Movimento Minas 2032

Empresas de todos os portes lucram com investimento em saúde mental

Empresas de qualquer porte podem e devem investir na qualidade de vida de seus colaboradores
Empresas de todos os portes lucram com investimento em saúde mental
Foto: Reprodução Adobe Stock / Gerado por IA / Rafliand

A saúde mental no ambiente de trabalho tem impacto direto não só no bem-estar dos colaboradores, mas também nos resultados econômicos das empresas – tanto que estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) estimam que transtornos como ansiedade e depressão geram uma perda global de produtividade de cerca de US$ 1 trilhão por ano.

No Brasil, a situação é ainda mais alarmante: em 2024, foram registrados 472.328 afastamentos do trabalho por transtornos mentais, o maior número em, pelo menos, uma década, representando um aumento de 68% em relação a 2023. O cenário pode atingir até um milhão de trabalhadores quando considerados também os dados do mercado informal, segundo informações do Ministério da Previdência Social (MPS).

Os números evidenciam que a crise de saúde mental já impacta diretamente a força de trabalho e os resultados das empresas, reforçando, no contexto do Janeiro Branco, a urgência de políticas e práticas efetivas de cuidado emocional no ambiente corporativo. Em Belo Horizonte, exemplos exitosos de investimentos de pequenos e grandes negócios na promoção da saúde mental no trabalho mostram que empresas de qualquer porte podem e devem investir na qualidade de vida de seus colaboradores.

Empreendedora social e gestora, Pablina Veloso, 40 anos, transformou sua trajetória de superação em um modelo de negócio que alia geração de renda, identidade e cuidado emocional. Fundadora do Ateliê Sol Tranças Afro, ela criou um espaço que vai além da estética: promove pertencimento, autoestima e fortalecimento da saúde mental de mulheres periféricas por meio da valorização da ancestralidade afro-brasileira, especialmente por meio das tranças.

Ateliê Sol Tranças Afro
Ateliê Sol Tranças Afro criou um ecossistema de cuidado em saúde mental organizado por clientes, vizinhas e parceiras | Foto: Arquivo pessoal / Pablina Veloso

Com formação em Gestão de Recursos Humanos, ela estruturou o ateliê como um ambiente acolhedor e formativo, onde o trabalho é também instrumento de reconstrução pessoal. A empresa oferece capacitação profissional, apoio psicossocial indireto, por meio de escuta, acolhimento e redes de apoio no criado Instituto Sol, o braço social da empresa de Pablina Veloso. Para a empresária, criar oportunidades reais de autonomia financeira são fatores essenciais para o bem-estar mental no ambiente de trabalho. Para a gestora, o impacto de seu negócio é financeiro e de promoção da saúde mental de funcionárias, colaboradoras e interessadas.

“Criamos um ecossistema de cuidado em saúde mental organizado por clientes, vizinhas e parceiras para que meu negócio possa incorporar práticas humanizadas de gestão, criando ambientes de trabalho mais saudáveis, inclusivos e emocionalmente sustentáveis, com impacto direto na qualidade de vida, na produtividade e especialmente, de valorização e pertencimento da mulher periférica”, defende Pablina
Presente em ações comunitárias, presídios e parcerias com organizações como a Central Única das Favelas de Minas Gerais (Cufa/MG), Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (Adra) e Instituto Responsa – Responsabilidade Social Empresarial, o Ateliê Sol já impactou mais de 4 mil mulheres em diferentes estados.

Cuidar é pilar da perenidade do negócio

Já na Localiza&Co, o cuidado com as pessoas é pilar da perenidade do negócio, integrando o bem-estar emocional à estratégia corporativa por meio do programa Saudavelmente, estruturado para o cuidado com a saúde mental. Ao democratizar o acesso à saúde mental – com isenção de coparticipação e suporte 24h -, a companhia permitiu que 34% dos participantes do programa iniciassem a psicoterapia pela primeira vez, elevando o volume de sessões em 40% neste ano frente a 2024.

“Essa cultura de acolhimento une alta performance à saúde integral, consolidando a Localiza&Co em rankings de prestígio como o GreatPlacetoWorK (GPTW) e premiações de Sustentabilidade e ESG”, reforça o diretor de Recompensas e Bem-Estar da Localiza&Co, Wesley Miquelino.

Para o CEO, board advisor e presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos de Minas Gerais (ABRH-MG), David Braga, investir em saúde mental melhora qualidade e produtividade porque reduz o custo invisível do dia a dia: presenteísmo (a pessoa está presente, mas rende abaixo do potencial), absenteísmo e rotatividade, sendo três fatores que viram retrabalho, atrasos e mais erros na operação. O especialista defende que o impacto não é só humano: é econômico e operacional.

“Quando a saúde mental se deteriora, a empresa não perde apenas horas. Perde criatividade, colaboração, capacidade de decidir bem sob pressão e a disposição de “ir além” com responsabilidade. Já quando o ambiente é mais saudável com liderança preparada, metas claras, carga de trabalho sustentável e espaço seguro para pedir ajuda, as pessoas voltam a ter energia emocional para pensar, priorizar, se comunicar melhor e aprender com menos medo” reitera Braga.

O Diário do Comércio aprofundou o assunto com o especialista e traz alguns dos
principais pontos sobre a relevância de ter gestão comprometida com a saúde mental:

1 – Qualidade e produtividade

    Como o investimento em saúde mental dos colaboradores impacta diretamente a qualidade do trabalho, a produtividade e a redução de erros no dia a dia das empresas?

