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Indústria têxtil encerrou 2025 com sinais positivos, porém em desaceleração

Entidade que representa o setor, a Abit, está cautelosa com o desempenho de 2026
Indústria têxtil encerrou 2025 com sinais positivos, porém em desaceleração
Eventual crescimento da produção neste ano deve ser sustentado pela retomada gradual do crédito interno, pela queda lenta dos juros e controle da inflação | Foto: Reprodução Adobe Stock

Sempre sensível às variações da economia interna e às pressões do comércio internacional, a indústria têxtil e de confecção (T&C) brasileira encerrou 2025 com sinais positivos, porém em desaceleração. Os dados consolidados do ano passado pela Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), mostram aumento de 6,8% na produção têxtil e avanço muito contido, de 0,7%, na confecção, na comparação entre janeiro e novembro frente ao mesmo período do ano anterior. No varejo de vestuário, as vendas cresceram 2% no acumulado do ano, refletindo a recuperação gradual do poder de compra das famílias e a desaceleração da inflação.

O mercado de trabalho acompanhou essa trajetória. Entre janeiro e novembro de 2025, a indústria têxtil e de confecção criou 21,9 mil postos formais de trabalho.

O ano de 2026, porém, é visto pela Abit com cautela. O eventual crescimento da produção deve ser sustentado pela retomada gradual do crédito interno, pela queda lenta dos juros e controle da inflação. Por outro lado, persistem limitações estruturais relevantes, como o elevado custo de capital, que retarda novos investimentos produtivos e, sobretudo, a intensificação da concorrência externa, com destaque para produtos importados da Ásia, especialmente da China, e a concorrência aberta a partir do acordo entre Mercosul e União Europeia.

Eduardo Cristian
Foto: Divulgação

Para o fundador da Costurando Sucesso – consultoria do mercado têxtil e de confecção no Brasil, Eduardo Cristian, vão prosperar as empresas que souberem equilibrar eficiência produtiva e fortalecimento de marca. Modelos baseados apenas em volume e sem propósito tendem a perder relevância.

Com isso, ele lista seis competências serão essenciais para o crescimento do setor em 2026:

  • Comunicação transparente como diferencial competitivo: marcas que comunicam claramente seus processos, atitudes e valores ganham vantagem. Sustentabilidade e produção sob demanda passam a ser diferenciais percebidos pelo consumidor, desde que bem comunicados;
  • Omnichannel consolidado e mais desafiador: a presença em múltiplos canais exige consistência. O maior desafio é evitar rupturas na comunicação, o que só é possível com equipes internas fortes, capazes de manter a essência da marca;
  • Valorização da mão de obra como pilar reputacional: práticas consistentes de gestão de pessoas, cuidado com o clima organizacional e adoção genuína de princípios ESG tornam-se determinantes para fortalecer reputação e propósito nas empresas de confecção. Marcas que valorizam verdadeiramente suas equipes ganham vantagem competitiva e se destacam no mercado. Além disso, o conceito de Life Long Learning passa a ser imprescindível para ampliar a eficiência da gestão, aprimorar processos e impulsionar a inovação;
  • Hipersegmentação: nichos como estratégia de crescimento: em um país diverso como o Brasil, marcas generalistas perdem força. O futuro está em definir nichos específicos para criar narrativas, produtos e comunicações mais assertivas e eficazes;
  • Narrativas fortes impulsionando categorias de produto: storytelling estratégico ganha protagonismo. Histórias bem construídas sobre matéria-prima, tecnologia e propósito agregam valor e podem até criar novas categorias de mercado, como ocorreu com as “tech t-shirts”;
  • Visão internacional de mercado: a busca por conhecimento sobre o mercado externo torna-se essencial para acompanhar de perto as tendências globais, antecipar transformações do setor e manter as empresas conectadas às melhores práticas de gestão. Essa visão ampliada permite decisões mais estratégicas e competitivas;
  • Impactos da Reforma Tributária no setor têxtil: é essencial que as empresas monitorem a regulamentação e as normas complementares, buscando orientação técnica de entidades representativas e consultorias especializadas sempre que necessário.

