Filantropia permanente gera resultados mais eficientes para a sociedade e para as empresas
As empresas mineiras vêm desenvolvendo uma cultura de doações como estratégia permanente e integrada às suas políticas de compliance, por meio de iniciativas realizadas em conjunto com Organizações da Sociedade Civil (OSCs). Apesar dos avanços, ainda há muito o que fazer para superar a filantropia ocasional, que gera resultados menos eficientes para os beneficiados e para a sociedade.
Para o presidente da Fundação CDL-BH, Vilson Marynk, as ações sociais são uma necessidade, muitas vezes, ligadas a uma demanda específica. Ele avalia como fundamental a realização recorrente desse tipo de iniciativa, pois a ação isolada atende apenas às necessidades de um determinado momento, como nos desastres naturais.
Já as ações recorrentes, segundo o especialista, são capazes de contribuir para o combate a outros problemas que afetam o dia a dia da sociedade, como a fome, a pobreza e até questões psicológicas. “Quando falamos de filantropia, precisamos entender que o impacto social não vai ser construído com ações isoladas”, pontua.
O vice-presidente jurídico e institucional do Grupo Cedro Participações, Eduardo Couto, explica que a realização de iniciativas permanentes permite criar vínculos reais com as comunidades, fortalecer políticas públicas locais e contribuir para o desenvolvimento em diferentes frentes. Isso se reflete em projetos contínuos, com impacto mensurável, que vão além da doação e ajudam a construir autonomia e oportunidades reais para as pessoas.
“Entendemos que essas iniciativas fortalecem a relação de confiança com as comunidades, aumentam a previsibilidade social dos projetos e ajudam a construir um ambiente mais estável para a operação”, afirma.
Essas ações, segundo Couto, também refletem uma visão que vai muito além dos negócios, com o desempenho econômico e a responsabilidade socioambiental caminhando juntos. Ele esclarece que projetos permanentes permitem sair da lógica assistencialista e avançar para soluções estruturantes, com resultados reais. Isso resulta na melhoria da qualidade de vida, no estímulo ao desenvolvimento econômico e na redução da desigualdade social.
Para conseguir mensurar os resultados obtidos, Marynk acredita que é preciso ter previsibilidade, planejamento de médio e longo prazo, além de metas claras. Dessa forma, segundo ele, será possível transformar, estruturar e mudar a realidade de forma mais sustentável, sem responder apenas a demandas momentâneas e isoladas.
Principais vantagens

A diretora do Instituto Localiza, Alessandra Peixoto, acredita que as ações filantrópicas permanentes permitem que os diagnósticos sociais se transformem em diretrizes práticas para fortalecer o ecossistema social. Ela ainda pontua que o futuro desse tipo de iniciativa passa pela descentralização e pela escuta ativa dos territórios.
Alessandra Peixoto também cita as principais vantagens que esse tipo de iniciativa proporciona para o futuro dos jovens no Brasil, foco prioritário de trabalho do instituto. “Ao atuarmos como investidores sociais de longo prazo, contribuímos para que as iniciativas sociais atinjam um nível de maturidade capaz de gerar resultados positivos”, explica.
A vice-presidente do Instituto Ramacrisna, Solange Bottaro, avalia o apoio consistente das empresas como algo de grande relevância e eficiência. Ela relata que as ações pontuais têm menor potencial de contribuir para as organizações apoiadas quando comparadas a iniciativas permanentes. “Quando o trabalho passa a ser realizado com mais frequência e respeito, ele tende a promover mais ações de impacto na sociedade”, afirma.
Solange Bottaro esclarece que o apoio por meio da destinação de recursos financeiros é muito importante para as organizações, mas ressalta que também há outras maneiras de as companhias colaborarem. Entre as formas citadas por ela estão a qualificação dos gestores dessas entidades e o apoio em áreas mais específicas, como o esporte, por exemplo.
“Tudo isso deve ser bem elaborado pelas empresas e organizações sociais, pois o melhor dos mundos é quando esse tipo de iniciativa é construída em conjunto”, diz.
Desafios a serem superados no campo da filantropia
Para Alessandra Peixoto, os principais desafios a serem superados nesse tipo de trabalho com as organizações sociais estão na gestão e no monitoramento de projetos e dos jovens apoiados, sobretudo depois que concluem a fase de aprendizado técnico. “Por isso, investimos em acompanhamento contínuo”, ressalta.
Outro ponto citado é a evolução das organizações em seus próprios processos de mensuração de valor social, o que limita a captação de recursos. Para resolver esse problema, o Instituto Localiza oferece um programa de desenvolvimento organizacional focado em governança, sustentabilidade financeira e inovação.
Já o vice-presidente jurídico e institucional da Cedro Participações acredita que um dos pontos mais delicados é a conciliação das demandas imediatas das comunidades com a necessidade de soluções estruturantes e de longo prazo.
“As populações locais frequentemente enfrentam necessidades urgentes, enquanto projetos sustentáveis exigem planejamento, articulação e tempo para gerar resultados consistentes”, esclarece.
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Além disso, há a questão envolvendo a coerência entre discurso e prática. Eduardo Couto destaca a importância de que cada ação esteja alinhada aos valores, à estratégia ESG e aos compromissos públicos assumidos pela empresa. Outro desafio citado é a mensuração do impacto social, que nem sempre é imediata ou facilmente quantificável.
O especialista avalia que esse tipo de trabalho demanda metodologias específicas, definição de indicadores adequados e acompanhamento contínuo, além de transparência na comunicação dos resultados e dos aprendizados ao longo do processo.
Mudança cultural

O presidente da Fundação CDL-BH esclarece que a realização de ações pontuais é um modelo reproduzido por toda a sociedade brasileira. Esse costume, inevitavelmente, acaba sendo refletido em grande parte das empresas, uma vez que elas são constituídas por pessoas.
“Nós temos que começar a mudar essa cultura. As empresas devem ter a filantropia e as demais ações sociais como um objetivo de médio e longo prazo, e não apenas momentâneo. Na minha percepção, nós temos muito a evoluir”, avalia.
Seguindo essa linha de raciocínio, Solange Bottaro entende que, embora existam muitas empresas que já possuem esse tipo de ação em suas políticas de compliance, a cultura de doação e filantropia permanente ainda está em fase de amadurecimento.
Ela afirma que a relação com entidades do terceiro setor pode proporcionar às companhias maior reconhecimento perante a sociedade, algo importante em termos de governança. “O benefício não vai apenas para a organização e para os atendidos pelas ações que ela executa”, acrescenta.
A vice-presidente do Instituto Ramacrisna explica que, quando uma organização social é bem estruturada, ela é capaz de fazer uma boa prestação de contas, demonstrando o que foi trabalhado e os resultados obtidos, o que gera impacto positivo na imagem da empresa apoiadora.
Vilson Marynk destaca que a preocupação com a mudança de cultura deve ser de todas as empresas, incluindo aquelas de pequeno e médio porte. Esse processo pode começar pelo cuidado com o ambiente interno e com os funcionários, indo além de apenas responder às necessidades momentâneas, com o desenvolvimento de ações que possam refletir no dia a dia das equipes.
Para o especialista, a mudança de comportamento é um desafio coletivo e uma responsabilidade que envolve tanto o poder público quanto a sociedade civil organizada. “Às vezes, algumas pessoas querem tirar proveito de uma situação ou de um momento temporário para sua projeção, e isso tem que mudar. As pessoas devem entender a responsabilidade social como algo atrelado à sua missão de vida”, pontua.
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