Negócios

Economia criativa: Carnaval de BH impulsiona negócios liderados por mulheres

Carnaval movimenta pequenos negócios liderados por mulheres na capital mineira e concentra até 98% do faturamento anual de algumas marcas
Economia criativa: Carnaval de BH impulsiona negócios liderados por mulheres
Paula Lobato, proprietária da T Market | Foto: Diário do Comércio/ Ana Luisa Sales

Há pouco mais de dez anos, entre os meses de fevereiro e março, Belo Horizonte ficava tão calma e deserta que era possível sentar no meio da avenida Afonso Pena, uma das mais movimentadas da cidade, e não ser atropelado. Agora, as paisagens da cidade são outras. Já no início de janeiro, cores ocupam as esquinas e preparativos intensos sinalizam a chegada de um período vital para a economia da cidade: o Carnaval.

Neste ano, segundo dados da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), há a expectativa de circulação de cerca de 6,5 milhões de pessoas na Capital durante a festa, sendo 23,7% turistas. Isso significa que mais de 75% da folia será feita por belo-horizontinos e pela população do entorno.

Nesse cenário efervescente, mulheres criativas aproveitam a oportunidade para complementar a renda ou até mesmo abrir o próprio negócio, vendendo artigos personalizados para a folia. Afinal, Belo Horizonte, além de ser uma cidade que abraçou a festa, também se tornou um celeiro de novos empreendimentos carnavalescos.

Renda extra sazonal

No caso da designer Isadora Martins, proprietária da Doris Arteira, o amor ao Carnaval está no sangue. Ela é uma das empreendedoras que vê nesse período uma chance de conseguir uma renda extra. Vinda de Ubá, na Zona da Mata mineira, a designer lembra que sua relação com a festa começou ainda na infância: “Meu avô cuidava de uma escola de samba, e eu fazia os adereços das fantasias com ele. Sempre gostei de me fantasiar e de criar”.

Já em Belo Horizonte, a vivência com o design e o artesanato abriu espaço para a criação da marca. “Vi a possibilidade de unir duas coisas que eu gosto muito, que são o Carnaval e o design”, afirma. A rotina, porém, está longe de ser leve. “Trabalho das 9h às 19h em uma empresa e, no restante do tempo, produzo as peças em casa, tudo de forma artesanal”.

O esforço se concentra no início do ano. “Nesses meses, consigo fazer uma renda equivalente ao meu salário, justamente no período do Carnaval, mas a loja ainda não é minha fonte de renda principal”, comenta.

Em outro ponto da cidade, na É para Brilhar, de Drika Oliveira, a sazonalidade também traz desafios. A marca, que começou em 2016 a partir da venda de glitter comum, viu o público-alvo se transformar quando desenvolveu a própria receita de glitter biodegradável. “Senti a necessidade de trabalhar com um produto mais consciente. Não dá para ser perfeito, mas o mínimo que a gente pode fazer já é alguma coisa”, afirma.

Glitter É Para Brilhar
Bioglitter | Foto: Divulgação É Para Brilhar

Com o passar do tempo, a marca diversificou o portfólio com a venda de biocosméticos, mas a festa segue como principal fonte de renda da empresa. “Cerca de 98% do faturamento vem do Carnaval. Se todo mês fosse Carnaval, eu conseguiria viver só disso. Mas é um negócio sazonal, uma empresa de temporada. Hoje, faço outros produtos, e a É para Brilhar deixou de ser só uma empresa de glitter e virou também uma empresa de biocosméticos, mas a movimentação mesmo é no Carnaval”, avalia.

Carnaval como porta de entrada para negócios consolidados

Já a loja Gabiroba conseguiu estruturar um modelo mais equilibrado. A proprietária, Isabela Peixoto, conta que a marca nasceu em 2019, a partir de uma tradição familiar ligada à costura. “Minha mãe e minha avó faziam fantasias para mim e minhas irmãs. Sempre tivemos esse costume de criar”, relata. Com a expansão do Carnaval de rua em Belo Horizonte, a ideia ganhou forma. “Percebemos que aquilo que a gente fazia para uso próprio poderia virar um negócio”, diz.

