O ‘Efeito Trump’ e a janela de oportunidades para a exportação sustentável de Minas
Desde 2025, a política comercial protecionista do presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, reorganizou o mapa das trocas globais. Tarifas amplas sobre produtos brasileiros, inclusive sobretaxas que já chegaram a 50% no ano passado, e agora uma nova “leva” anunciada, com mais 35% de taxas extras sobre produtos nacionais.
Esses movimentos do país norte-americano vieram atrelados a motivações políticas, não apenas econômicas, gerando preocupação e apreensão em setores estratégicos como aeronaves, energia, suco de laranja, ferro-gusa, metais preciosos, celulose e fertilizantes.
O resultado prático aferido até o momento é ambíguo para o Brasil e para Minas Gerais: parte dos setores produtivos mineiros sente o custo do tarifaço, mas o mesmo movimento de imposição tarifária pode trazer compradores internacionais, sobretudo europeus, que buscam fornecedores alternativos com credenciais ambientais mais sólidas. É nesse vácuo que Minas Gerais desponta como candidata natural.
CBAM: o filtro que valoriza quem já é limpo
Enquanto os EUA fecham portas com tarifas políticas, a União Europeia abre uma porta técnica. O Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM), que passou a vigorar em 2026, taxa importações conforme o conteúdo de carbono embutido no produto. Estudos citados no debate público apontam que, sem adaptação, setores como aço, ferro e alumínio podem sofrer queda superior a 30% nas exportações na década seguinte.
Por outro lado, o mecanismo funciona como um “filtro competitivo global”: fornecedores com matriz energética mais limpa tendem a virar alternativa preferencial dos importadores europeus, deslocando concorrentes mais intensivos em carbono. Para a siderurgia mineira, isso transforma a menor pegada de carbono em argumento comercial concreto na disputa por espaço no mercado europeu.
Empresas como a Gerdau, que possui plantas fabris nos EUA e no Brasil, entendem que o momento exige ter todas as certificações e práticas ambientais em dia, o que pode significar mais do que um “respiro” para o planeta: a própria sobrevivência do negócio.
Exemplo prático disso é que a Gerdau assumiu o compromisso de reduzir emissões de 0,93 para 0,83 tonelada de CO2 equivalente por tonelada de aço até 2030. Para o CEO da Gerdau, Gustavo Werneck, a agenda ambiental é condição de sobrevivência do negócio: “Se não construímos um relacionamento com todos os stakeholders, fica muito difícil operar. O modelo de negócios seria questionado pela sociedade”, disse.
Aço verde: da commodity ao produto diferenciado
A siderurgia mineira, uma das maiores do País, também entendeu que, se não ficar mais próxima das boas práticas ambientais, dificilmente vai conseguir atrair novos mercados para seus produtos em tempo de tarifaço dos Estados Unidos.
A Aperam South America, que opera na região do Vale do Aço, hoje atua com 100% de carvão vegetal renovável nos altos-fornos, substituindo o coque mineral, uma das maiores fontes poluentes do setor.
A empresa criou um ciclo de renovação de autofornecimento a partir de florestas plantadas e certificadas no Vale do Jequitinhonha.

O resultado é o “Aço Verde Aperam”, vendido como produto de ciclo sustentável integrado, com uma das menores pegadas de carbono da siderurgia mundial. A Gerdau, maior produtora de aço do País, lançou a linha NewEco, de baixa emissão, produzida a partir de sucata metálica e fontes renováveis; a empresa é a maior recicladora de sucata da América Latina, com cerca de 70% da produção baseada nesse insumo.
A companhia também investe R$ 3,2 bilhões em uma plataforma de mineração sustentável ligada à unidade de Ouro Branco, na região central do Estado, e aportou R$ 1,5 bilhão em energia limpa para produzir aço com até 58% menos emissões.
Outro peso-pesado do aço em Minas, a Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais (Usiminas), sob novo controle da Ternium desde março de 2026, também correu para estruturar um plano de descarbonização apoiado em eficiência energética, gás natural e maior uso de sucata, pressão que ganhou urgência depois de decisão judicial em Minas Gerais relacionada à poluição atmosférica na unidade de Ipatinga (Vale do Aço).
“A descarbonização não é apenas uma prioridade ambiental, mas também uma oportunidade para impulsionar a inovação, a competitividade e o crescimento sustentável de longo prazo”, diz o CEO da Usiminas, Marcelo Chara.
