O Rio Grande do Sul se tornou o primeiro estado brasileiro a registrar impactos expressivos da atual atuação do El Niño, que já influencia o clima no país com temporais, enchentes e transtornos em centenas de municípios. Enquanto uma frente fria avança pela Região Sul, meteorologistas alertam que o fenômeno pode se intensificar nos próximos meses e atingir a categoria de Super El Niño entre outubro e dezembro deste ano.
Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), existe 81% de probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade excepcional no último trimestre de 2026, mantendo influência sobre o clima até o início de 2027.
Os primeiros efeitos já foram sentidos no Rio Grande do Sul, onde fortes chuvas acompanhadas de rajadas de vento e granizo provocaram alagamentos, elevação de rios e danos em diversas cidades.
Os levantamentos mais recentes apontam que 169 municípios foram afetados pelas chuvas, número superior ao balanço inicial de 143 cidades divulgado pela Defesa Civil. Mais de mil pessoas precisaram deixar suas casas, entre desalojados e desabrigados, além do registro de uma pessoa ferida e da destruição de pelo menos uma ponte.
Os rios Taquari e Caí ultrapassaram as cotas de inundação. Em Lajeado, o Rio Taquari chegou a 20,80 metros, acima do nível de inundação de 19 metros, levando a prefeitura a retirar moradores de áreas de risco. Em São Sebastião do Caí, o Rio Caí também superou a marca considerada crítica.
O volume de chuva chamou atenção em diferentes regiões do estado. Em Paraí, na Serra Gaúcha, foram registrados mais de 200 milímetros em apenas 24 horas. Já em Marcelino Ramos, no norte gaúcho, choveu 138 milímetros em apenas 12 horas.
Até o momento, sete municípios tiveram situação de emergência reconhecida pelo governo federal: São Sepé, Erval Seco, Liberato Salzano, Coronel Bicaco, Cerro Grande, Novo Tiradentes e Seberi.

Frente fria muda o tempo no Sul e avança para o Sudeste
Nesta quinta-feira (23), a passagem da frente fria começa a reduzir a intensidade das chuvas em grande parte do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Em seu lugar, uma massa de ar polar favorece a queda das temperaturas e o retorno de condições típicas do inverno.
No Sudeste, o enfraquecimento do bloqueio atmosférico permite que a frente fria avance sobre São Paulo, aumentando as condições para chuva, principalmente no oeste, sul e na Região Metropolitana. Rio de Janeiro e o extremo sul de Minas Gerais também devem registrar aumento da nebulosidade e temperaturas mais baixas.
Já em Mato Grosso do Sul, a frente fria provoca pancadas de chuva fortes acompanhadas de trovoadas, trazendo alívio temporário ao calor.
Aquecimento do Pacífico preocupa especialistas
Meteorologistas afirmam que o atual episódio do El Niño chama atenção pela rapidez com que as temperaturas do Oceano Pacífico vêm aumentando.
De acordo com análises da MetSul Meteorologia, a anomalia da temperatura da superfície do mar na região centro-leste do Pacífico já atingiu cerca de 2°C ainda na metade do ano, marca que, em episódios históricos como os de 1982, 1997 e 2023, só foi observada no fim do ano.
As projeções indicam que esse aquecimento pode alcançar entre 3°C e 4°C, patamar inédito nos registros históricos recentes.
Além disso, um boletim conjunto do Cemaden, Inmet, INPE, ANA, Serviço Geológico do Brasil (SGB) e Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil aponta probabilidade superior a 90% de permanência do El Niño até pelo menos o início de 2027.
Especialistas alertam que o oceano mais aquecido favorece o transporte de grandes volumes de umidade da Amazônia para a Região Sul. Com isso, sempre que frentes frias ou áreas de baixa pressão atuarem sobre a região, aumenta o potencial para chuvas intensas, enchentes e tempestades severas.