      Por trás de cada número existe uma pessoa tentando dar conta do trabalho enquanto lida com ansiedade, exaustão, insônia, irritabilidade e perda de foco e isso corrói a confiança, o senso de pertencimento e até a qualidade das relações dentro do time. Quando existe um ambiente saudável, o impacto aparece no cotidiano: menos conflitos, menos retrabalho, mais consistência nas entregas e, principalmente, um clima de respeito que faz o colaborador sentir que não é só um recurso, mas alguém que importa.

      2 – Ambiente e clima organizacional

      Quais mudanças concretas no clima e nas relações de trabalho costumam ser observadas em empresas que adotam políticas estruturadas de cuidado com a saúde mental?

      Quando há segurança psicológica, o resultado é um ambiente com menos ruído e mais alinhamento. O relatório da Great Place to Work Brasil (2023) reforça essa lógica ao mostrar que organizações com alto índice de confiança tendem a ter mais engajamento e satisfação e menos conflitos internos e comportamentos tóxicos e isso aparece no dia a dia: gente mais ouvida, reconhecida e com senso real de pertencimento.

      3 – Resultados financeiros e competitividade

        Existe relação mensurável entre investimento em saúde mental, redução de turnover e aumento de lucratividade? Como isso se reflete nos indicadores de desempenho das organizações?

        Existe, sim, uma relação mensurável entre investimento em saúde mental, redução de turnover e melhora dos resultados financeiros e ela começa pelo fator humano. Ambientes que cuidam da saúde emocional reduzem exaustão, conflitos e a desconexão silenciosa que faz bons profissionais pedirem demissão. A Gallup, no State of the Global Workplace (2023), aponta que equipes com maior bem-estar e engajamento têm 18% mais produtividade e menos rotatividade. Na prática, cada saída evitada preserva conhecimento crítico, continuidade e relações, além de reduzir custos diretos com rescisões, recrutamento, onboarding e curva de aprendizagem.

        Além dos números, o impacto mais visível é humano e aparece no cotidiano: pessoas que dormem melhor, conseguem se concentrar, erram menos e voltam a sentir orgulho do que fazem; líderes que deixam de apagar incêndio o tempo todo e passam a orientar com clareza; equipes que se comunicam com mais respeito, pedem ajuda sem vergonha e encaram problemas cedo, antes de virarem crise. Quando a empresa estrutura cuidado (carga de trabalho mais sustentável, rituais de escuta, apoio, liderança preparada), ela reduz o medo, a irritação e o desgaste que corroem relações e desempenho, e ganha algo difícil de medir, mas fácil de perceber: energia emocional para cooperar, criar e entregar com consistência sem adoecer no caminho.

        4 – Atração, engajamento de talentos e reputação

        De que forma programas de saúde mental influenciam a capacidade da empresa de atrair e reter talentos, especialmente entre jovens profissionais e lideranças qualificadas?

        Programas estruturados de saúde mental têm se tornado decisivos para atrair e reter talentos, especialmente entre jovens profissionais e lideranças qualificadas, que passaram a avaliar o “ambiente emocional” da empresa com o mesmo peso de salário e carreira. As novas gerações buscam coerência
        entre discurso e prática e querem performar sem adoecer. A Deloitte – Global Gen Z and Millennial Survey (2023) aponta que mais de 60% desses profissionais considerariam deixar um emprego se ele estivesse afetando negativamente sua saúde mental.

        Há ainda o efeito reputacional: em um mercado mais transparente, em que a experiência do colaborador circula rapidamente em redes sociais e plataformas de avaliação, cuidar da saúde mental fortalece a marca empregadora e sinaliza maturidade de gestão, responsabilidade e visão de longo prazo. Ou seja: não é só sobre reduzir perdas, mas sobre construir um lugar onde as pessoas queiram ficar, crescer e entregar o melhor.

        5 – Legislação, compliance e prevenção de riscos

          Como a legislação trabalhista e as normas de saúde e segurança têm pressionado as empresas a olhar com mais atenção para a saúde mental, e quais riscos legais correm aquelas que ignoram essa agenda?

          A legislação e as normas de SST vêm puxando as empresas para essa agenda porque saúde mental deixou de ser tema subjetivo e passou a ser risco do trabalho. No Brasil, o Ministério do Trabalho e Emprego atualizou a NR-1 (Portaria de agosto de 2024) para exigir que as empresas incluam a avaliação
          de riscos psicossociais no gerenciamento de SST. Essa pressão regulatória dialoga com a realidade: os benefícios por incapacidade temporária associados à saúde mental no trabalho saltaram de 201 mil (2022) para 472 mil (2024), segundo a ONU Brasil com base em dados oficiais.

            E o risco de ignorar isso não é só tomar multa, mas adoecer gente de verdade e depois lidar com o rastro jurídico e reputacional. Quando uma organização não mapeia e não controla fatores como assédio, sobrecarga, metas inexequíveis e ambientes tóxicos, ela se expõe a autuações em fiscalização,
            ações do MPT, aumento de reclamatórias trabalhistas, pedidos de indenização por dano moral, e até discussões sobre nexo entre trabalho e adoecimento (com impactos em afastamentos, estabilidade e custos). Na prática, é o tipo de problema que começa pequeno, com uma crise de ansiedade, um burnout
            silencioso, um líder que aperta além do limite e termina grande: gente boa indo embora, times quebrados e a empresa pagando a conta em várias frentes ao mesmo tempo.

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