“O consumidor de moda deixou de buscar apenas preço ou estilo, hoje ele quer se identificar com a marca, sentir pertencimento e enxergar propósito. Então, além de investir na qualidade de produto, as empresas precisam investir também em comunicação emocional e modelos de negócio baseados em relacionamento contínuo. Quem vende só produto e preço perderá espaço. Conexão é o que garante margem e fidelidade”, afirma Cristian.

Responsável por 12,3% do total de empresas do setor de T&C brasileiro, em 2025, Minas Gerais – atrás de São Paulo (25,5%) e Santa Catarina (18,5%) – apresenta um cenário alinhado com o do Brasil. Em 2024, o faturamento do Estado foi de R$ 21,7 bilhões, representando 9,8% do faturamento nacional (R$ 221 bi). O Índice de volume de vendas no comércio varejista – Tecidos, vestuário e calçados – para Minas registrou variação acumulada de 1,2%, entre janeiro e novembro de 2025, em relação a igual período do ano anterior, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE).

Também segundo a Abit, com dados da ComexStat, as importações de Minas Gerais do setor têxtil e de confecções, em quilos, variaram 2% em 2025 na comparação com 2024 e as exportações cresceram 32% no mesmo período.

“Minas Gerais segue um estado fundamental para a indústria têxtil brasileira, porém vem perdendo relevância nas últimas décadas por ter abandonado a sua originalidade. De um polo que ditava tendências entre os anos de 1980 e 2000, está resumido a poucas marcas e polos produtivos que já não atraem tantos compradores. Falta coordenação entre as ações que estão espalhadas pelo Estado”, pontua o consultor.

Indústria têxtil não está preparada para acordo com a Europa

Segundo o diretor-superintendente da Abit, Fernando Valente Pimentel, o celebrado acordo assinado entre a Europa e o Mercosul marca uma grande oportunidade para o Brasil, mas também exige um esforço para a ampliação da competitividade da indústria nacional.

“A União Europeia já é um parceiro comercial relevante e uma das principais origens de máquinas e equipamentos têxteis. Com o acordo, a sustentabilidade deixa de ser apenas um diferencial e passa a ser um requisito competitivo. O desafio será alinhar essa agenda a políticas internas que ampliem a competitividade da indústria nacional, evitando assimetrias regulatórias”, observa Pimentel.

Fernando Valente Pimentel
Foto: Divulgação

Já para o fundador da Costurando Sucesso, o acordo é uma “faca de dois gumes” para o setor têxtil brasileiro. Se, de um lado, o continente europeu se abre aos produtos brasileiros, de outro, não estamos preparados para atender a esse mercado. Segundo ele, poucas empresas – inclusive entre as grandes – possuem atributos mínimos para o comércio internacional, como um site bilíngue ou uma equipe capaz de compreender as nuances burocráticas e tarifárias internacionais, por exemplo.

Do outro lado, a Europa está pronta para desbravar o cobiçado mercado brasileiro, com mais de 200 milhões de consumidores em potencial.

“Em setembro do ano passado fui convidado para uma reunião com um grupo de empresários europeus para falar sobre essa a abertura de mercados. Eles já estavam se preparando, mesmo antes do acordo ser assinado. Eles me convidaram para falar de algumas questões do mercado brasileiro e também para ver como poderiam colocar as marcas deles no Brasil. Eles já tinham estudado tudo. Já sabiam sobre logística, a burocracia brasileira, entre outros pontos. Eles só queriam, mesmo, criar conexões através dos meus contatos para já começarem a fazer negócios”, relembra.

E na opinião do especialista, o resgate da originalidade mineira pode ajudar o Brasil a proteger a indústria têxtil nacional de uma avalanche de produtos europeus e asiáticos e, ainda, projetar o País internacionalmente.

“Apesar de ter perdido protagonismo, Minas continua grande e resgatar os seus melhores atributos em consonância com as tendências contemporâneas pode ser o caminho para o Brasil parar de se defender e começar a se adaptar para atacar. Minas tem história, talentos, um bom parque fabril, mas faltam políticas coordenadas para produzir e para vender. A China não vende muito porque fabrica muito. Ela vende muito porque antes se preparou para ser a melhor vendedora. E essa não é uma tarefa só para o governo brasileiro, mas também para cada empresa”, completa o fundador da Costurando Sucesso.

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