Segundo ela, o Carnaval representa entre 30% e 40% da receita anual da marca: “É o nosso Natal”. Embora a empresa já tenha uma produção consolidada, nos meses que antecedem a festa, a preparação para os pedidos mobiliza toda a família. “Minhas irmãs ajudam mais nesse período, e até meus pais entram na produção”, conta Isabela Peixoto.

Outro negócio que começou de forma improvisada no Carnaval e se consolidou é a loja T Market. Com um estilo próprio, composto por estampas e cores, a proprietária da marca, Paula Lobato, entendeu que a folia belo-horizontina era o momento ideal para colocar em prática tudo o que aprendeu na faculdade de moda.

“A T Market surgiu no formato atual por causa do Carnaval. Em 2016, a ideia já existia, mas com outro nome e outro tipo de produto. Foi no Carnaval que percebi a oportunidade de criar peças direcionadas à festa. A partir de 2017, a marca começou a se consolidar e a crescer junto com o movimento”, relembra a lojista.

A ideia deu certo, e a T Market funciona a todo vapor mesmo fora da época de Carnaval. “A marca existe o ano inteiro. Trabalhamos com peças coloridas, especialmente com padronagens estampadas. São roupas sem recorte de gênero, pensadas para qualquer pessoa que goste das peças.” Mas é na época da folia que Paula Lobato vê os lucros crescerem: “No período do Carnaval, o faturamento tem aumento significativo, entre 120% e 150%, impulsionado pelo fluxo de pessoas e pelo movimento nas ruas”, comenta.

Renata Reis, proprietária da Affeto, marca de pijamas que passa a produzir exclusivamente roupas de Carnaval durante o período, acompanha a evolução da folia há cerca de uma década. “Comecei de forma despretensiosa, quando o Carnaval de BH ainda não era como é hoje”, conta. Segundo ela, a atividade nunca foi apenas renda extra: “Eu já trabalhava com costura e figurino. O Carnaval virou mais um nicho do meu trabalho”.

Apesar de não ser o foco principal da marca, a empresária observa que, a cada ano, mesmo sem um grande esforço de divulgação, fatura mais no Carnaval. “Sempre tenho aumento de faturamento, mas não necessariamente aumento no volume de clientes. Às vezes, o crescimento vem de reajuste de valores ou de pedidos com mais peças por cliente”, explica.

‘Grande momento para a economia’

Para o presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH), Marcelo Souza e Silva, a festa é um momento grandioso para a economia da capital. “O Carnaval hoje não é apenas um evento cultural; movimenta uma cadeia econômica inteira”, afirma.

Segundo ele, a economia criativa e o artesanato fazem parte de um ecossistema que começa muito antes dos dias oficiais da festa. “Esse trabalho acontece ao longo de todo o ano e envolve desde quem produz até o comércio que fornece os insumos. É um ciclo que se retroalimenta”, diz.

Para o dirigente, o período carnavalesco é diferenciado tanto para empreendedores formalizados quanto para quem encontra na festa uma alternativa de geração de renda: “Muitas vezes começa por necessidade, mas pode se transformar em uma oportunidade real de negócio”.

No consumo, os dados ajudam a explicar a força desse mercado. Segundo a PBH, neste ano, 35,1% dos foliões pretendem fazer a própria fantasia, enquanto 16,1% devem comprar fantasias prontas. Entre os que vão adquirir itens, 67,4% afirmam que pretendem comprar em lojas de acessórios, 49,8% em armarinhos e 35,6% em lojas de roupas, cenário que favorece pequenos negócios autorais espalhados pela cidade.

