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Cine Theatro Brasil amplia atuação e reforça conexão com o Centro

Sob nova gestão, espaço histórico aposta em formação, parcerias e diversificação de receitas para ampliar atuação cultural
Cine Theatro Brasil amplia atuação e reforça conexão com o Centro
Eliane Parreiras tem 30 anos de experiência na área cultural | Foto: Júlia Lanari / Cine Theatro Brasil

Ícone da arquitetura e da memória cultural de Belo Horizonte, o Cine Theatro Brasil chega aos 94 anos em um momento de renovação. Sob a gestão de Eliane Parreiras, o espaço amplia sua atuação para além da programação artística, com foco em formação de público, sustentabilidade financeira e fortalecimento de parcerias com a iniciativa privada. Em sintonia com o movimento de revitalização do Centro, o equipamento cultural aposta na ocupação diversificada, na integração com outros agentes culturais da Praça Sete e na consolidação de um modelo que combine acesso, gestão profissional e impacto econômico.

Eliane Parreiras recebeu o Diário do Comércio, com exclusividade, para falar do presente e futuro do Centro Cultural.

Vamos começar por esse espaço que é lindíssimo. É o primeiro edifício em art déco de BH. Qual a importância para a cidade e qual a responsabilidade de cuidar dele, que é, inclusive, um bem tombado?

O Cine Brasil tem várias dimensões. É, sem dúvida nenhuma, um patrimônio cultural importantíssimo. Tem um valor arquitetônico e estético gigantesco. Foi um prédio pioneiro, durante muitos anos, foi um dos mais altos da cidade. O concreto armado também foi uma novidade para a época. Ao mesmo tempo, faz um uso muito interessante do terreno em formato de leque. Ele foi pensado para esse lugar, no cruzamento dos eixos da cidade de Belo Horizonte, que são as avenidas Amazonas e Afonso Pena.

É também um prédio que nasce com um funcionamento muito especial, pois era o maior cinema do Brasil e um dos maiores da América Latina, e também já começa como um centro comercial.

E, por fim, eu acho que tem uma dimensão muito importante, que é a afetiva. Gerações foram formadas aqui. Chegamos a ter, na década de 1950, um restaurante popular, inaugurado por Juscelino Kubitschek.

E ele encerrou suas atividades com cinema em 1999. Foram anos até que, em 2006, a Fundação Sidertube, ligada à Vallourec, fez a aquisição e realizou esse trabalho extraordinário de restauração e recuperação.

E, assim, o Cine Brasil foi devolvido para a cidade como foi concebido. Ele passou por muitas descaracterizações ao longo do tempo, até a retomada. Foi um trabalho excepcional e, em seguida, já funcionando como um centro cultural diverso, com uma equipe de excelência. Mais de 2,5 milhões de pessoas já passaram por aqui nesses quase 13 anos. Então, é realmente extraordinário quando a gente pensa no que significa esse espaço ser devolvido e a iniciativa privada se engajar, se envolver, entendendo o papel da cultura para o desenvolvimento social e econômico de uma cidade.

E qual é a sua memória com o Cine Brasil?

Até meus 10 anos, eu morei em Brumadinho, mas meus pais são intelectuais e, todo fim de semana, a gente vinha a Belo Horizonte usufruir da vida cultural da cidade. Eles eram muito apaixonados por cinema, então, na minha infância, eu vim muitas e muitas vezes aqui assistir aos filmes infantis, dos Trapalhões e outros filmes nacionais, e depois vim muito na adolescência. Sofri muito quando esse espaço foi fechado.

Eliane Parreiras
Foto: Diário do Comércio / Giulia Simmons

Aqui é o lugar do encontro das pessoas com a produção artística, com o artista, e também do encontro entre elas, e isso não sai do nosso imaginário. É por isso que hoje a gente tem um programa educativo que é extraordinário. Ele quer despertar esse olhar não só no público infantil, mas também em grupos específicos, para que tenhamos cada vez mais a consciência da importância desse momento de reflexão, do estar junto, do fruir a cultura, do se emocionar.

Essa é uma parte importante da relação do Cine Theatro com a cidade, especialmente com a Praça Sete, certo?

Isso é um tesouro. Temos diversos programas que dialogam com o público que está na região central, uma relação muito forte com os movimentos culturais que estão aqui na Praça. Temos o programa P7 Instrumental, de música instrumental. Também o Quarteirão das Artes, que é incrível, que tem a preocupação de dialogar com as outras instituições culturais e com os outros movimentos culturais que habitam a região. É uma diversidade cultural extraordinária que a gente tem aqui.

Depois de sete anos de restauração, o Cine Brasil chega em um momento de revitalização do Centro. Foi um momento muito especial e forte dessa relação com esse público que flutua, com os movimentos culturais, e a gente quer ampliar ainda mais essa conversa.

Queremos fortalecer muito essa rede de parceiros, de instituições, de empresas privadas, de investimentos, da produção cultural. Poucas metrópoles têm um centro como o nosso, diverso e seguro. É um espaço de vivência, da experiência da cidade.