A ArcelorMittal Brasil, por sua vez, concluiu R$ 5,8 bilhões em investimentos em duas usinas solares e uma eólica para abastecer suas operações com energia renovável.
Janela de investimento verde
A combinação de tarifas americanas, CBAM europeu valorizando baixo carbono, matriz elétrica mineira quase 100% limpa e siderúrgicas já em processo avançado de descarbonização configura o que se pode chamar de janela de investimento verde: um período em que capital internacional, especialmente fundos e compradores industriais europeus, tende a priorizar fornecedores com credenciais ambientais verificáveis.
Aí entra mais um diferencial estrutural de Minas Gerais no contexto de oportunidades diante do tarifaço de Trump: segundo a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), o Estado atingiu 99,4% de sua matriz energética proveniente de fontes renováveis (hídrica, solar, eólica e biomassa) em 2025, com a geração solar crescendo 94,4% entre 2023 e 2025.
Minas lidera o País em energia solar fotovoltaica, com 8.661 MW já instalados e mais de 22 mil MW em construção, à frente de estados tradicionalmente associados ao setor, como Bahia e Ceará. Projetos como o Pirapora Solar Complex (mais de R$ 2 bilhões investidos, 321 MW de capacidade) e o megaprojeto híbrido eólico-solar de mais de R$ 5 bilhões, apoiado pela Agência de Promoção de Investimento e Comércio Exterior de Minas Gerais (Indi), ilustram como o Estado já atrai capital internacional antes mesmo de qualquer “efeito Trump”, mas esse efeito pode acelerar o fluxo.
Em nota, a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) diz que o tarifaço pode ter como reflexo positivo “a disponibilidade maior de equipamentos e produtos ao mercado brasileiro, que antes seriam destinados aos EUA e agora se tornaram menos competitivos naquele país, devido às tarifas aumentadas”. Ou seja, o mercado, que está prestes a crescer com a regulamentação do mercado de energia livre de baixa tensão, pode beneficiar o consumidor interno.
Riscos e acordo Mercosul-UE
Nem tudo é oportunidade automática para Minas e para o País. Análises recentes alertam que credenciais ambientais nem sempre blindam o Brasil de decisões políticas: o próprio tarifaço de Trump ocorreu mesmo com dados de queda recorde no desmatamento amazônico, mostrando que, quando a métrica de avaliação é política e não técnica, indicadores ambientais positivos não garantem proteção comercial automática.
Ainda assim, o acordo Mercosul-União Europeia (UE), em vigor provisório, e a estruturação do mercado regulado de carbono brasileiro (SBCE), que deve incluir o setor de ferro e aço já na primeira fase, reforçam a tese de que a competitividade ambiental tende a pesar cada vez mais nas relações comerciais de longo prazo, mesmo que decisões de curto prazo sigam sujeitas à volatilidade política.
Conforme destaca a coordenadora de facilitação de negócios internacionais da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Verônica Winter, a expectativa da entidade e dos empresários mineiros é que o acordo Mercosul-UE possa ser um novo caminho, com acesso simplificado ao novo bloco comercial. A medida deve abrir portas para novas oportunidades, reforçando que a diversificação é indispensável para atender às exigências do consumidor europeu.
“Um dos impactos que a gente espera com esse acordo é justamente que a indústria consiga acessar mais facilmente o mercado da União Europeia e que amplie sua presença. A diversificação da nossa pauta é importante porque, apesar de a União Europeia ser um mercado muito expressivo, nosso segundo parceiro comercial, só atrás da China, é fundamental que tenhamos essa diversificação. E com o acordo, isso tende a acontecer”, disse.
A indústria como um todo também precisará se adaptar. Produzir e exportar dentro do bloco exigirá respeito constante às regulamentações sociais, ambientais e econômicas de quem deseja entrar e se manter nesse mercado.
“A indústria mineira vai estar mais exposta à concorrência da produção da União Europeia aqui. Então, temos a preocupação em melhorar a competitividade, em fortalecer e modernizar a produção. Temos feito orientações, capacitando, elaborando levantamentos e estudos, justamente para auxiliar as empresas com informações sobre as exigências regulatórias, como ambientais e sanitárias, porque é um mercado muito exigente”, finaliza Verônica Winter.
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