Um dos medicamentos mais populares da história do Brasil já teve uma composição que hoje chamaria atenção não apenas por questões de saúde, mas também pelas regras de trânsito. O tradicional Biotônico Fontoura, criado em 1910, possuía 9,5% de álcool etílico em sua fórmula original, teor superior ao de muitas cervejas comercializadas atualmente.
A presença de álcool no fortificante foi proibida em 2001 por determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que exigiu a reformulação do produto para reduzir a exposição de crianças ao etanol. A mudança ocorreu em um momento de maior rigor das políticas de saúde pública voltadas ao consumo de álcool.
Caso um medicamento com a antiga composição fosse comercializado atualmente, o consumo em determinadas quantidades poderia até interferir na fiscalização da Lei Seca, já que dirigir sob influência de álcool configura infração gravíssima, sujeita a multa de R$ 2.934,70, suspensão do direito de dirigir por 12 meses e outras penalidades previstas no Código de Trânsito Brasileiro.
Fortificante marcou gerações de brasileiros
Desenvolvido pelo farmacêutico Cândido Fontoura, em Bragança Paulista (SP), o Biotônico Fontoura foi lançado como um medicamento para combater a anemia e fortalecer o organismo. Sua fórmula reunia sulfato ferroso, ácido fosfórico, extratos vegetais e álcool etílico.

Ao longo de décadas, o produto ganhou enorme popularidade graças às campanhas publicitárias que o apresentavam como “o mais completo fortificante”. As propagandas eram direcionadas a diferentes públicos: prometiam estimular o apetite das crianças, aumentar o vigor dos homens e contribuir para a beleza das mulheres.
Entre as décadas de 1970 e 1990, também ficou conhecida uma receita caseira apelidada de “mistura mágica”, que combinava Biotônico, ovos de pata e leite condensado, sob a crença popular de potencializar os efeitos do fortificante.
Teor alcoólico gerou preocupação
A antiga fórmula continha 9,5% de álcool, índice semelhante ao encontrado em vinhos e superior ao de muitas cervejas.
Em 1995, um parecer do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj) alertou que o consumo do produto, dependendo da quantidade ingerida, poderia provocar embriaguez.
Além disso, especialistas passaram a demonstrar preocupação com o uso frequente por crianças, já que estudos apontavam possíveis efeitos como aumento dos batimentos cardíacos, dores de cabeça, náuseas, confusão mental e até maior predisposição à dependência alcoólica na vida adulta.
Mudança na fórmula e curiosidade histórica
Em 2001, a Anvisa determinou que tônicos, fortificantes e estimuladores de apetite deixassem de utilizar álcool etílico em suas fórmulas. A reformulação permitiu que o Biotônico Fontoura permanecesse no mercado, mas também marcou o início da perda de popularidade do produto.
Outro episódio curioso da trajetória do fortificante ocorreu durante a Lei Seca nos Estados Unidos. Na época, o Biotônico Fontoura foi exportado como medicamento e acabou sendo utilizado por consumidores como uma forma legal de ingerir álcool durante o período em que bebidas alcoólicas eram proibidas no país.