Falando agora da gestão de um espaço cultural. Você tem 30 anos de gestão cultural, tanto na iniciativa pública como na privada. O que você traz dessas experiências aqui para dentro?

Ao longo desses 30 anos, o que eu pude perceber é a profissionalização do setor cultural, que é algo muito importante. E isso passa pela gestão de equipamentos culturais, pelo uso das leis de incentivo à cultura e pelo fomento cultural. Passa também pela produção, pelo diálogo e pela reflexão sobre a cidade e os projetos que a ocupam.

E existe um agente muito importante nessa equação, que é o setor privado. Ele traz não só o investimento, mas também diversos aspectos de uma tecnologia de gestão, que é muito importante. E aí, quando você fala de sustentabilidade de um equipamento cultural como esse, de uma associação como é a Associação Cultural Cine Theatro Brasil, a gente realmente fala de uma equação que envolve diversas dimensões.

A primeira delas é a receita própria. Precisamos gerar receita a partir de uma política de ocupação plena dos espaços. Não adianta colocar um ticket médio lá em cima e perder em escala. Tem toda uma estrutura que está voltada para as produções, que são artesanais. Ela é construída de acordo com o mercado, com o dia a dia da produção, com a formação de público, dos hábitos culturais.

Então, é um conjunto de ações relacionadas a essa composição de receitas, seja nos espetáculos, das locações, do restaurante, dos eventos corporativos, que têm um papel importante nesse equilíbrio para que a gente possa subsidiar a produção cultural.

A segunda dimensão é a questão do uso das leis de incentivo à cultura e do patrocínio privado. As leis de incentivo, municipais, estaduais e federais, vêm num modelo muito importante não só para fortalecer essa produção artística, mas para fortalecer as instituições e a infraestrutura cultural do País.

Esse processo da utilização das leis exige, como contrapartida, a democratização do acesso. É uma responsabilidade no uso desse recurso que é privado, mas que tem uma dimensão pública por ser incentivado. Essa responsabilidade é algo estruturador e fundamental.

Hoje, a grande discussão é como a reforma tributária vai afetar a produção cultural, porque há uma dependência absoluta do setor das leis estaduais e municipais. Então, a gente está buscando fortalecer e criar esse vínculo ainda maior com esses parceiros e buscando ampliar essa rede de investidores.

É um trabalho muito fino, muito especializado, de quem tem experiência. A minha chegada tem o intuito de fortalecer essa equipe de excelência do Cine Brasil para a gente ampliar o universo de parceiros. Mostramos que investir em cultura é mais do que uma oportunidade extraordinária de comunicação com a sociedade, mas que a cultura é, especialmente, um motor do desenvolvimento econômico e social.

Qual é o papel do Teatro de Câmara na programação e no fortalecimento da produção local?

A restauração pensou no Cine Brasil como um centro cultural, e era importante ter um teatro menor, que pudesse acolher outras produções. Ele tem sido ocupado com muita produção local. Grandes projetos como a Mostra Cine BH, da Universo Produção, fazem sua abertura aqui. Tivemos a sessão do Agente Secreto, em pré-estreia, na abertura da Mostra do ano passado. Foi uma loucura, porque foram filas e filas no centro de Belo Horizonte. Foi um momento muito emocionante. Eu acho que a produção brasileira vive um momento com uma safra muito boa, e a produção de Belo Horizonte também tem tido uma visibilidade. Tem um projeto de internacionalização, e aí eu vou tomar a liberdade de falar um pouco de onde eu vim.

Como iniciativas como o BH nas Telas e a Film Commission impactam o audiovisual em BH e o próprio Cine Brasil?

Eu saí recentemente da Secretaria Municipal de Cultura de Belo Horizonte e é muito importante falar da importância também do poder público dentro desse contexto. Existe um programa que é o BH nas Telas, que foi institucionalizado pela prefeitura. Esse programa tem uma série de eixos de atuação. Este ano vai ser muito especial para o fomento, porque vão ter os arranjos regionais do governo federal em parceria com os municípios e Estados. Então, só em Belo Horizonte vão ser mais de R$ 8 milhões diretos do arranjo regional, mais R$ 2 milhões de contrapartida do município.

Outra coisa muito importante é o Belo Horizonte Film Commission, que tem o papel de prospectar e de viabilizar as filmagens na Capital. As produções, por exemplo, que vieram para Belo Horizonte no ano passado, investiram mais de R$ 30 milhões. É dinheiro gasto na cidade que tem um impacto muito grande. E é importante uma cidade ser cenário de produções.

Voltando ao Cine Brasil, é fazer tudo isso também sendo responsável ambientalmente e socialmente, né?

A Associação Cine Theatro Brasil tem a missão de ampliar a sua atuação a partir dessa vertente. Aplicamos nesse espaço todas as questões relacionadas à sustentabilidade. Pensamos em soluções de médio e longo prazo e isso passa também pela sustentabilidade financeira. Quais instrumentos, planejamentos e metodologias temos para isso? Entendo que é o desafio que mais se apresenta para mim. As instituições culturais precisam ter dentro do seu planejamento esse pensamento estratégico. É uma construção de futuro que precisa de muita gente, é coletiva.

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