinho e que, talvez por isso, não se preocupa com a opinião dos outros, podendo seguir seus próprios interesses e ideias.
Ele não tem vida social ativa nem é casado e mantém uma rotina de trabalho concentrada, em que cada dia traz novas possibilidades arquitetônicas em papel.
Ele se recusa a transformar a paixão em profissão remunerada e paga as despesas com as economias dos anos em que trabalhou como mágico. A escolha, segundo ele, preserva o prazer de trabalhar, e disse ao The Guardian que talvez a paixão se perdesse se a atividade se tornasse comercial.
Para ele, construir com cartas é uma forma pessoal de meditação e autoconhecimento. Cada torre reúne habilidade técnica e o caminho que percorreu durante a recuperação.