Carnaval e empreendedorismo feminino

Loja com artigos de Carnaval na Galeria do Ouvidor
Loja com artigos de Carnaval na Galeria do Ouvidor | Foto: Diário do Comércio/ Ana Luisa Sales

É nesse cenário que o Carnaval de Belo Horizonte se consolida como vitrine para o empreendedorismo feminino. A analista do Sebrae Minas, Kênia Cardoso, observa que o crescimento da festa mudou a lógica de atuação dos pequenos negócios.

“Hoje, sabemos que vêm turistas do Brasil inteiro para participar do Carnaval, e os empreendedores que têm perfil criativo se preparam para vender aos foliões”, afirma. Segundo ela, o trabalho não se limita aos dias de festa: “Eles começam antes, com forte atuação nas redes sociais, principalmente no Instagram e no WhatsApp Business. É todo um planejamento feito antes e também durante o evento”.

De acordo com a especialista, esse movimento impulsiona marcas autorais que conseguem dialogar com o público para além da fantasia descartável. “A moda autoral tem DNA. Normalmente, o empresário desenvolve produtos em pequena escala, com foco muito específico em determinado público”, afirma.

Ela destaca que muitas peças criadas para o Carnaval também são pensadas para outros contextos. “Não necessariamente a roupa usada no Carnaval é exclusiva do Carnaval. Ao longo do ano, essas empresas produzem coleções mais discretas, fazem collabs e mantêm a marca ativa”, diz.

Desafio: o peso dos insumos

Se a criatividade impulsiona, os custos impõem limites. Para Isadora Martins, da Doris Arteira, os insumos são um dos principais entraves. “Os materiais são caros, e muitos não são encontrados em Belo Horizonte”, afirma.

Segundo ela, compras pela internet ou viagens para centros como São Paulo e Rio de Janeiro acabam sendo incorporadas ao preço final: “Eu tento manter as peças acessíveis, mas precisei aumentar os preços para manter a margem de lucro”.

Em alguns casos, a solução é não produzir. “Às vezes, eu deixo de fazer uma peça porque não compensa pelo valor que eu teria de cobrar”, relata.

Na Gabiroba, Isabela Peixoto aponta impacto semelhante. “O preço dos tecidos subiu muito depois da pandemia e não voltou ao normal”, diz. Segundo ela, isso encarece a produção e exige mudanças no processo. “Alguns insumos precisaram ser cortados porque não valem mais a pena”, completa. A alternativa tem sido buscar novos fornecedores e materiais.

Renata Reis, da Affeto, também observa pressão nos custos, especialmente nos aviamentos. “Franjas, bordados e materiais de enfeite encareceram muito”, afirma. Segundo ela, uma franja mais elaborada pode ultrapassar R$ 180 o metro, o que eleva o valor final da peça. “Muitas clientes acabam desistindo, e precisamos adaptar o projeto ao orçamento”, explica.

Paula Lobato, da T Market, relata estratégia semelhante. “Uma das formas de lidar com o aumento de custos foi antecipar o desenvolvimento das coleções”, afirma. Segundo ela, produzir antes ajuda a conseguir melhores condições de compra. “Mesmo assim, alguns reajustes são inevitáveis”, diz.

Loja T Market
Loja T Market | Foto: Diário do Comércio/ Ana Luisa Sales

Apesar dos obstáculos, o trabalho dessas mulheres traz personalidade ao visual do Carnaval de Belo Horizonte. A cidade fica mais colorida e viva porque cada folião leva no corpo adereços e roupas criados por essas empreendedoras. O esforço, que começa individualmente, termina em uma rede que sustenta a beleza da festa e faz a economia girar.

“No fim de janeiro e durante o período do Carnaval, a movimentação chega a cerca de R$ 1,2 bilhão. Esse impacto ocorre antes, durante e depois da festa. Não é só o artesanato ou a economia criativa que se beneficiam. Todos os segmentos ganham com esse dinheiro circulando na cidade”, avalia o presidente da CDL/BH, Marcelo Souza e Silva.

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas